sábado, julho 24, 2010

El Rastro

El Rastro de Madrid ou simplesmente El Rastro é um mercado ao ar livre que acontece aos domingos e feriados no centro histórico de Madrid.
Este nome deriva do facto de em tempos recuados, junto ao Rio Manzanares, haver fábricas de curtumes, na Rua Ribeira dos Curtidores, que se localizavam junto ao matadouro. As reses depois de mortas eram arrastadas pelas peles desde o matadouro até às fábricas de curtumes. Este facto, provocava a formação de um enorme rasto de sangue.
Há, ainda, uma obscura lenda que atribui o nome, ao sangue resultante das execuções públicas, pela guilhotina, que ocorriam neste lugar. De qualquer modo, este grande mercado ao ar livre tem a sua origem no século XV.
Hoje em dia El Rastro acontece entre as 9:00 e as 15:00 horas no bairro de Embajadores, no Centro de Madrid. Aí existem cerca de 3.500 postos de venda que se estendem entre a Plaza de Cascorro, a Rua da Ribera de Curtidores, a Rua dos Embajadores, a Ronda de Toledo e a Plaza del Campillo del Mundo Nuevo.
Se gosta de mercados de rua, não pode perder a oportunidade de conhecer El Rastro. É um mercado ao ar livre muito popular, tanto para o turismo como para os moradores da cidade.
Ali, poderá encontrar desde antiquários a vendedores de móveis, de objetos decorativos, de tecidos, de discos,de peles, de roupas e de complementos, de bijuteria e de artesanato. El Rastro é conhecido sobretudo pela venda de objectos e roupas em segunda mão, mas também é possível adquirir artigos novos.
A rua de San Cayetano é o espaço dos artistas. Nela encontra quadros originais ou reproduções de obras de arte.
Depois de terminar a visita e as compras, uma óptima idéia é seguir a tradição madrilena e procurar um bar de tapas (aperitivos) no animado bairro La Latina.

sexta-feira, julho 23, 2010

O mendigo Sexta-Feira, jogando no Mundial

Mia Couto, num pequeno número de palavras, diz tudo!!! Bravo!!!

(...) O que me inveja não são esses jovens, esses "fintabolistas", todos cheios de vigor. O que eu invejo doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas.
A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penaltis eu já tinha marcado contra o destino? (...) Mia Couto, in "O fio das Missangas"

quinta-feira, julho 22, 2010

Que grande buraco!

Os guatemaltecos foram surpreendidos, no início de Junho, por mais um acontecimento insólito. Um buraco abriu no centro da Cidade da Guatemala, arrastando um prédio e uma casa que desapareceram sem deixar rasto. Já tinha acontecido o mesmo em 2007, quando o velho sistema de drenagem cedeu com as chuvas.
O actual aluimento de terras, em forma de buraco redondo, provocou a morte a uma pessoa, segundo avançou, na altura, a Sky News.
As causas para o aluimento parecem ser as mesmas. Foram os efeitos da tempestade Agatha que atingiu o país. Em consequência, o velho sistema de drenagem da capital cedeu. A dimensão da tempestade foi de tal ordem que deu origem a fortes chuvadas e ventos de forte intensidade. Foi o próprio governo guatemalteco que colocou nas redes sociais a fotografia que mostra o buraco gigante que se abriu no centro da Cidade da Guatemala. Naquele local havia um prédio de três andares e uma casa que foram engolidos pela terra. O buraco tinha cerca 60 metros de profundidade e engoliu também uma fábrica de tecidos.
Há várias explicações científicas para este fenómeno. Veja o que diz o professor de geologia e director do Centro de Apoio Científico em Desastres da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Renato Lima. Segundo explicou, este tipo de depressão recebe o nome técnico de dolina e o corre em solos onde há rochas calcárias. “Essas rochas são dissolvidas pela passagem da água ao longo de milhares de anos. Às vezes, uma grande caverna desaba na profundidade e, na superfície, surge uma cratera. Geralmente, estas crateras são bastante circulares”, segundo disse.
De acordo com aquele professor, o surgimento desse tipo de cratera é lento. “É mais comum que aconteça devagar, mas o solo pode entrar em colapso e desabar de repente”.
O professor do curso de geologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Carlos Humberto, afirma que a intervenção do homem acelera o desabamento. “Em todo lugar onde há rochas calcárias é possível acontecer este tipo de crateras, mas é um processo lento e natural. No entanto, o homem pode acelerar o processo com intervenções no solo e antecipar o desabamento.”
Ora veja o que aconteceu na Guatemala!

quarta-feira, julho 21, 2010

Instead

Madeleine Peyroux (Geórgia - E.U.A.-1974) é uma cantora de jazz que escreve e interpreta as suas próprias composições e letras. Tem um voz muito bonita e sexy. É, por isso, especialmente lembrada pelo estilo vocal, que em muito lembra a inesquecível cantora Billie Holiday.
Viveu também no sul da Califórnia, na cidade de Nova Iorque e em Paris.
Começou a cantar com quinze anos de idade, quando descobriu os artistas de rua, do boémio Quartier Latin, em Paris. Aos 16 anos, passou a fazer parte da The Lost Wandering Blues and Jazz Band. Viajou com este grupo, durante dois anos, pela Europa, interpretando canções de estrelas do Jazz como Fats Waller, Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Bessie Smith, etc. O repertório do seu primeiro álbum, Dreamland (1996) é o resultado de muitas destas experiências. Algumas canções realçam as vantagens de uma vida simples e sem complicações "(Getting Some) Fun Out of Life"; "Always a Use"; "This is Heaven To Me"; "A Little Bit" e "Homeless Happiness".
Neste álbum incluiu, também, canções de Patsy Cline, Holiday e Smith. Peyroux recebeu, então, a alcunha de "Billie Holiday do século XXI".
A revista Time chegou a classificar o álbum como "a mais excitante e envolvente performance vocal feita por uma nova cantora no ano".
Peyroux começou, então a fazer as primeiras partes dos concertos de Sarah McLachlan e Cesária Évora, além de realizar diversas aparições em conceituados festivais de Jazz, como o festival de Montreal, em 1997.
Em 2004, depois de um interregno de oito anos em que viveu no anonimato, lançou o álbum "Careless Love", que a trouxe novamente para a ribalta.
Neste álbum, Peyroux trabalhou com Larry Klein, com quem viria a trabalhar nos seus discos seguintes. Uma das suas adaptações mais conhecidas, "Dance Me To The End of Love", de Leonard Cohen, foi lançada pela primeira vez nesta gravação.
Depois do sucesso de "Careless Love", Madeleine Peyroux voltou ao estúdio e gravou "Half of The Perfect World", lançado em 2006. Desta feita, o álbum tinha quatro temas originais e novas interpretações de músicas de Leonard Cohen ("Blue Alert";"Half the Perfect World"), Tom Waits e Serge Gainsburg.
Em Março de 2009, Peyroux lançou um álbum totalmente composto por originais, Bare Bones.
Ouça-a, agora, em Instead. Se não a conhece não perca esta interpretação. Vale mesmo a pena.

terça-feira, julho 20, 2010

Tempos-Juncos




Tempos-juncos
Na margem do lago,
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.
Velimir Khlébnikov

segunda-feira, julho 19, 2010

Nuvens sobre Nova Yorque

No dia 26 de Junho de 2009, em Nova Yorque, ocorreu um espectáculo surpreendente: a formação de nuvens mammatus. As nuvens mammatus são raras e belíssimas.
Este impressionante fenómeno da natureza assemelha-se a algo saído de um filme de ficção científica.
Os Nova Iorquinos vieram para as ruas assistir a este estranho e espantoso acontecimento.
A formação das nuvens Mammatus é rara e na maioria das vezes está associada à formação de nuvens do tipo cumulonimbus.
Podem, também, ocorrer na alta atmosfera associadas a estratocumulos, cirros e cirrocumulos. Acontecem por vezes em "contrails" (nuvens artificias provocadas por aviões) e em nuvens de poeiras vulcânicas.
Mammatus (também referenciado por mamma ou mammatocumulus) é um termo da meteorologia aplicado ao padrão de "bolsas" que se formam na base da nuvem. O termo "mammatus" deriva de mama, devido à associação ao formato de mamas ou seios.
Frequentemente, as nuvens mammatus formam-se sob a bigorna associada a uma nuvem cumulonimbus.
As nuvens do tipo Mammatus, quando associadas a um cumulonimbo são indicadoras de tempo severo, mas, em muitos casos, indicam que a tempestade está a perder a sua força.

domingo, julho 18, 2010

Nazaré: Ontem e Hoje

A Nazaré é uma pequena vila portuguesa no distrito de Leiria (região Centro),com cerca de 14 000 habitantes.
É sede de um pequeno município com 80,49 km² de área, subdividido em 3 freguesias. O município é rodeado a norte, leste e sul pelo município de Alcobaça e a oeste confina com o litoral do Oceano Atlântico.
O concelho teve foral em 1514. O município, a vila e a freguesia designaram-se Pederneira até 1912. A Pederneira é actualmente uma localidade da freguesia da Nazaré, mantendo ainda o edifício dos antigos Paços do Concelho, a igreja Matriz e a igreja da Misericórdia. Outro local de interesse na vila da Nazaré é o Sítio. O Sítio da Nazaré é um bairro da vila da Nazaré. Data de 1182 a primeira construção no alto do escarpado promontório onde se localiza o Sítio. Trata-se da Ermida da Memória, mandada erguer por D. Fuas Roupinho sobre uma gruta, onde esteve durante a época muçulmana a imagem de Nossa Senhora da Nazaré. Ao episódio que originou a construção da capela dá-se vulgarmente o nome de Lenda da Nazaré e o nome da vila está ligado a esta lenda.
A Nazaré está indelevelmente ligada a Alves Redol, à longa-metragem de Manuel Guimarães (Nazaré de 1952), às sete saias das mulheres dos pescadores, à tasca do Zé Aleluia e ao Carnaval.
Se não sabe onde ir passear ou passar férias, aproveite e vá até à Nazaré. Para lhe abrir o apetite escolhi dois vídeos. Um da Nazaré de outros tempos e o outro da Nazaré de hoje. Aprecie.



sábado, julho 17, 2010

O Esconderijo de Ana Cañas

Aprecie O Esconderijo da cantora Brasileira Ana Cañas, através do vídeoclipe oficial desta música, extraída do novo CD Hein? (2009). Este tema fez parte da banda sonora da novela "Viver a Vida" da Rede Globo que passou recentemente em Portugal.
Ana Cañas é uma jovem cantora brasileira (1980), que se estreou em 2007 no cenário musical, com o álbum Amor e Caos, cuja canção "Coração Vagabundo", de Caetano Veloso, fez um enorme sucesso. Esta cantora distinguiu-se, também, na internet com hits como "Super Mulher", "Devolve, Moço" e "Cade Você?".
Ana Cañas assume que sofre influência de nomes como: Beatles; Hendrix; Rita Lee; Nina Simone; Cobain; Mário Edson; Jimmy Page; Che; Brando; Fellini; Arnaldo Antunes; Miles Davis; Keith Richards, etc. Aproveite e aprecie o vídeoclipe.



sexta-feira, julho 16, 2010

LEMBRANÇA DA RIA DE FARO

Dunas atrás da casa

gafanhotos cor de

madeira cardos cor de areia

ao fim da tarde,



barcos na água rósea

onde a cidade, em frente à casa, cai


De madeira caiada a

casa está

sobre a areia, que escurece quando

a maré devagar desce na praia
Gastão Cruz - Crateras - Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

quinta-feira, julho 15, 2010

Velha Chácara

A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…

- Mas o menino ainda existe.
Manuel Bandeira

quarta-feira, julho 14, 2010

Tem Problemas de Espaço?

Hong Kong é uma das cidades com maior densidade populacional do mundo. O excesso de população e a falta de espaço, são problemas com que qualquer cidadão se depara, no seu dia a dia.
Em Hong Kong, por causa do problema do espaço, os apartamentos são minúsculos e muito caros.

Um jovem arquitecto, Gary Chang de seu nome, conseguiu projectar um pequeno apartamento de maneira a poder transformar-se em 24 diferentes "designs" ou opções de "assoalhadas". Só é possível, tudo isto, através da deslocação de painéis e paredes amovíveis.
Gary chamou a este projecto o "Transformador Doméstico". Se quiser ver mais algumas das chamadas Casas Verdes no Mundo, clique aqui. Entretanto, aprecie este pequeno apartamento em Hong Kong. É o que se chama aliar o pragmatismo e o conforto às necessidades da vida moderna.
Diga lá se, lá em casa, não lhe daria jeito ter algumas destas soluções?

terça-feira, julho 13, 2010

Passear pela Arte

Hoje proponho-lhe uma viagem à volta do mundo. Mas, esta é uma viagem diferente.
É uma viagem feita através de obras arquitectónicas localizadas em várias partes do mundo. Veja a beleza das linhas e através delas a criatividade e génio de alguns arquitectos. E por falar neles, quem não se lembra logo de Sisa Vieira, Soutinho, Cassiano Branco, Souto de Moura, Santiago Calatrava, Óscar Niemeyer, etc.

"Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein" (Óscar Niemeyer).

Óscar Niemeyer (1907) é um arquitecto brasileiro, considerado um dos nomes mais influentes na Arquitetura Moderna internacional. Foi pioneiro na exploração das possibilidades construtivas e plásticas do cimento armado.
Os seus trabalhos mais conhecidos são os edifícios públicos que desenhou para a cidade de Brasília. Veja alguns deles na apresentação que escolhi para hoje.





segunda-feira, julho 12, 2010

Um Abraço, José

Um abraço a José Saramago, enviado por Mia Couto (escritor moçambicano):

"A morte só existe se há ausência. Para uns, como Saramago, não haverá nunca ausência. O escritor semeou-se tanto e por tantos outros que ele apenas mudou de presença. Não falo da escrita. Mas dos momentos em que ele se distribuiu, pessoa entre pessoas. Em mim, essa permanência faz-se de indeléveis momentos. Relembro aqui alguns desses episódios:"

Primeiro episódio (Maputo, finais de Novembro de 2000)
"José Saramago vem a Maputo lançar A Caverna. Uma semana antes da sua chegada, o jornalista Carlos Cardoso tinha sido assassinado. Para Saramago, a razão da sua viagem a Maputo já não é ele ou a sua obra. Horas depois de ter aterrado, a sua agenda é totalmente alterada. Sentado na varanda do seu hotel, José dá instruções sobre o que pretende. Horas depois visita a redacção do Metical, o jornal de que era director Carlos Cardoso. "Acima de tudo não podemos deixar que nos convençam que isto que aconteceu é episódico e acidental, como se houvesse um grupo descontrolado que, por uma qualquer razão, resolvesse cometer um crime", disse Saramago na ocasião.
Depois, segue com um batalhão de jornalistas para o local onde Cardoso tinha sido abatido a tiro. Ali mesmo fala para a imprensa, exalta a coragem e a lucidez como armas para preservarmos a humanidade. Visita a viúva de Cardoso, dá entrevistas, fala com escritores e artistas.
No dia seguinte, pede-me a mim para organizar encontros com membros do governo. Quer pressionar as autoridades para que encontrem os autores materiais e morais de ambos os crimes. Organizo um encontro com o primeiro-ministro de quem eu era amigo. Confesso-lhe os meus receios. O discurso de um estrangeiro, com exigências sobre a celeridade da justiça, não agradaria a dirigentes orgulhosos na recente conquista da Independência.
Confirmando os meus receios, na audiência, José Saramago não usa de panos quentes. As suas palavras são ásperas, certeiras, sem diplomacia. Pascoal Mocumbi, o primeiro-ministro, é um homem alto, tão alto como Saramago. Enfrenta-o, olhos nos olhos. Após um momento de silêncio, Mocumbi confessa: "Eu já o conhecia, já gostava de si. Agora gosto mais ainda." Começa então uma conversa franca que dissolve distâncias. Saramago e Mocumbi trocam confidências, como velhos amigos. No final, está acertado um outro momento para continuarem a amena cavaqueira: em Lanzarote, em casa de José e Pilar."

Segundo episódio (Cheias em Moçambique, 2000)
"As inundações de 2000 foram as piores nos últimos cem anos. Impotente, perante o drama que vivíamos, redigi um apelo para que as vítimas das cheias recebessem apoio internacional. Saramago respondeu-me no mesmo dia perguntando ao telefone, no seu habitual tom seco:
- Diz-me apenas o que tenho que fazer.
No instante seguinte, tinha transferido 25 mil dólares para uma conta que passaria a ser auditada por uma agência financeira internacional. Outros escritores lhe seguiram o exemplo. No final, havia dinheiro para erguer um centro de saúde em Chivonguene, nas margens do rio Limpopo.
Já em Maputo, meses depois, Saramago foi recebido por Helder Muteia, o então ministro da Agricultura. O governante pretendia expressar a Saramago a gratidão dos moçambicanos. Muteia é poeta. Organizou o encontro com um carinho que superava as obrigações protocolares. Escapou-lhe, por isso, a secura do escritor português durante todo o encontro. Ao lado de Saramago eu adivinhei-lhe a pressa: queria fugir aos agradecimentos. Para ele havia um dever de solidariedade que se explicaria melhor junto dos camponeses que beneficiaram do seu apoio. Já no final, em plenas despedidas, Saramago perguntou: "E que nome deram ao centro de saúde?" Imitando o tom seco do visitante, o ministro respondeu, quase displicente: "Chama-se Levantado do Chão." Saramago parou, fulminado pela emoção. Gaguejou, baralhando letras e palavras. Por fim, confessa, em suspiro: "Caramba, homem, você comoveu-me!"

Terceiro episódio (Universidade de Évora, 1999)
"O abraço estava mal distribuído. Ele abraçou-me. Eu fui abraçado. A razão dessa troca desigual não era apenas de ordem física. Eu estava preso pela timidez, vivendo um momento inusual, num território estranho. A pergunta de Zeferino Coelho, no dia anterior, ainda ecoava confusamente dentro de mim:
- Você importa-se que José Saramago, depois da entrega do seu prémio, faça um debate público consigo?
O editor da Caminho conhecia antecipadamente a minha resposta: ter Saramago na cerimónia de entrega de um prémio era a impossível cereja por cima de um improvável bolo. Embalsamado num fato escuro, fui subindo a escadaria do edifício da universidade. E lá estava ele, no último degrau, com seu porte nobre, abraçando-me logo à chegada como se fosse ele o patrono do prémio. Para mim, aquele abraço era uma recompensa maior.
O programa era breve e, num instante, se iniciou a anunciada conversa entre mim e ele. O anfiteatro estava cheio, no pódio estava o Presidente da República de Portugal. A um certo momento, em tom paternal mas ríspido, Saramago admoestou-me: eu que deixasse essa "coisa" da biologia e me dedicasse apenas à escrita. Lembro-me do seu tom, peremptório: "Já te disse, a escrita pede tudo, não aceita partilhas."
Mas eu sabia que, também para ele, essa entrega à literatura não o ocupava com exclusividade. Saramago foi um cidadão do mundo, entregue a causas e debates, desdobrando-se em viagens e semeando presenças. Recordo ver uma fotografia sua, já doente e antevendo o fim, acarinhando Aminatou Haidar, activista pela independência do Sara Ocidental. Em greve de fome, Aminatou está frágil, quase desfalecida. Não menos frágil está José Saramago. Mas as mãos de José e de Aminatou amparando-se mutuamente geram a força de um infinito abraço."
Mia Couto

domingo, julho 11, 2010

Codinome Beija-Flor

Cazuza (Rio de Janeiro, 4/4/58 — 7/7/90) foi um cantor e compositor brasileiro que se tornou um símbolo da sua geração. Foi vocalista e principal letrista da banda Barão Vermelho. A sua parceria com Roberto Frejat foi criticamente aclamada. As composições que se tornaram famosas enquanto vocalista dos Barão Vermelho são: "Todo Amor Que Houver Nessa Vida", "Pro Dia Nascer Feliz", "Maior Abandonado", "Bete Balanço" e "Bilhetinho Azul".
Cazuza transformou-se num dos maiores ícones da música brasileira do final do século XX. .
Os sucessos musicais da sua carreira a solo são:"Exagerado", "Codinome Beija-Flor", "Ideologia", "Brasil", "Faz Parte Do Meu Show", "O Tempo Não Pára" e "O Nosso Amor A Gente Inventa".
Cazuza também ficou conhecido por ser rebelde, boémio e polémico. A sua vida foi breve (32 anos) e intensa. A sete de Julho deste ano, ocorreu o 20º aniversário da sua morte.
Proponho-lhe que assista a dois vídeos. No 1º, Cazuza canta a música "Codinome Beija-Flor" no programa "Um Toque de Classe", de Cesar Camargo Mariano, na extinta TV Manchete (1986). O 2º é uma pequena homenagem feita por e para fãs do Cazuza.




Não perca agora a homenagem.

sábado, julho 10, 2010

Dançar a Vida

Na época que antecede a reprodução, os animais manifestam determinados comportamentos (sinais odoríferos, visuais e sonoros) para comunicarem e chamarem a atenção do sexo oposto (combates, bailados e oferta de presentes). A este conjunto de comportamentos que manifestam antes, durante e após o acasalamento chama-se parada nupcial. Nas aves esses comportamentos são muito frequentes e conhecidos. As etapas da parada nupcial são: a comunicação, o reconhecimento e o acasalamento.
É vulgar ouvir-se a expressão "parecem dois pombinhos" que remete para a parada nupcial do pombo. Algumas aves fazem exibições mais simples enquanto outras são muito elaboradas. Quase toda a gente conhece a exibição do peru e a forma como o pavão exibe as suas penas coloridas. É também frequente, entre as aves, a execução de bailados e a oferta da presentes coloridos ou de alimentos às fêmeas.
Os machos da família das aves são muito "amorosos". Não lhes faltam formas de mostrarem às fêmeas o seu interesse, a sua habilidade e a sua beleza. Muitas vezes o entusiasmo dos machos é tanto que lutam entre si. As paradas nupciais mais conhecidas são: as do mergulhão-de-crista, das aves do paraíso (clique aqui) ou as dos cisnes, etc.
Ora veja aqui alguns exemplos.

sexta-feira, julho 09, 2010

Amar Alfama

Alfama é o mais antigo e um dos mais típicos bairros da cidade de Lisboa. Abrange as freguesias de São Miguel, Santo Estêvão e São Vicente de Fora. O seu nome deriva do árabe al-hamma, que significa banhos ou fontes.
As vistas mais espectaculares de Alfama obtêm-se dos miradouros das Portas do Sol e de Santa Luzia. Acima de Alfama e envolvendo-a ficam, a colina do Castelo de São Jorge e a colina de São Vicente. Para além do Castelo, os principais monumentos da zona são a Sé, a Igreja de Santo Estêvão e a Igreja de São Vicente de Fora.
Alfama é um bairro popular. Assemelha-se a uma antiga aldeia na qual todas as pessoas se conhecem e se cumprimentam diariamente. O bairro é conhecido pelos seus restaurantes e casas de fado, assim como pelos festejos dos Santos Populares, em especial na noite de Santo António, de 12 para 13 de Junho.
Durante o domínio muçulmano, poder-se-ia falar de uma Alfama do Alto, mais aristocrática, situada dentro da Cerca Moura, na parte oriental da actual freguesia da Sé, que comunicaria pela Porta de Alfama ou de São Pedro (na actual rua de São João da Praça) com uma Alfama do Mar, arrabalde popular.
Com o domínio cristão a designação Alfama foi-se alargando mais para leste, dentro dos limites da Cerca Nova ou Cerca Fernandina, passando para lá do Chafariz de Dentro.
Este bairro foi outrora o mais agradável da cidade. As origens do declínio surgiram na Idade Média, quando os residentes ricos se mudaram para o oeste, deixando o bairro para uma população de pescadores e marinheiros.
Os prédios resistiram ao terramoto de 1755. Apesar de já não existirem casas mouriscas, o bairro conserva um pouco do ambiente árabe, com as suas ruelas, escadarias e roupa a secar nas janelas. As áreas mais arruinadas estão a ser restauradas e a vida desenvolve-se em volta das pequenas mercearias, bares e tabernas.
Graças a um número significativo de nascentes com um caudal de alguma importância, Alfama era, antes da construção do Aqueduto das Águas Livres, a zona de Lisboa com menos problemas de falta de água. As águas de Alfama ou Águas Orientais foram introduzidas em 1868 na rede de abastecimento público de Lisboa com a construção no local do antigo Chafariz da Praia de uma cisterna que recolhia a água . Ainda hoje subsistem os seguintes chafarizes: Chafariz de El-Rei e o Chafariz de Dentro.
Algumas das águas que ali existiam tinham temperaturas elevadas (nalguns casos acima dos 20 °C), chegando mesmo a ser classificadas, em finais do século XIX, como águas minero-medicinais. Foram exploradas, por isso, pelo menos desde o século XVII como banhos públicos ou alcaçarias, que se mantiveram em actividade até às primeiras décadas do século XX.
Aprecie, agora, a apresentação que escolhi para hoje e que mostra alguns dos aspectos mais tipicos deste bairro popular.

quinta-feira, julho 08, 2010

Adeus Tila

HISTÓRIA DO SR. MAR
Deixa contar...
Era uma vez
O senhor Mar
Com uma onda...
Com muita onda...

E depois?
E depois...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
Ondinha vai...
Ondinha vem...
E depois...

A menina adormeceu
Nos braços da sua Mãe...
Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila



Matilde Rosa Lopes de Araújo (Lisboa -1921 - 6 de Julho de 2010) foi uma escritora portuguesa, especializada em literatura infantil.
Licenciou-se na Faculdade de Letras, da Universidade Clássica de Lisboa, em 1945. Foi professora do Ensino Técnico-Profissional e formadora de professores na Escola do Magistério Primário de Lisboa.
Escreveu livros de contos e de poesia para adultos e mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças (O Livro da Tila – poemas para crianças, 1986; O Palhaço Verde – novela infantil, 1984; História de um Rapaz – conto infantil, 1986 ; O Cantar da Tila – poemas para a juventude, 1986; O Sol e o Menino dos Pés Frios – contos, 1986; O Reino das Sete Pontas – novela infantil, 1986 ; Os Quatro Irmãos – 1983; História de uma Flor – conto infantil; O Sol Livro – textos para o ensino, 1976; Os Direitos da Criança, Unicef, 1977; O Gato Dourado – contos infantis, 1985 ; As Botas de Meu Pai – contos infantis,1981; Camões, Poeta Mancebo e Pobre, 1978; Baladas das Vinte Meninas – poema infantil, 1978; Joana-Ana – conto infantil, 1981 ; A Escola do Rio Verde, 198l;etc.
Dedicou-se à defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF em Portugal.
Em 1980, recebeu o Grande Prémio de Literatura para Crianças, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o prémio para para o melhor livro infantil, pela mesma fundação, em 1996, pelo seu trabalho Fadas Verdes (livro de poesias de 1994).

Ainda da Tila, deixo aqui mais algumas palavras:


"Escrevo à mão... gosto de fazer letra. Gosto de desenhar a letra.
A letra tem uma beleza como a palavra tem uma música.
Um dia na escola da Calçada do Combro fiz uma sessão na Biblioteca. Brincávamos com as palavras. Eu perguntava quais eram as palavras mais bonitas. E uma aluna, magrinha, com umas olheiras até aqui, voltou-se para mim e disse:
"A palavra mais linda é "vosselência""!
Matide Rosa Araújo

quarta-feira, julho 07, 2010

Tocar pela Paz

A guerra civil entre o Norte e o Sul do Sudão foi uma das maiores guerras civis registadas nos últimos anos. Mais de dois milhões de pessoas morreram.
Agora a violência voltou, de novo, a aumentar no sul do Sudão. Há o perigo de que as violações dos direitos humanos e a guerra regressem.
Em Janeiro de 2011, daqui a um ano, vai acontecer um referendo para determinar o futuro do Sudão. Assim, há organizações não governamentais que estão a unir esforços, no sentido de apelar aos líderes internacionais, para agir urgentemente no sentido de prevenir o regresso desta horrível violência.
A Plataforma por Darfur (www.pordarfur.org) integra uma série de organizações com preocupações humanitárias para com as pessoas que sofrem naquele país e naquela região. Há quase 3 anos que organizam campanhas de sensibilização para que o Darfur não fique esquecido.
Durante este ano, promovem uma acção global chamada «Sudan 365», que é uma campanha de sensibilização à escala mundial. O objectivo é alertar para o drama que ainda se vive no Darfur, e sobretudo para o referendo que terá lugar no próximo ano e, muito provavelmente, poderá dar origem a uma separação entre o norte e o sul do Sudão. Uma das iniciativas desta grande campanha «Sudan 365» é a produção e a divulgação do vídeo «A Beat for Peace» (uma batida pela paz). Esta foi a forma que encontraram de dar voz a quem não tem voz.
Aqui fica o vídeo, A Beat for Peace, que conta com a participação de músicos de várias partes do mundo.

terça-feira, julho 06, 2010

Os Jardins da Rainha

Neste tempo de calor intenso proponho-lhe um passeio refrescante pelos Jardins da Rainha na Tailândia. Aprecie a beleza das flores em especial das orquídeas.As orquídeas pertencem a uma das maiores famílias de plantas existentes. Apresentam muitas e variadas formas, assim como cores e tamanhos. Existem em todos os continentes com excepção da Antárctida, embora predominem nas áreas tropicais. As orquídeas crescem sobre as árvores, usando-as como apoio para procurar luz. Não são, contudo, parasitas.
São usadas sobretudo como ornamento. Contudo, a produção de baunilha é feita a partir dos frutos de algumas espécies de orquídeas.
A grande maioria das orquídeas apresenta flores pequenas e folhagem pouco atractiva. Mas, o formato intrigante de algumas das suas flores acaba por ser muito chamativo.
As orquídeas têm despertado interesse, como nenhuma outra família de plantas, em coleccionadores, pintores, arquitectos paisagistas, escritores (Rex Stout) e poetas.

segunda-feira, julho 05, 2010

Melody

Melody Gardot (Filadélfia,Pensilvânia - Fevereiro de 1985) é uma cantora e compositora de jazz. Esta cantora é influenciada pelo blues e jazz, de Janis Joplin, Miles Davis, Duke Ellington e George Gershwin e pela música latina de Stan Getz e Caetano Veloso.
O último álbum de originais de Melody Gardot (editado em Maio do ano passado), My one and only thrill, alcançou o 2º lugar no top da categoria, nos E.U.A. e o 12º lugar no top inglês.
Este disco, consolidou-a como uma das vozes mais importantes e sonantes do jazz actual.
Budista e cozinheira de macrobiótica, Melody Gardot encanta pelo timbre único da sua voz, em composições da sua própria autoria, inspiradas em grandes nomes da música norte-americana, como Judy Garland, Miles Davies ou Duke Ellington.
Ouça-a agora em Worrisome Heart ou clicando aqui para ouvir Sweet Memory.