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sábado, abril 25, 2026

25 de Abril - Roteiro da Revolução

 25 de Abril - Roteiro da Revolução, Uma Viagem Pelos lugares Que Marcaram A Revolução, é um livro de José Mateus, Susana Gaudêncio e Raquel Varela.

Sinopse:
Terminou no dia 25 de abril de 1974 a ditadura do Estado Novo. Um grupo de oficiais das Forças Armadas pegou em armas e depôs um regime há muito decadente. Contra os vários apelos do MFA para que as pessoas ficassem em casa, tem início um processo que ficará conhecido como Revolução dos Cravos.
A partir desta obra é possível seguir todos os passos que conduziram ao golpe de Estado que deitou por terra a ditadura, na origem de um processo que ficará conhecido como Revolução dos Cravos. Um livro composto por três autores que é, na verdade, uma viagem pelos lugares que marcaram a revolução em Lisboa, Porto, Santarém e Peniche. O que aconteceu em cada lugar, um guia da revolução, acompanhado dos testemunhos de civis e militares de quem esteve lá, e da análise histórica que fazem desta obra um importante e rigoroso registo daquele que é o evento mais significativo da história contemporânea portuguesa. 

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

O Mille-feuille ou Mil Folhas

 O Mille-feuille ou Mil folhas é uma mistura de uma massa muito fina e crocante (massa folhada) e um creme de baunilha. A cobertura é uma fina camada de açúcar de confeiteiro. O nome significa literalmente "mil folhas", referindo-se ao grande número de finas camadas da massa folhada, que proporcionam uma textura muito leve. É uma sobremesa muito elegante e versátil.

O Mille-feuille, ou mil-folhas, é uma clássica sobremesa francesa feita com três camadas de massa folhada intercaladas com creme de pasteleiro (ou creme de confeiteiro), coberta com açúcar em pó, muitas vezes com um padrão de chocolate. 

Em Portugal, onde é muito popular, serve para denominar dois tipos de doce: inspirado no francês Mille-feuille e no Napoleão, de origem russa, criado em 1912 com clara influência da pastelaria francesa. Assim, pode ser chamado Napoleão, especialmente no Porto, com recheio de creme pasteleiro, natas e doce de ovos, ou Russo (com massa de claras). Este bolo em Lisboa chama-se Mil-Folhas. 

No Brasil, é popular com creme de baunilha, doce de leite ou frutas, polvilhado com açúcar de confeiteiro. 

Para um Mille-Feuille perfeito, siga a receita abaixo e sirva-o o mais breve possível após a montagem para garantir que a massa continue crocante. 

domingo, novembro 30, 2025

O Porto É Só...

Porto - Dórdio Gomes (1953)
 "O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar. 

O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Victor correndo nos sulcos da sua melancolia. 

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, procurando assim parecer-me cada vez mais com a terra obscura do meu próprio rosto. 

Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala poise aqui, por ser tão branca". 

sexta-feira, novembro 07, 2025

Nasci no Porto...

Porto - Marta Vilarinho de Freitas
 


Nasci no Porto, a cidade e seus arredores
As praias próximas, descendo para sul
Permanecem para mim a pátria dentro da pátria,
A terra materna,
O lugar primordial que me funda...
Porque nasci no Porto sei o nome
Das flores e das árvores
E não escapo a um certo bairrismo.
Mas escapei ao provincianismo da capital.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, outubro 22, 2025

Destacam-se os azulejos no granito...

Livraria Lello - Porto
 Destacam-se os azulejos no granito,
mais ainda quando a morrinha cai
sobre os Leões. Nos Poveiros o fumo
das castanhas lembra a tal Mamuda
− sai um polvo frito!
O Outro suspirava, naquela ingenuidade:
berlindes do Campo Alegre ou de São Lázaro.
Procura nos bolsos o balandrau clássico,
às Belas Artes, um texto à maneira
dos sonetos de Sena – Arca d’Água.
Desliza, solitário, do Majestic aos Clérigos,
e, ao olhar a catedral – a Lello
– lê nos verbetes da enciclopédia inacabada
o teu nome de menina: já sorri.
Eduardo Guerra Carneiro - A Noiva das Astúrias, 2001

sábado, outubro 04, 2025

Porto, domingo. Morre de cansada a tarde ruiva ...

Porto, domingo. Morre de cansada
a tarde ruiva de olhos azulinos,
isto apesar de não ter feito nada
pois que guardou os ócios citadinos.

Foi para a Foz, levou a pequenada
para os folguedos próprios dos meninos,
e a certa altura estava tão corada
como quem bebe largos vinhos finos.

Agora esvai-se e mancha de vermelho
os vidros altos deste Porto velho
que muito preza as tardes domingueiras.

É que amanhã começa uma semana
de luta imensa e inveja e luta insana,
uma infernal semana de canseiras.
Manuel de Oliveira Guerra - Caminho Longo, Porto, Papiro Editora, 2006

domingo, setembro 07, 2025

(Obs)cena (Rua de Ceuta/Rua José Falcão)

é ali que o rio coagula por instantes

junto ao semáforo no topo da rua

a mulher planta a vara do corpo na margem
e não sei se é da boca se do avental
que retira pétalas obscenas
para as arremessar

é estranho vê-la desentranhar-se também
e esvaziar a seiva toda fel
para não ser mais que a sombra de um caule

os homens sorriem sem nada compreender
o sinal muda a cor sem nada compreender
o rio volta a fluir sem nada compreender
e a vara esguia esgueira-se
sem compreender que ninguém a compreenda

a rua rescende agora a flores pisadas
inutilmente venenosas

segunda-feira, junho 02, 2025

A Cidade Equestre ...

 A cidade equestre
No rio mergulha
Seus cascos de granito
E sobe
A galope
Encosta arriba

Num salto a prumo
(Lá onde o casario morre)
Upa!
É uma torre

Torre de pedra e nuvem
De pássaro de fogo
De corpo de mulher
Torre de tudo e de quanto

O sonho
A palavra o canto
Pode e quer.
Luís Veiga Leitão - "Linhas do Trópico", 1977, em Obra Completa, Porto, Campo das Letras, 1997

segunda-feira, maio 12, 2025

Sabe O Que Significa Gabiru?

 Sabe o que significa o termo Gabiru?

A palavra "Gabiru" foi introduzida no Porto no século XIX, trazida pelos portugueses que regressavam do Brasil. Originalmente, o termo significava "rato", um animal conhecido pela sua agilidade e esperteza.

Assim, um "gabiru" designa uma pessoa astuta, finória, que se aproveita das situações de forma sorrateira, podendo até ter um comportamento provocador. Atualmente, a palavra é usada muitas vezes com um tom jocoso para descrever alguém que age de forma manhosa ou oportunista. É comum ouvir-se no Porto (e no resto do país) que alguém "anda feito gabiru", referindo-se a uma pessoa que está sempre a tentar safar-se com artimanhas.

Se alguma vez ouviu dizer que alguém estava "armado em gabiru", já sabe o que significa e a origem deste termo tão peculiar.

domingo, maio 11, 2025

Ribeira

Mãe do olhar sem retorno
e da pedra levantada.
Mãe do embalo das águas
limando as arestas do cais.
Mãe dos barcos encalhados
nos baixios da memória.
Mãe dos muros, das colmeias,
do arco de ferro sombrio.
Mãe da luz e da neblina
e das águas sublevadas.
Mãe das refregas perdidas
e da dor dos afogados.
Mãe das vozes estridentes
e dos amantes sem horas.
Mãe dos velhos que beberam
a última gota de céu.
Mãe dos homens que partiram
e daqueles que voltaram.
Mãe das mulheres que acendem
o lume primeiro do dia.
Mãe dos meninos nascidos
da verde placenta do rio.
João Pedro Mésseder - Porto Porto, V. N. Gaia, Calendário das Letras, 2009

quarta-feira, abril 09, 2025

Torre Dos Clérigos

quando uma torre se levanta é para usar da palavra
traz algo nos lábios para dizer    histórias
lembranças   saudações   augúrios

quando esta porém se erige acima de todos os coruchéus
acima dos outros campanários   acima do nevoeiro
não estira apenas o pescoço da curiosidade
para saber se o rio que desliza no sonho dos séculos
vai vestido de azul ou de ouro
ou para espreitar os acenos brancos das velas dos rabelos
ou o sulco das outras embarcações

orador sagrado num púlpito excelso
ébrio da eloquência de um  infinito azul
aponta o incomensurável como rumo
faz o panegírico da verticalidade
promete a bem-aventurança que mora no alto

sineira e crucífera deveria talvez
apetecer-lhe apenas a salvação das almas
mas esta torre granítica ereta acima das demais
já ali estava há muito de olhos postos no poente
vaticinando que seria do mar que chegaria
a auspiciosa palavra liberdade
semente sonhada de um paraíso terreno
chegou e logo chamaram invicta à cidade

a torre achando merecer também o epíteto
põe-se nos bicos dos pés de justificado orgulho
e cresce ainda um pouco mais
Anthero Monteiro - Helder Pacheco, Porto A Torre da Cidade nos 250 anos da Torre dos Clérigos, 
Porto, Edições Afrontamento, 2013

segunda-feira, janeiro 27, 2025

Cedofeita: a passo, cada tarde...

Cedofeita: a passo, cada tarde
a faço, sem projecto. Ímpar, traço
pedras gastas, e casas, nesse baço
regresso, quase espera, quando arde

ao longe, o quarto, e vão, trespasso
a carne, não de largo, que se fecha.
Um corpo será alvo porque deixa
aí, seu rasto. Que boca ou braço

é vento? Esparsa, a luz separa
a morte de seu laço; e já tal
olhar marca os modos e passagens

de manchas e perfis onde se pára.
Tão móveis são as formas que sinal
é o canto, possível, das imagens.

Diogo Alcoforado, in Eugénio de Andrade, O Poeta e a Cidade (antologia)

sexta-feira, janeiro 10, 2025

As ruas sombrias

Não vai servir de nada este cigarro, amigos.
As cartas que escrevi para a família
vão cinzentas de tédio,
minha noiva também vai estranhar
as palavras de água que lhe envio
como vós estranhais meus passos na cidade,
meus olhares que passeiam nas ruas sombrias
dos comércios modestos,
das casas de penhor, dos alfaiates pobres,
das capelistas com pústulas nas faces.
Não tenho nada para vos contar,
são coisas tão vulgares as que transporto
das minhas excursões sem companhia
que as guardo comigo.
Naquela rua estreita que desconheceis
chorava hoje a jovem empregada
de uma casa de louças.
Só eu passei na rua àquela hora
e ela corou quando vi suas lágrimas.
São histórias assim as que trazem os dias.
Amigos: este cigarro não resolve nada.
António Rebordão Navarro

domingo, janeiro 05, 2025

Rua De Miragaia

 Se vieres dos lados da Ribeira,
depressa reparas como
os preços descem e a miséria
aumenta em esplanadas
de improviso, e ficam mais
tristes e humanas as janelas.

Chegaste a Miragaia
e quase não mentes
se lhe chamares destino.
Manuel de Freitas - Intermezzi, op. 25

sábado, setembro 21, 2024

Abraço & Porto

 Abraço é um livro do escritor e dramaturgo português José Luís Peixoto.

Sinopse:

"Os temas deste livro são variados, vão desde recordações de infância a uma velhice imaginada, passando por inúmeros locais, desde a terra natal de José Luís Peixoto e o Alentejo, até a muitos dos sítios por onde viajou. Páginas que se podem ir lendo aos poucos, já que as crónicas são curtas e não seguem exatamente uma sequência". 

Aqui lhe deixo um texto deste livro sobre o Porto. Não perca. Vale a pena ler até ao fim.

"Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oximoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.

Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de água no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado do Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel. Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria. Seria capaz de respirar grandes volumes de ar fresco e limpo, seria capaz de respirar uma tarde inteira ou, mesmo uma primavera inteira, uma infância inteira. Para o Porto, esse caminho no interior da minha garganta seria menos do que uma brisa. Talvez alguns portuenses, os mais sensíveis à humidade, subissem a gola do casaco por instantes, talvez quisessem cobrir o pescoço, sentir tecido na pele fina do pescoço. O carros continuariam a parar nos sinais vermelhos e a avançar nos sinais verdes, continuariam a encaracolar-se pelos caminhos do silo de estacionamento ou, na rua, continuariam a seguir as indicações de um arrumador com barba, vestido com casacos sobrepostos.

O Porto chegava-me ao estômago à hora certa do entardecer. A tranquilidade seria inquestionável. Todos os poetas da cidade haveriam de ter um acesso súbito de inspiração. O meu estômago não precisava de se dilatar, barrigada, para ser capaz de acolher toda a cidade num plano horizontal, nivelado ao milímetro pelos desníveis habituais das suas ruas e avenidas. Quem estivesse a descer até à Foz, continuaria passo após passo; quem estivesse a subir até ao Marquês, continuaria passo após passo. As gaivotas planariam voltas perfeitas dentro do meu estômago e, assim, seriam capazes de puxar a noite. Chegaria devagar, ao ritmo intermitente das luzes que se começariam a acender na Baixa.

Por acaso simbólico, a absorção começaria precisamente à hora de jantar. As casas, o ar, as ruas, os viadutos, as montras, os jardins, as pessoas, os carros, as palavras, a pronúncia, os monumentos seriam gradualmente absorvidos pelas paredes do estômago. Atravessá-las-iam como uma sombra que fosse progredindo sobre a cidade, como uma maré de nuvens que fosse tapando a lua e as estrelas, uma a uma. Todos os elementos sólidos e não sólidos da cidade, mesmo os invisíveis, transformar-se-iam em carne, na minha carne, no meu sangue a correr pelas minhas veias e a atravessar-me desde a ponta dos dedos, os mesmos que carregam nestas teclas, até às pequenas artérias que irrigam os meus olhos, o meu cérebro. O Porto seria oxigenado pelos meus pulmões, passaria pelo meu ventrículo esquerdo e, depois, pela aorta. A zona das Antas seria uma extensão da minha pele, a Sé também. Quando eu tocasse alguma coisa, quando segurasse um livro ou ouvisse uma canção, só seria capaz de fazê-lo através do Porto. Na verdade, nem eu próprio seria capaz de distinguir-me do Porto. Seria capaz de dizer "o Porto", seria capaz de dizer "eu", mas apenas o faria por preguiça analítica, por mecanismo desonesto de esquematização. Essa mentira seria fácil de desmascarar em cada palavra dita, escrita, em cada silêncio, porque se eu articulasse um som mínimo, seria o Porto que o estaria a dizer; se eu escrevesse uma letra, seria o Porto a escolhê-la; se eu permanecesse quieto, a olhar para a distância e a pensar em imagens de tempos passados, seria o Porto que existiria no meu lugar, a lembrar-se de dias, passados neste ou noutro século".

José Luís Peixoto - Abraço, 2011
E agora o José Luís Peixoto, no Primeira Pessoa de Fátima Campos Ferreira.

segunda-feira, junho 24, 2024

A Noite do Porto

Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há-de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflecte nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão-de voltar
a nascer. Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.
Nuno Júdice A Fonte da vida, Quetzal, 1997

quinta-feira, maio 16, 2024

Artes Finais

O empregado da Funerária
bebia a sexta cerveja dominical
ao balcão. Estávamos, por
bizarro que pareça, na Rua do Paraíso
e lia-se na montra vizinha
do fornecedor de urnas
(24 horas por dia), pintada
em letras douradas, a palavra
armador. Reparti a minha atenção
entre essa palavra e a cerveja alheia.
Viajei com a família
verbal: pelas armadas marítimas,
por ítacas, bojadores e gamas,
por elmos de quixote, toucados, presépios
e outra literatura, mas não consegui
fugir à extinção visível
do nível da cerveja no fino do
funcionário.
Inês Lourenço Logros Consentidos, Ed.& etc

domingo, abril 21, 2024

She Lives By The Castle

Meu amor – assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.

Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de uma amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.

Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.

E assim, meu amor, acaba este poema.

Manuel de Freitas, Qui passe, for my Ladye, edição do Autor, Lisboa, 2005.

segunda-feira, fevereiro 05, 2024

Visto da margem sul do rio o porto não explode...

Visto da margem sul do rio o porto não explode
sob a tarde de verão, a água reflecte
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recatos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco, sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando
a música há-de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

são estes sons de nada, estes voos que perpassam,
estas estrias da sombra de ninguém
sobre o curso do rio, como nuvens para esta hora, a
encrespar-lhe de leve a superfície.

enquanto parte algum comboio atrasado,
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham,
quero um barco pequeno para a minha travessia,
para a minha chegada e para a minha partida,


para andar entre as margens ou seguir a corrente
até s. joão da foz ver as últimas gaivotas
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras
de mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.
Vasco da Graça Moura - Poesias 1997/2000. Lisboa, Círculo de Leitores

domingo, dezembro 17, 2023

Aniki Bóbó

Aniki Bóbó é um filme de 1942 realizado pelo prestigiado realizador português Manoel de Oliveira (1ª longa-metragem) e produzido por António Lopes Ribeiro. O filme (drama), com fotografia de António Mendes, inspirava-se no conto Meninos Milionários de Rodrigues de Freitas e foi quase totalmente rodado em exteriores, nas zonas ribeirinhas do Porto e de Gaia. Porém, a ação não decorre nessa cidade mas numa cidade fictícia. 

Quando o filme estreou no Cinema Éden, foi mal recebido pelo público que o vaiou. O valor e a importância desta obra só foram reconhecidos muito após a sua estreia, encarregando-se o tempo de tornar Aniki-Bóbó numa obra-prima do cinema português.

Sinopse:
Dois rapazes, Carlitos (Horácio Silva) e Eduardinho (António Santos), mantêm uma rivalidade devido à afeição que nutrem pela mesma rapariga, Teresinha (Fernanda Matos). Para conquistar as suas boas graças, Carlitos decide roubar uma boneca, aproveitando a distração do lojista (Nascimento Fernandes). Quando o grupo de amigos assiste à passagem dum comboio, Eduardinho escorrega, rolando pelo morro, caindo a poucos metros da linha férrea, gravemente ferido. Todos pensam que fora Carlitos a empurrá-lo e tratam-no com desprezo, mas o lojista que tinha sido testemunha do acidente repõe a verdade.