quarta-feira, julho 01, 2026

Mais Um Dia de Vida

Mais um Dia de Vida (Another Day of Life) é a adaptação para cinema do livro homónimo de Ryszard Kapuscinski, um dos maiores repórteres de guerra do século XX. Este filme de animação (2018) dos géneros documentário, drama e guerra foi realizado por Raul de la Fuente e Damian Nenow.

Com uma técnica de animação extraordinária e um trabalho documental que vai ao encontro dos homens que com ele então se cruzaram, o filme (que pode ver na íntegra no 1º link) é uma belíssima homenagem a um grande repórter de guerra e contou no elenco com Miroslaw Haniszewski, Tomasz Ziętek e Olga Boladz.

 Sinopse:
No Verão de 1975, o grande repórter de guerra Ryszard Kapuscinski é enviado para Angola, numa altura em que os portugueses estão em debandada e os movimentos de libertação se envolvem numa guerra civil sem tréguas. Dois grupos que buscam a libertação do país têm ideais diferentes: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), apoiado pela União Soviética, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos. 
No meio de uma série de questões políticas sensíveis, o jornalista propõe-se chegar à linha de frente do conflito armado com o intuito de documentar os seus horrores para o resto do mundo. No entanto, as decisões que Kapuscinski terá que tomar durante o trabalho mostram-se mais complexas do que ele imaginava. De uma Luanda transformada em cidade fantasma sitiada, até à fronteira sul à beira da invasão sul-africana, Kapuscinski é uma testemunha ímpar do nascimento conturbado de um novo país. 

terça-feira, junho 30, 2026

Nôs Morna

 Ouça Cremilda Medina (1991) e Tito Paris (1963) em Nôs Morna. 
Considerada a Voz da Morna (Património da Humanidade) da nova geração, Cremilda Medina é uma das mais conceituadas intérpretes da música tradicional cabo-verdiana. 
Cremilda Medina nasceu e cresceu na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente em Cabo Verde, e desde criança que a música faz parte da sua vida. Começou a cantar com apenas 9 anos e aos 14 já fazia parte de um grupo musical juvenil chamado "Rytmos" que animava festas e acontecimentos sociais na ilha do Monte Cara.
Tito Paris é um músico, compositor e cantor cabo-verdiano, radicado em Lisboa. É um dos maiores responsáveis pela divulgação da música das ilhas da Morabeza pelo mundo, além de uma figura de relevo da comunidade africana na capital.

segunda-feira, junho 29, 2026

São Pedro

 Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.


Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro —
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.
Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
Fernando Pessoa - Santo António, São João, São Pedro, A Regra do Jogo, 1986, Lisboa

domingo, junho 28, 2026

Baião da Garoa

 Hoje véspera de São Pedro proponho-lhe que ouça Luiz Gonzaga em Baião da Garoa. 
Luiz Gonzaga (1912 - 1989) foi um cantor, compositor e multi-instrumentista brasileiro. Também ficou conhecido como o Rei do Baião, e foi considerado uma das mais completas, importantes e criativas figuras da música popular brasileira. 

Este Baião retrata a dura realidade da seca no Nordeste (Paraíba, Ceará e Alagoas), a falta de colheita de milho e feijão, a partida dos retirantes e a prece por chuva a São Pedro.

Na terra seca quando a safra não é boa
Sabiá não entoa
Não dá milho e feijão
Na Paraíba, Ceará, nas Alagoas
Retirantes que passam, vão cantando seu rojão

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Meu São Pedro me ajude
Mande chuva, chuva boa
Chuvisqueiro, chuvisquinho
Nem que seja uma garoa

Uma vez choveu na terra seca
Sabiá então cantou
Houve lá tanta fartura que o retirante voltou

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou
E já vai tempo
Que choveu pra gente boa
Nunca mais deu garoa
Nem deu milho e feijão
E o retirante diz que não desacordou ai
Vai cantando seu e no vai cantando seu baião

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Meu São Pedro me ajude
Mande chuva, chuva boa
Chuvisqueiro, chuvisquinho
Nem que seja uma garoa

Uma vez choveu na terra seca
Sabiá então cantou
Houve lá tanta fartura
Que o retirante voltou

Tra, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Oi! Graças a Deus
Choveu, garoou
Composição: Gonzagão, Herve Cordovil. 

sábado, junho 27, 2026

A Biblioteca Nacional King Fahad

A Biblioteca Nacional King Fahad fica situada e foi inaugurada em 1990, na cidade de Riadena  Arábia Saudita

Esta biblioteca é uma fusão perfeita entre a arquitetura árabe tradicional e o design contemporâneo. Possui uma fachada de vidro coberta por painéis triangulares que lembram uma mashrabiya para filtrar a luz do sol. 

A mashrabiya (ou musharabìa) é um elemento arquitetónico tradicional do mundo islâmico. Consiste numa janela ou varanda saliente, fechada por uma grade de madeira entalhada, que funciona como sistema de ventilação passiva e filtro de luz, além de garantir privacidade. O termo deriva da raiz árabe sh-r-b (beber). Originalmente, referia-se a uma prateleira ou pequeno espaço onde jarras de água eram colocadas para esfriar, aproveitando a corrente de ar que passava pelos padrões da grade.

A Biblioteca Nacional Rei Fahad é o repositório legal e a biblioteca de direitos autorais da Arábia Saudita. O projeto foi anunciado em 1983, em resposta a uma iniciativa da população de Riade, quando o Rei Fahad ascendeu ao trono, e a implementação começou em 1986.

Entre as coleções especiais da KFNL estão as bibliotecas de Ihsan Abbas, Sheikh Muhammad Ibn Abd al Aziz al Mani, Sheikh Abd Allah Ibn Muhammad Ibn Khamis, Sheikh Uthman Ibn Hamad al Haqil, Sheikh Muhammad Husayn Zaydan, Fawzan Ibn Abd al Aziz al Fawzan, Yusuf Ibrahim al Sallum, Muhammad Musa al Salim, Sheikh Muhammad Mansur al Shaqha, Sheikh Abd Allah Abd al Aziz al Anqari, Xeque Abd Allah Ibn Umar al Sheikh, Xeque Abd Allah Ibn Muhammad al Nasban e Xeque Husayn Ibn Abd Allah al Jarisi.

sexta-feira, junho 26, 2026

A Cascata de Svartifoss

A Cascata de Svartifoss (ou "Cascata Negra") é uma das quedas de água mais icónicas e fotogénicas da Islândia, famosa não pelo seu tamanho ou caudal, mas pela sua impressionante moldura natural de colunas geométricas de basalto negro. Esta cascata tem aproximadamente 20 metros de queda livre.
Svartifoss é uma das várias cascatas islandesas emolduradas por colunas de basalto hexagonais distintas, tão lisas que parecem ter sido esculpidas pelos próprios deuses nórdicos. Talvez não tenham origem nos parentes de Odin, mas a ciência por trás delas é notável: as juntas colunares são formadas quando os fluxos de lava arrefecem e contraem sob pressão, com fissuras que penetram profundamente na rocha recém-formada. Estas fissuras normalmente cruzam-se em ângulos de 120 graus. Assim, à medida que as fissuras se tornam mais profundas, a sua forma aproxima-se de um hexágono quase perfeito, expondo colunas geométricas perfeitas quando a face da rocha eventualmente se rompe. 
Esta cascata e os seus arredores imponentes são um dos destaques da área de Skaftafell, no Parque Nacional Vatnajökull.

quinta-feira, junho 25, 2026

A Geografia Serve Antes de Mais Para Fazer a Guerra

 A Geografia Serve Antes de Mais Para Fazer a Guerra (Geografia: um instrumento de poder. Colecção Século XX-XXI. Iniciativas Editoriais. Lisboa. 1977) é um livro de Yves Lacoste (1929 - 2026). 

Yves Lacoste foi um geógrafo e geopolítico francês. Lançou no início de 1970 a revista Hérodote, que nos últimos trinta anos procurou revelar a face oculta da Geografia, isto é, o seu caráter político. Contribui com obras críticas e inovadoras, como La géographie, ça sert, d'abord, à faire la guerre para uma discussão do conceito da geografia política e geopolítica, especialmente em França.

Sinopse:
Para que serve a Geografia e qual a sua função social? Neste livro, Yves Lacoste responde a estas questões e a frase título sintetiza um pouco o papel da ciência geográfica. A razão de ser da Geografia recai sobre a necessidade de melhor compreender o mundo e pensar o espaço para que nele se possa lutar de forma mais eficaz.