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terça-feira, julho 28, 2026

Tejo

Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

terça-feira, julho 14, 2026

Lisboa das naus cheias de glória

Almada Negreiros

  Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos líricos pregões…
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos prováveis de Camões!
Ó Lisboa de mármore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa…
Ó Lisboa das meigas Procissões!

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavaleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidades de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De proa para países estrangeiros!
Uns pra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros pras Índias, outros… sabe-o Deus!

Ó Lisboa das ruas misteriosas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da Índia, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus…)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.
(…)
António Nobre - Despedidas: 1895-1899, 1902

segunda-feira, julho 13, 2026

O Médio Oriente e a Biblioteca de São Lázaro

 O Médio Oriente é um dos berços históricos do conhecimento, albergando algumas das bibliotecas mais antigas do mundo e, mais recentemente, edifícios ultra-modernos. 

A região possui uma tradição milenar de preservação do conhecimento, que remonta a marcos da antiguidade como a Biblioteca de Assurbanipal (na atual Mesopotâmia/Iraque) e a mítica Biblioteca de Alexandria (no Egito).

Se reside em Portugal e tem interesse na temática, pode também visitar a Biblioteca Pública do Médio Oriente e Norte de África, localizada na histórica Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa. Este pólo cultural promove a interculturalidade e disponibiliza obras em árabe, persa, hebraico, turco e urdu.

A Biblioteca de São Lázaro é a biblioteca pública mais antiga de Lisboa.

Criada em 1883, a Biblioteca de São Lázaro está instalada num edifício de arquitetura neoclássica erudita dos finais do séc. XIX. Tem como ex-libris, o seu Salão Nobre, no qual se destacam a disposição hexagonal da sala, o mezanino e o mobiliário da época, transportando os leitores para uma atmosfera verdadeiramente única em toda a cidade.



A beleza deste salão tem motivado um sem número de trabalhos de filmagem, fotografia e, só por si, vale a pena uma visita. O valor histórico e patrimonial do edifício da biblioteca municipal mais antiga de Lisboa é indiscutível.

terça-feira, junho 30, 2026

Nôs Morna

 Ouça Cremilda Medina (1991) e Tito Paris (1963) em Nôs Morna. 
Considerada a Voz da Morna (Património da Humanidade) da nova geração, Cremilda Medina é uma das mais conceituadas intérpretes da música tradicional cabo-verdiana. 
Cremilda Medina nasceu e cresceu na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente em Cabo Verde, e desde criança que a música faz parte da sua vida. Começou a cantar com apenas 9 anos e aos 14 já fazia parte de um grupo musical juvenil chamado "Rytmos" que animava festas e acontecimentos sociais na ilha do Monte Cara.
Tito Paris é um músico, compositor e cantor cabo-verdiano, radicado em Lisboa. É um dos maiores responsáveis pela divulgação da música das ilhas da Morabeza pelo mundo, além de uma figura de relevo da comunidade africana na capital.

sábado, abril 25, 2026

25 de Abril - Roteiro da Revolução

 25 de Abril - Roteiro da Revolução, Uma Viagem Pelos lugares Que Marcaram A Revolução, é um livro de José Mateus, Susana Gaudêncio e Raquel Varela.

Sinopse:
Terminou no dia 25 de abril de 1974 a ditadura do Estado Novo. Um grupo de oficiais das Forças Armadas pegou em armas e depôs um regime há muito decadente. Contra os vários apelos do MFA para que as pessoas ficassem em casa, tem início um processo que ficará conhecido como Revolução dos Cravos.
A partir desta obra é possível seguir todos os passos que conduziram ao golpe de Estado que deitou por terra a ditadura, na origem de um processo que ficará conhecido como Revolução dos Cravos. Um livro composto por três autores que é, na verdade, uma viagem pelos lugares que marcaram a revolução em Lisboa, Porto, Santarém e Peniche. O que aconteceu em cada lugar, um guia da revolução, acompanhado dos testemunhos de civis e militares de quem esteve lá, e da análise histórica que fazem desta obra um importante e rigoroso registo daquele que é o evento mais significativo da história contemporânea portuguesa. 

quinta-feira, abril 16, 2026

As Filhas do Terramoto

As Filhas do Terramoto é um livro (2026) do escritor português Domingos Amaral (Casa das Letras) e uma sequela de Quando Lisboa Tremeu, um dos bestsellers do autor.

Lisboa, 1758. Sete raparigas desaparecem misteriosamente para serem transformadas em escravas sexuais. Que terrível conspiração domina a cidade?

Sinopse:
No verão de 1758, menos de três anos depois do grande terramoto que destruiu Lisboa, a população vive alarmada com o desaparecimento de sete raparigas cujos corpos nunca foram encontrados. Incomodado, Sebastião José de Carvalho e Melo, poderoso ministro do rei D. José, nomeia um recém-formado em Direito, Pina Manique, para investigar essas estranhas ocorrências.
No entanto, existem apenas vagas suspeitas sobre uns mercadores árabes. Para tentar acusá-los, Sebastião José dirige-se às masmorras da Torre de Belém para convencer Santamaria, um piloto de barcos, a auxiliá-lo na investigação, uma vez que o prisioneiro fala a língua dos árabes. A troco dessa ajuda, oferece-lhe a liberdade.
Santamaria recusa a proposta, até saber que uma das raparigas desaparecidas é a sua filha Assunção. É então que aceita ajudar na investigação, mergulhando numa cidade ainda atordoada pelo cataclismo. Nela, o piloto cruza-se com o seu filho Filipe, a antiga escrava Ester, o místico Abraão e o seu rival do passado, Hugh Gold, que em tempos disputou com ele o amor de Margarida, a paixão que Santamaria deseja agora rever.
De repente, Santamaria vê-se envolvido numa terrível conspiração, pois enquanto tenta encontrar a sua filha e desvendar os desaparecimentos, tem de evitar ser implicado no processo dos Távoras.
Numa Lisboa onde Sebastião José já começara a impor a sua lei de ferro, surge então esta história de amor de um pai pelos seus filhos e a sua simultânea tentativa de reencontrar a mulher por quem um dia se apaixonou.

sábado, março 28, 2026

Os Portos Fluviais do Tejo

Salvaterra de Magos - Vala Real
 Os Portos Fluviais do Tejo foram historicamente fundamentais para o desenvolvimento de Lisboa (foz e porto de abrigo) e do Ribatejo, servindo como eixos logísticos vitais para o transporte de mercadorias (vinho, lenha, pedra) e pessoas. Locais como Vila Franca de Xira (antiga zona de armadas e cais de pesca),o Porto de Muge (conhecido pela influência das marés - a ação das marés estende-se longe, afetando a navegação até áreas a cerca de 70 km da foz- e ligação à pesca), Salvaterra de Magos - Vala Real (antigo e crucial canal de transporte de mercadorias) e o novo terminal da Castanheira do Ribatejo (terminal fluvial em desenvolvimento para cargas) destacam-se na ligação entre margens e o estuário.

A chegada do comboio no séc. XIX reduziu a importância comercial, mas os portos mantêm relevância no turismo, desporto e, recentemente, no transporte de cargas para reduzir o tráfego rodoviário.

A valorização do território baseia-se nestes antigos portos, que hoje se reorientam para o lazer e a sustentabilidade.
Se quiser saber mais alguma coisa sobre este assunto assista ao programa Visita Guiada sobre os Antigos Portos Fluviais do Baixo Tejo.

A partir da história da navegação no rio Trancão e passando pela antiga Vala Real de Salvaterra de Magos, o geógrafo Jorge Gaspar explica-nos como os afluentes do Baixo Tejo serviram, durante séculos, para alimentar Lisboa.
O decano Jorge Gaspar guia-nos ainda por algumas das mais emocionantes histórias dos grandes rios da Europa, defendendo que foram as navegações fluviais que construíram a identidade do território que se estende do Cabo da Roca aos Urais.

sexta-feira, março 27, 2026

Dia Mundial do Teatro

O teatro é uma forma de arte milenar que consiste na representação de histórias, emoções e conflitos humanos perante uma audiência, utilizando atores, cenários e técnicas de palco. O termo originário do grego theatron ("lugar para ver"), abrange a dramaturgia, o edifício físico e a arte cénica. 

Hoje 27 de março assinala-se, em todo o país e no resto do mundo, mais um Dia Mundial do Teatro. 

Muitas salas lisboetas prestigiam esta data com espetáculos gratuitos e outras atividades relacionadas com a grande arte do palco.

Se está em Lisboa pode ir até ao Teatro da Trindade que celebra este dia com uma programação especial. No teatro dirigido por Diogo Infante, pode participar em duas visitas guiadas, e assistir aos espetáculos Brokeback Mountain, na sala estúdio, e A Gaivota, na sala Carmen Dolores.

 Já A Barraca,  dirigida por Maria do Céu Guerra e Hélder Mateus Costa comemora este dia com dois espetáculos: A Farsa de Inês Pereira e O Príncipe de Spandau.

Em 2026, o ator e criador de teatro Willem Dafoe é o autor da mensagem que tradicionalmente é lida nos teatros de todo o mundo a 27 de março, Dia Mundial do Teatro. Esta mensagem, que pode escutar no vídeo abaixo, é divulgada com antecedência para potenciar a sua divulgação.

segunda-feira, março 09, 2026

À Lisboa das naus cheias de glória

 Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos líricos pregões…
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos prováveis de Camões!
Ó Lisboa de mármore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa…

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavaleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidades de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De proa para países estrangeiros!
Uns pra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros pras Índias, outros… sabe-o Deus!

Ó Lisboa das ruas misteriosas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da Índia, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus…)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.
(…)
António Nobre - Despedidas: 1895-1899, 1902

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Lisboa Com Suas Casas

 Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) - Poesias de Álvaro de Campos, 1934

sábado, fevereiro 21, 2026

Balada de Lisboa

Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo

Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente

Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais.

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém
Manuel Alegre - Babilónia, 1983

domingo, fevereiro 15, 2026

Carnaval

Fotos: Observador
O Carnaval em Lisboa nem sempre foi como o conhecemos hoje. Ora veja:
"Accorda a gente ouvindo, na rua, as castanholas dos rapazes. De vez em quando passa ao longe, muito festiva, uma philarmonica de artistas. É o Carnaval, não ha que vêr. Estamos em pleno domingo gordo. E aqui mesmo, debaixo da janella, um garroche veio tocar buzina furiosamente. Parece um epigramma a nossa preguiça cheia de indiferença. A pe! a pé! até os gainachas nos fazem surriada. Já se sabe na visinhança que gostamos de levantar-nos tarde; portanto a visinhança aproveita a occasião para nos mandar uma bisca n'uma buzina. Que horas marca o relogio? Onze. Com efeito! a buzina teve razão. A pé! a pé! Abrimos a janella. Oh! santo Deus! que mal encarado dia! eu pesadão, ruas lamacentas. Adivinha-se frio lá fóra. Pois, senhores, os que gostam de divertir-se no carnaval vão ficar verdadeiramente codilhados com este domingo gordo. Pobres rapazes! Elles ainda querem iludir-se annunciando a festa com as suas castanholas, espantar O mau tempo com a buzina."
  Alberto Pimentel - Vida De Lisboa,  1900, pp. 115-116

sábado, fevereiro 07, 2026

O Terceiro Corvo

Oh Lisboa
como eu gostava de ser
o terceiro corvo do teu emblema…
estar implícita na tua bandeira
negra e branca
como tinta e papel
como escrita e espaço!

Ser teu desenho
tua nova lenda
invenção deste século
que já não inventa
e se interroga:
donde vieram estes corvos?

Como tu, Vicente,
eu também não sou de cá
não sou daqui
não pertenço a esta terra
e talvez nem sequer a este mundo…

Porém estou aqui
nesta dolorosa praia lusitana
cheia de um tumulto inútil
que enegrece as tuas areias
e polui o ventre do rio
que os golfinhos há muito desertaram

E olhando as nuvens dedilhadas pelo vento
sentindo a terna dor do teu sentir sentido
peço-te, Lisboa:
surge de novo bela
reinventa
a santidade perdida do teu emblema
Ana Hatherly - Em Lisboa sobre o mar, Poesia 2001-2010

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

O Mille-feuille ou Mil Folhas

 O Mille-feuille ou Mil folhas é uma mistura de uma massa muito fina e crocante (massa folhada) e um creme de baunilha. A cobertura é uma fina camada de açúcar de confeiteiro. O nome significa literalmente "mil folhas", referindo-se ao grande número de finas camadas da massa folhada, que proporcionam uma textura muito leve. É uma sobremesa muito elegante e versátil.

O Mille-feuille, ou mil-folhas, é uma clássica sobremesa francesa feita com três camadas de massa folhada intercaladas com creme de pasteleiro (ou creme de confeiteiro), coberta com açúcar em pó, muitas vezes com um padrão de chocolate. 

Em Portugal, onde é muito popular, serve para denominar dois tipos de doce: inspirado no francês Mille-feuille e no Napoleão, de origem russa, criado em 1912 com clara influência da pastelaria francesa. Assim, pode ser chamado Napoleão, especialmente no Porto, com recheio de creme pasteleiro, natas e doce de ovos, ou Russo (com massa de claras). Este bolo em Lisboa chama-se Mil-Folhas. 

No Brasil, é popular com creme de baunilha, doce de leite ou frutas, polvilhado com açúcar de confeiteiro. 

Para um Mille-Feuille perfeito, siga a receita abaixo e sirva-o o mais breve possível após a montagem para garantir que a massa continue crocante. 

sábado, janeiro 24, 2026

Lisboa

Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

 Cidade lilás
semeada
de jacarandás
Cidade dourada

semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba.
Adília Lopes -  Poemas Novos, 2006

quarta-feira, janeiro 21, 2026

O Parque Florestal de Monsanto

O Parque Florestal de Monsanto situa-se na Serra de Monsanto, no concelho de Lisboa e nasceu cerca de 90 anos. Tem uma área de 1000 hectares, integrando o território de sete freguesias: Benfica; São Domingos de Benfica; Campolide; Campo de Ourique; Belém; Ajuda e Alcântara.

É o principal pulmão da capital portuguesa, o maior parque florestal português e um dos maiores europeus. Inclui espaços lúdicos que proporcionam aos habitantes e visitantes várias atividades, tais como desportos radicais, caminhadas, atividades ao ar livre, trilhos de btt-enduro, peças de teatro, concertos, feiras, exposições, e vistas únicas sobre a cidade de Lisboa e concelhos limítrofes, o estuário do rio Tejo e o oceano Atlântico. 

sábado, janeiro 17, 2026

E de novo, Lisboa, te remancho

Ilustração de André Carrilho
 E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha.Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?
Alexandre O’Neill - De Ombro na Ombreira, 1969

quinta-feira, janeiro 15, 2026

O Pátio da Pascácia

 O Pátio da Pascácia, também conhecido por Pátio da Sociedade, localiza-se na freguesia de Santa Cruz do Castelo. O nome original deve-se a uma conhecida parteira da freguesia. O recinto pertence a uma antiga casa apalaçada do século XVII. Do palacete original do séc. 17, pouco se sabe. 

Contudo, toda a gente se lembra muito bem do outro nome do pátio: Pátio da Sociedade. Lembram-se, também, da permanente atividade que o animava: arraiais dos Santos Populares, Serões de Fado, jantaradas, reuniões do Clube. Tudo isso organizado pelo Grupo Excursionista do Castelo (G.E.C.), que ocupava o 1º andar do Palacete da Pascácia.



Neste momento não está acessível a visitantes porque tem uma porta sempre fechada. As razões de tal facto poderá descortiná-las clicando aqui.


quinta-feira, dezembro 25, 2025

Natal… Natais…

 Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;



E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

sexta-feira, outubro 10, 2025

Lisboa

Alguém diz com lentidão:

Lisboa, sabes…”
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus e degraus até ao rio. Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade - Até Amanhã, 1956