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segunda-feira, junho 29, 2026

São Pedro

 Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.


Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro —
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.
Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
Fernando Pessoa - Santo António, São João, São Pedro, A Regra do Jogo, 1986, Lisboa

domingo, junho 28, 2026

Baião da Garoa

 Hoje véspera de São Pedro proponho-lhe que ouça Luiz Gonzaga em Baião da Garoa. 
Luiz Gonzaga (1912 - 1989) foi um cantor, compositor e multi-instrumentista brasileiro. Também ficou conhecido como o Rei do Baião, e foi considerado uma das mais completas, importantes e criativas figuras da música popular brasileira. 

Este Baião retrata a dura realidade da seca no Nordeste (Paraíba, Ceará e Alagoas), a falta de colheita de milho e feijão, a partida dos retirantes e a prece por chuva a São Pedro.

Na terra seca quando a safra não é boa
Sabiá não entoa
Não dá milho e feijão
Na Paraíba, Ceará, nas Alagoas
Retirantes que passam, vão cantando seu rojão

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Meu São Pedro me ajude
Mande chuva, chuva boa
Chuvisqueiro, chuvisquinho
Nem que seja uma garoa

Uma vez choveu na terra seca
Sabiá então cantou
Houve lá tanta fartura que o retirante voltou

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou
E já vai tempo
Que choveu pra gente boa
Nunca mais deu garoa
Nem deu milho e feijão
E o retirante diz que não desacordou ai
Vai cantando seu e no vai cantando seu baião

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Meu São Pedro me ajude
Mande chuva, chuva boa
Chuvisqueiro, chuvisquinho
Nem que seja uma garoa

Uma vez choveu na terra seca
Sabiá então cantou
Houve lá tanta fartura
Que o retirante voltou

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou
Composição: Gonzagão, Herve Cordovil. 

quarta-feira, junho 24, 2026

São João

  Ó Precursor, fizeste-la bonita!
Não que teu Cristo, incarnação do Bem —
O mal são os que após, sem mística divina
Meteram a Jesus na cela da doutrina
Com as algemas do ódio manietado
Para depois manchar de falsa fé
O pobre homem que todo homem é
Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.
Nem ternura cristã, ou só humana,

A cruel multidão negramente infinita
Que tem sido o algoz ou o ladrão
Da ingénua humanidade aflita —
Esses que, aqui mesmo, pelos modos,
Dão ao inferno realização...

Ah, não podiam ser piores, nem
Que a mulher do Diabo, se ele a tem,
Os tivesse parido a todos.

Eu bem sei que houve muito santo e crente,
Muito puro, bondoso e inocente.
Bem sei, bem sei:
Sei-o eu e sabe-o toda a gente.

Mas esses, cuja alma está em Cristo
São só isto —
Qualquer remédio que se dissolvesse
No chá que para isso há,
E cujo gosto nele se perdesse;
O chá fica sabendo só a chá.
Se o remédio faz bem,
Não o sabe ninguém.
Que o chá não presta, não duvida alguém.

Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes
De todos nós teu Mestre que viria,
Profeta, Deus e guia dos errantes,
Quão dolorosamente o saberia?
Sei que houve astros no céu da fé vazia.

Sei, mas repara que falso isso soa!
Por mais astros que a noite use brilhantes,
Que Diabo!, a noite não se chama dia.

Ó Precursor! Fizeste-a boa!

Daí, para nós, és de Lisboa,
Não és o precursor de nada.
És um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e sossegada
Ter ao colo um cordeiro pequenino.

Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para ele o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.

O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exagerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
É quente e anónima a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!

Mas é assim que és
E é assim que serás,
Até que pisem esta terra os pés
Do último fado que o Destino traz.

Então, esperamos, eu e todos,
Ver-te «surgir no céu», como quem vence
Tudo que é realidade ou ilusão
Por o menino ser que lhe pertence,
E os seus bons e santos modos
«Com o cordeirinho na mão»,
Como te viu Catullo Cearense.

Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete a morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com tua vida e o teu divino fado.

(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico
Eu a julgar-te até católico,
E tu sais-me maçon.
Bem, aí é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Pronto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário..
Se és maçon,
Sou mais do que maçon — eu sou templário.

Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.

Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.

terça-feira, junho 23, 2026

Ai, S. João adormeceu


Ai, S. João adormeceu
Ai, debaixo da laranjeira;
Ai, caiu-lhe a flor por cima,
Ai, S. João que tão bem cheira.

Ai, S. João p’ra ver as moças
Ai, fez uma fonte de prata;
Ai, as moças não vão à fonte,
Ai, S. João todo se mata.

Ai, S. João fora bom santo
Ai, se não fora tão gaiato;
Ai, levava as moças p’rá fonte,
Ai, iam três e vinham quatro.
Popular

sábado, junho 13, 2026

Santo António

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, 

Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

sexta-feira, junho 12, 2026

Noite de Santo António

 Cá vai a marcha mais o meu par
Se eu não trouxesse, quem o havia de aturar?
Não digas sim, não me digas não
Negócios de amor são sempre o que são
Já não há praça dos bailaricos
Tronos de luxo no altar de manjericos
Mas sem a praça que foi da Figueira
A gente cá vai quer queira ou não queira

Ó noite de Santo António
Ó Lisboa de encantar de alcachofras a florir
De foguetes a estoirar
Enquanto os bairros cantarem
Enquanto houver arraiais
Enquanto houver Santo António
Lisboa não morre mais

Lisboa é sempre a namoradeira
Tantos derrices que já até fazem fileira
Não digas sim, não me digas não
Amar é destino, cantar é condão
Uma cantiga, uma aguarela
Um cravo aberto debruçado da janela
Lisboa linda do meu bairro antigo
Dá-me o teu bracinho, vem bailar comigo

Ó noite de Santo Antônio
Ó Lisboa de encantar de alcachofras a florir
De foguetes a estoirar
Enquanto os bairros cantarem
Enquanto houver arraiais
Enquanto houver Santo António
Lisboa não morre mais

Enquanto os bairros cantarem
Enquanto houver arraiais
Enquanto houver Santo António
Lisboa não morre mais
Poema de Norberto Araújo interpretado por Amália Rodrigues (veja abaixo).

quarta-feira, junho 10, 2026

O Anjo de Portugal

Sabia que Portugal tem um anjo protetor?
Pois é, tem mesmo. É o Anjo Custódio.
Assinalando a data de hoje, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo, aqui lhe deixo a história do nosso Anjo.

O Anjo de Portugal, também conhecido como o Santo Anjo da Guarda de Portugal, o Anjo da Paz ou o Anjo Custódio, é o anjo padroeiro da nação portuguesa. Portugal é historicamente o único país com um anjo da guarda oficialmente reconhecido e celebrado como seu protetor. 

Este Anjo é celebrado anualmente a 10 de junho, coincidindo com o feriado nacional do Dia de Portugal.

Até existe um monumento imponente dedicado ao Anjo de Portugal em Castelo de Paiva, uma estátua de bronze banhada a ouro com 12 metros de altura.

 A devoção ao Anjo de Portugal remonta à fundação da nacionalidade. Diz-se que terá aparecido pela primeira vez na Batalha de Ourique (1139), garantindo a vitória de D. Afonso Henriques.

De acordo com os três pastorinhos (Lúcia, Jacinta e Francisco), em 1916, o Anjo terá aparecido três vezes na Loca do Cabeço e no Poço do Arneiro, preparando-os para as aparições de Nossa Senhora de Fátima no ano seguinte.

Embora identificado apenas como o "Anjo de Portugal" ou "Anjo da Paz" nas aparições de Fátima, muitos teólogos e a tradição popular associam-no frequentemente a São Miguel Arcanjo (que é um dos principais anjos da tradição cristã, conhecido como o "Príncipe da Milícia Celeste" e guerreiro contra as forças do mal. O seu nome hebraico, Mi-cha-el, significa "Quem como Deus?", simbolizando a sua humildade e total submissão perante o Criador).

sexta-feira, junho 05, 2026

E o dia em que o sol não nascer?

Dia Mundial do Ambiente
 E o dia em que o sol não nascer?
Que o mar se enfurecer...
E tudo que tinha vida morrer?~

O que você vai fazer?

E quando o azul do céu desaparecer?
O solo apodrecer...
E tudo adoecer?
O que você vai fazer?
Para onde você vai correr?
Para Marte, Júpiter, Saturno ou Plutão?

O Planeta Terra é a tua única casa, amado ser...
E a tua verdadeira mãe (natureza) está a morrer...
Pela tua falta de respeito, consciência e compaixão...

Te peço então um momento de reflexão...
Não jogue seu lixo no chão!

Reduza, recicle, reutilize...
Pense, repense, reflita, respeite...
Preste mais atenção...
Mas não use a tua mente e sim o teu coração...
pois ele amado irmão, está sendo usado em vão!


Ainda é tempo de mudar...
Ainda é tempo de salvar os animais e natureza
que o amor só querem nos dar.

Mas a decisão é tua, amado ser...
Tua casa (Terra) e tua alma, amado ser...
Despenderão do que você escolher...
Rama

segunda-feira, junho 01, 2026

Criança Desconhecida

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.
Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa) - Poemas Inconjuntos

sexta-feira, maio 01, 2026

Um dia de Maio

Manifestação do 1.º de Maio de 1974
Alameda D. Afonso Henriques - Lisboa
Recordo esse momento, esse
terrível entusiasmo. Eram
milhares, dezenas de milhar
e todos se esticavam, todos
tentavam ver os carros, sentiam
o solene momento, gritavam
da alegria mais pura. Era
um som de pólvora liberta,
uma explosão de esperança,
de loucura, de vida – sim,
por uma vez, a vida -. Lembro 
esse gosto de pão, o corte
brusco na inércia, o fogo
da presença em oferenda,
a compressão da ira vinculada
agora a um caminho. Hoje
contemplo esta praça, estas ruas
que a tristeza semeou
de novo e espero a multidão
que uma vez aqui floresceu.
Confio em que virá. O vento
fala já nos seus passos, faz
da espera alimento; o ar
vai encher-se de vozes, vai
ver-nos todos juntos, livres,
respirando através das mãos
unidas, através do ardente
fluido de alegria que liberta
as raízes do canto estagnado.
Egito Gonçalves (1920-2001)

sexta-feira, março 27, 2026

Dia Mundial do Teatro

O teatro é uma forma de arte milenar que consiste na representação de histórias, emoções e conflitos humanos perante uma audiência, utilizando atores, cenários e técnicas de palco. O termo originário do grego theatron ("lugar para ver"), abrange a dramaturgia, o edifício físico e a arte cénica. 

Hoje 27 de março assinala-se, em todo o país e no resto do mundo, mais um Dia Mundial do Teatro. 

Muitas salas lisboetas prestigiam esta data com espetáculos gratuitos e outras atividades relacionadas com a grande arte do palco.

Se está em Lisboa pode ir até ao Teatro da Trindade que celebra este dia com uma programação especial. No teatro dirigido por Diogo Infante, pode participar em duas visitas guiadas, e assistir aos espetáculos Brokeback Mountain, na sala estúdio, e A Gaivota, na sala Carmen Dolores.

 Já A Barraca,  dirigida por Maria do Céu Guerra e Hélder Mateus Costa comemora este dia com dois espetáculos: A Farsa de Inês Pereira e O Príncipe de Spandau.

Em 2026, o ator e criador de teatro Willem Dafoe é o autor da mensagem que tradicionalmente é lida nos teatros de todo o mundo a 27 de março, Dia Mundial do Teatro. Esta mensagem, que pode escutar no vídeo abaixo, é divulgada com antecedência para potenciar a sua divulgação.

sábado, março 21, 2026

Como um vento na floresta

 Como um vento na floresta,
Minha emoção não tem fim.
Nada sou, nada me resta.
Não sei quem sou para mim.

E como entre os arvoredos
Há grandes sons de folhagem,
Também agito segredos
No fundo da minha imagem.

E o grande ruído do vento
Que as folhas cobrem de som
Despe-me do pensamento:
Sou ninguém, temo ser bom.
Fernando Pessoa - Poesias Inéditas

quinta-feira, março 19, 2026

Meu Pai no mercado de flores

De manhã, meu pai vai ao mercado.
Essa não é (dizem) coisa de homem.
Mas ele ri-se, pouco se interessa.
Dedica a tudo todo o cuidado.
A barba feita a navalha, o nó
da gravata, o vinco da calça,
o colete de malha. Sapato
preto, polainito apertado,
põe o chapéu. Ainda bem cedo,
antes das aulas, vai comprar flores,
sob o esplêndido azul do céu.
E a casa, depois, fica cheia
de luz e ternura, gladíolos,
frésias, verbenas, rosas bravas,
cheiros do jardim de Freamunde,
poemas sem o peso das palavras.
José Carlos de Vasconcelos

domingo, março 08, 2026

Mulher É…

 Mulher É…

É o ser que deixa a alma
Voar até ao infinito

Que deixa o coração amar, sofrer, partilhar
E sabe sufocar seu grito.

Mulher
É afago é carinho é atenção.

Mulher
Levanta voo sem asas
É sangue é raiva é paixão

Mulher
É entre todos os seres
O mais forte
Que existe na criação.

sábado, fevereiro 14, 2026

Para ti

Amor (1935) Mário Eloy
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

quarta-feira, janeiro 28, 2026

O Santo do Dia

S. Tomás de Aquino entre
Platão e Aristóteles.
Benozzo Gozzoli (XV)


Hoje é o Dia de São Tomás de Aquino "doutor da Igreja", canonizado pelo papa João XXII, em 1323.

Esta data é celebrada pela igreja católica, homenageando as obras de um dos santos mais importantes do catolicismo: São Tomás de Aquino (1225-1274).

Este Santo é conhecido por ser o padroeiro das escolas públicas, professores e estudantes. Tomás de Aquino foi um notável professor de teologia e filosofia, além de poeta.

São Tomás de Aquino também é considerado um dos primeiros a representar a escolástica (que concilia a fé cristã com pensamento racional), além de ter sido fundador da "escola tomista".

quarta-feira, dezembro 17, 2025

O Natal nos Países Baixos

Sinterklaas e Zwarte Piet (Pedro negro)

Embora nos Países Baixos (Holanda) também se celebre o Natal, as celebrações são mais modestas e as tradições um pouco diferentes.

Nos Países Baixos, S. Nicolau (o santo que deu origem à lenda do Pai Natal) é conhecido entre os holandeses como SinterklaasSinterklaas ou Sint-Nicolaas é uma figura lendária baseada em São Nicolau, padroeiro das crianças.

Para as crianças holandesas, Sinterklaas parte de Espanha no dia 5 de Dezembro e ruma até às suas casas. Assim nos Países Baixos, o dia mais importante não é o dia 25 de dezembro. O dia mais importante é o dia 5 de dezembro - o Dia de Sinterklaas.

A noite de 5 de dezembro, véspera do Dia de São Nicolau, é celebrada por grande parte das famílias holandesas. As crianças enchem os sapatos de feno e açúcar para o cavalo Amerigo de Sinterklaas (cavalo branco) e dele recebem em troca prendas, doces e frutos secos.

O jantar é feito em família e em algumas casas aparece um Sinterklaas que lê alguns poemas, consulta o seu livro vermelho para saber se as crianças se portaram bem e entrega os presentes.

O Sinterklaas é tão importante que tem até um jornal na televisão aberta, o Sinterklaas  journaal, que mostra o que o barbudo e seus ajudantes andam fazer. 

Em certas aldeias holandesas são usados cornos de animais como instrumentos de sopro para afastar os maus espíritos e anunciar a vinda de Cristo.

Durante esta época do ano é comum encontrar em cada canto uma barraquinha com comidas tradicionais, chamadas oliebollenkramen onde pode provar uma variedade de alimentos fritos tradicionais e sazonais, como os Oliebollen.

Os Oliebollen são bolinhos de massa fritos, recheados com uvas passas e groselha, e cobertos com uma camada de açúcar de confeiteiro. É tradição servir oliebollen com café durante esta época do ano.

Nas cidades dos Países Baixos, o dia 24 de dezembro é um dia útil normal, não há sequer o hábito de trabalhar meio dia ou fechar mais cedo. Por outro lado, os holandeses ficam em casa no dia 26 de dezembro que é feriado e conhecido como o segundo dia de Natal.

Os pepernoten
Logo depois do Dia do Sinterklaas, os holandeses decoram as suas casas e as suas árvores com decorações natalícias. Os holandeses são apanhados, igualmente, pela febre das compras de natal que são deixadas debaixo da árvore até à manhã de 25 de Dezembro, quando são tradicionalmente abertas.

A ceia de Natal é feita em família e junto de amigos, tendo como pratos o peru ou outras carnes.

As sobremesas são variadas desde bolos de amêndoa amarga, pepernoten, tartes, speculaas (Bolachinhas de São Nicolau- uma espécie de biscoitos feitos no forno com manteiga, canela e outras especiarias); stroopwafels (parecidas com as bolacha waffle) e Wentelteefjes (as rabanadas holandesas).

Na Holanda, os coros de Natal (Kerstzang) são uma parte importante da celebração. Grupos de pessoas reúnem-se para cantar músicas natalícias nas ruas, em igrejas ou em eventos comunitários. É uma maneira de criar uma atmosfera festiva e compartilhar a alegria do Natal com os outros.

E agora fique com a receita dos Oliebollen.

Ingredientes:
125 gramas de farinha 
75 ml de leite morno 
7 gramas de fermento biológico seco 
20 gramas de manteiga amolecida 
15 gramas de açúcar 
1 colher de chá de raspas de limão 
Uma pitada de sal 
1 ovo 
20 gramas de uvas passas e groselha ou outras frutas secas 
1 colher de sopa bem cheia de açúcar de confeiteiro

Preparação:
Mergulhe as passas por algumas horas em água morna, de preferência na noite anterior. Dissolva o fermento no leite morno. Misture a farinha, o açúcar e as raspas de limão, misture o leite e o fermento com cuidado. Adicione o ovo e o sal e misture até obter uma massa homogénea. Escorra as passas e misture com a massa. Cubra e deixe crescer até que duplique o seu volume, vire a massa e deixe crescer novamente. Enquanto isso, aqueça o óleo na frigideira a 190ºC. Coloque um prato com várias folhas de papel absorvente para absorver o excesso de gordura dos bolinhos fritos. De seguida, use uma colher grande para pegar uma parte da massa, solte-a no óleo quente e frite por cerca de quatro minutos de cada lado ou até dourar. Escorra os bolinhos em papel absorvente e polvilhe-os com açúcar de confeiteiro.
E ainda um vídeo com canções natalícias holandesas.

quarta-feira, dezembro 10, 2025

Dia Internacional dos Direitos Humanos

Hoje assinala-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. 

Para celebrar este dia, o tema central promovido pela ONU, será sobre a presença e importância quotidiana dos direitos humanos, com slogans como "«Direitos Humanos: O essencial de cada dia»". O objetivo está em reconectar as pessoas com a dignidade, igualdade e justiça que são alcançáveis e fundamentais para a vida, destacando-os como positivos e essenciais. É um convite para combater a desinformação e mobilizar a ação global. 

Este tema destaca a presença dos direitos humanos e sua influência direta na vida de todas as pessoas diariamente. Pretende-se reaproximar as pessoas dos direitos humanos, mostrar como eles influenciam a vida no dia a dia, muitas vezes de maneiras que talvez passem despercebidas. Com muita frequência, os direitos humanos são dados como certos ou vistos como ideias abstratas, mas são fatores essenciais dos quais se depende todos os dias.


Este tema é um desdobramento da campanha de 2024 ("Nossos direitos, nosso futuro, agora"), que já tinha como foco o poder dos direitos humanos para construir um mundo mais pacífico e justo. 

domingo, novembro 02, 2025

Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia de Finados

O Dia da Morte -William-Adolphe
Bouguereau

Hoje é Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia de Finados. Esta é uma data que a Igreja Católica dedica aos mortos e suas almas (a 2 de novembro de cada ano).

O termo Fiéis Defuntos, ainda hoje está em voga religiosamente, embora muitas vezes seja substituído por Finados. Esta última designação, apesar de mais antiga a nível linguístico, tem no entanto menor carga religiosa e como tal é mais abrangente.

Apesar da clara coincidência de datas, com o Dia de Los Muertos mexicano, a tradição portuguesa, tem uma índole fortemente Católica.

É provavelmente a data mais importante, entre as festividades de Portugal, que não é dia feriado. Sendo que é das que mais pessoas movimenta pelo país fora.

Um pouco por todo o país veem-se famílias a irem às suas terras natais no dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro (este sim, feriado). Mas para muitos, senão mesmo a maioria, a viagem tem o Dia de Finados como pano de fundo.

Tradicionalmente o Dia de Finados é dia de romaria aos cemitérios. No entanto, a maior romaria acaba mesmo por ser no dia anterior, de modo a deixar tudo arranjado, nomeadamente a colocação de flores nas campas dos entes queridos, para o Dia de Finados.

sábado, novembro 01, 2025

Os Justos & O Dia de Todos os Santos

 Para reflexão deixo-lhe hoje dois belos textos: uma reflexão do Cardeal D. José Tolentino Mendonça e o poema de Jorge Luís Borges que lhe serviu de inspiração. Feliz Dia de Todos os Santos.

"Há um poema do Jorge Luís Borges em que ele fala dos justos que estão a salvar o mundo. Conta de um homem que está a ver as provas de um livro e esforça-se por não deixar passar um erro, daquele que cultiva com amor um pequeno jardim, daquele que faz gestos que não se vêem. E ele diz: “Estes justos estão a salvar o mundo mas não sabem.”

A dimensão fundamental da santidade é uma dimensão que nós não sabemos. Porque não se trata de identificar como santo. A santidade é anónima, a santidade não se dá por ela, não se pensa que é santidade. Ou o próprio não pensa, só no coração dos outros é que nasce a pergunta. Quando diziam a Dorothy Day que ela era santa ela dizia: “Não me digam isso! Não me afastem dos outros!” A santidade não é um pódio, não é os primeiros da classe, não são os avançados, aqueles que são colocados à parte, puros. Não, os santos andam a lavar os pés da Humanidade. 

Os santos andam a carregar os seus pesos, os santos andam a fazer rir, os santos andam a levar o saco das compras, os santos andam mais devagar para ir ao lado dos outros. Os santos falam, os santos calam, os santos cozinham, os santos jejuam, os santos fazem festa, os santos visitam prisões e hospitais. Os santos são os semelhantes a Deus, os semelhantes a Deus".

Texto do Cardeal D. José Tolentino Mendonça©

Os Justos
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.
Jorge Luís Borges -"A Cifra". Tradução de Fernando Pinto do Amaral