sexta-feira, janeiro 10, 2020

Ópera na Estação do Oriente

Quando menos se esperava, 4 cantores líricos juntaram-se na Gare do Oriente e alto e bom som deram voz a uma Flashmob em 2011.
Uma acção que surpreendeu e marcou o dia mundial da DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica). O momento, que durou alguns minutos, foi da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Pneumologia e da Fundação Portuguesa do Pulmão.
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica é uma doença respiratória muito prevalente e incapacitante, mas que pode ser prevenida e tratada.  A DPOC é caracterizada por uma obstrução progressiva das vias aéreas, associada a uma resposta inflamatória do aparelho respiratório, com repercussões sistémicas. Atinge um em cada 10 adultos acima dos 40 anos de idade.
Fatores de risco
Existem três fatores principais que estão associados ao risco de vir a desenvolver DPOC:
  1. O tabaco é a principal causa de DPOC (entre 80 a 90% dos casos). Os fumadores ou ex-fumadores (principalmente se fumam ou fumaram 20 ou mais cigarros por dia) estão em maior risco.
  2. A exposição a gases, poeiras ou produtos químicos poluentes no contexto de uma atividade profissional.
  3. A História familiar
Assista agora ao vídeo abaixo que mostra como a arte pode estar ao serviço da saúde (no caso da prevenção de uma doença). Vale bem a pena. Não perca.

quinta-feira, janeiro 09, 2020

Carta de Um Contratado

Oiça a Carta de Um Contratado, que é um poema do poeta angolano António Jacinto, aqui dito por José Ramos.
António Jacinto tornou-se conhecido quer através da sua poesia de protesto quer devido à sua militância política, pelo que esteve detido no Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, no período de 1960 a 1972.
Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que dissesse
Deste anseio
De te ver
Deste receio
De te perder
Deste mais que bem querer que sinto
Deste mal indefinido que me persegue
Desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta de confidências íntimas,
Uma carta de lembranças de ti,
De ti
Dos teus lábios vermelhos como tacula
Dos teus cabelos negros como diloa
Dos teus olhos doces como macongue
Dos teus seios duros como maboque
Do teu andar de onça
E dos teus carinhos
Que maiores não encontrei por ai...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que recordasse nossos dias na capopa
Nossas noites perdidas no capim
Que recordasse a sombra que nos caia dos jambos
O luar que se coava das palmeiras sem fim
Que recordasse a loucura
Da nossa paixão
E a amargura da nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Que a não lesses sem suspirar
Que a escondesses de papai Bombo
Que a sonegasses a mamãe Kiesa
Que a relesses sem a frieza
Do esquecimento
Uma carta que em todo o Kilombo
Outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
Amor,
Uma carta que ta levasse o vento que passa
Uma carta que os cajus e cafeeiros
Que as hienas e palancas que os jacarés e bagres
Pudessem entender
Para que se o vento a perdesse no caminho
Os bichos e plantas
Compadecidos de nosso pungente sofrer
De canto em canto
De lamento em lamento
De farfalhar em farfalhar
Te levassem puras e quentes
As palavras ardentes
As palavras magoadas da minha carta
Que eu queria escrever-te amor

Eu queria escrever-te uma carta...

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender
Por que é, por que é, por que é, meu bem
Que tu não sabes ler
E eu - Oh! Desespero! - não sei escrever também!

quarta-feira, janeiro 08, 2020

O Lago Tasman

O Lago Tasman, situa-se em Aoraki no Parque Nacional do Monte Cook, na ilha sul da Nova Zelândia. Este lago não existia até 1990 porque era um Glaciar.
Quando o Glaciar Tasman começou a derreter, os pequenos charcos começaram a juntar-se numa massa de água considerável.
O glaciar tem recuado em média 180 m por ano e o Lago Tasman (com uma deslumbrante cor azul turquesa) cresce continuamente. No entanto, não crescerá indefinidamente. Os cientistas estimam que o glaciar que o alimenta desapareça completamente nas próximas duas décadas.

terça-feira, janeiro 07, 2020

As Escadinhas do Bairro América






As Escadinhas do Bairro América, perto de Santa Apolónia, ganharam o nome do bairro em que foram construídas. O Bairro América foi construído entre 1915 e 1920, na Quinta das Marcelinas. Os nomes das ruas deste bairro são dedicados em exclusivo a personalidades oriundas do continente americano: os norte-americanos  B. Franklin e  G. Washington (o primeiro presidente dos Estados Unidos da América), o brasileiro Rui Barbosa, o venezuelano S. Bolívar e Fernão de Magalhães.
Durante as Festas dos Santos Populares e da Cidade de Lisboa o fado castiço assenta arraiais nas Escadinhas do Bairro América, em pleno coração de Lisboa, com a participação de vários fadistas (como pode ver em baixo) promovendo a canção de Lisboa junto de residentes e de turistas.

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Poema

Alegria —

Ó minha vida! —

Permanece,

Sê ainda amor.



Lá no alto

Onde prossegues,

Guia-me…

Sê ainda a chuva benfazeja

Que refresca

A desolada aridez do meu caminho.



Estrela

Ou música descendo!

Se eu te fugir

Harpeja só de leve a noite escura

Que eu regressarei,

Contente e mudo

Como se nunca me tivessem exilado.



Criança!

Eis-me de novo

Dançando

Uma canção que alguém me está cantando

E eu já esqueci…

— Divina se ia erguendo a prece alada.



Alegria —

Ó minha vida! —

Mais profunda do que a julga a agonia

Do homem que padece,

Não sejas a morte,

Sê ainda amor!
Ruy Cinatti  - Nós não Somos Deste Mundo

domingo, janeiro 05, 2020

So Far Away

Oiça o cantor britânico Rod Stewart em So Far Away.
So far away
Doesn't anybody stay in one place any more?
It would be so fine to see your face at my door
And it doesn't help to know you're just time away
Long ago I reached for you and there you stood
Holding you again would only do me good
Oh how I wish I could but you're so far away
One more song about moving along the highway
I can't say much of anything that's new
But if I could only work this life out my way
I'd rather spend it being close to you
But you're so far away
Doesn't anybody stay in one place any more?
It would be so fine to see your face at my door
And it doesn't help to know you're so far away
So far away, yeah, you're so far away
Traveling around sure gets me down and lonely

Nothing else to do…

sábado, janeiro 04, 2020

Um Tango para a Liberdade

Um Tango para a Liberdade é uma minissérie italiana de 2 episódios, realizada por Alberto Negrin,  inspirada livremente na autobiografia, "Niente Asilo Politico", de Enrico Calamai, que conta a história do diplomata italiano que salvou mais de 300 homens e mulheres perseguidos  pela ditadura argentina.
Se não viu a estreia desta série passada pela  RTP 2 nos dias 1 e 2 de janeiro, não deixe de o fazer. Vale bem a pena.

Sinopse:
Ano de 1976, Marco Ferreri, o jovem e inexperiente diplomata italiano, está na Argentina com o cargo de vice-cônsul da embaixada. Em Buenos Aires, Marco reencontra Diego Madero, o seu grande amigo dos tempos da Universidade em Itália.
O clima político é tenso. Durante uma receção na embaixada, na mesma noite em que conhece Anna Ribeiro, a mais famosa intérprete de Tango argentino, o governo é derrubado por um golpe militar (tendo assumido o poder, o general Jorge Rafael Videla).
Ferrero toma conhecimento de muitos casos de pessoas desaparecidas, vítimas do novo regime ditatorial.
Com a ajuda de uma rede de amigos, entre eles o jornalista Sereni e o advogado Solanas, o diplomata consegue ajudar centenas de pessoas a fugirem.

sexta-feira, janeiro 03, 2020

As Ilustrações Escondidas

Existe uma encantadora e subtil técnica de arte que pode acabar por passar despercebida. Esta técnica é a pintura que existe "escondida" em livros  mas, que quando revelada, é uma festa para os olhos.
Esta bela pintura também chamada de pintura de goteira (fore-edge painting) é uma técnica artística que, segundo alguns historiadores, teve início há mais de dez séculos na Europa, e serve para decorar as páginas dos livros, no lado oposto à lombada.
Terá sido, contudo,  no século XVII que os ingleses começaram a desenvolvê-la com mais detalhe, transformando-se em verdadeira arte, no final do século XVIII, pelas mãos dos famosos editores, livreiros e encadernadores Edwards de Halifax, no Reino Unido.
No início, a técnica consistia só, na marcação do título da obra diretamente sobre o corte dianteiro do livro fechado, permanecendo visível sempre que ele estivesse nessa posição.
Aos poucos, porém, como os títulos passassem a ser marcados nas lombadas, o corte dianteiro passou a ser um espaço para a criação de cenas e de decorações – que podiam ter a ver com a história do volume, com os editores ou mesmo com os donos dos livros.
E ainda o mais interessante: os ilustradores perceberam que podiam deixar os desenhos ocultos, pintando ligeiramente mais para dentro das páginas, deixando aparente apenas a camada de dourado ou a marmorização tradicional.
Hoje em dia, a técnica "fore-edge painting",  é realizada por pouquíssimos profissionais em todo o mundo.
Apesar de esta ser uma arte em vias de extinção, as pinturas de borda são ainda criadas por artistas como Martin Frost,  Clare Brooksbank e Stephen Bowers. O primeiro tem mais de 3.000 obras de arte.
Recentemente houve uma exposição sobre este tema que foi organizada pela Biblioteca Loyola-Notre Dame, em Baltimore, nos Estados Unidos, como uma homenagem a um trabalho tão delicado e minucioso quanto grandioso.
Se quiser entender  mais sobre este assunto veja os vídeos abaixo.
O primeiro vídeo foi criado por um arquivista da Biblioteca da Universidade de Cornell, de Nova Iorque, e mostra uma cópia de 1925 da novela "Kim", de Rudyard Kipling, para demonstrar a genialidade deste tipo de arte.
Parece ser um livro antigo típico, de capa dura com bordas decorativas douradas, como tantos outros. Mas veja o que acontece quando a pessoa que manipula o livro, com todo o cuidado, mantém o bloco de páginas entre o polegar e o resto dos dedos e dobra para ventilar ligeiramente as bordas. De repente surge uma adorável pintura de uma paisagem.
Absolutamente fantástico.

Agora aprecie o segundo vídeo sobre o mesmo assunto:

quinta-feira, janeiro 02, 2020

O Ano Passado

O ano passado não passou,

continua incessantemente.

Em vão marco novos encontros.

Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,

e as pessoas, também as mesmas,

com iguais gestos e falas.

O céu tem exatamente

sabidos tons de amanhecer,

de sol pleno, de descambar

como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado

sepultam-se todos os dias.

Escuto os medos, conto as libélulas,

mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.

Não consigo evacuar

o ano passado.
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, janeiro 01, 2020

Ano Novo

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.
Fernando Pessoa

terça-feira, dezembro 31, 2019

Happy New Year

Com votos de um excelente Ano Novo oiça os ABBA (grupo sueco de música pop formado em Estocolmo em 1972) em Happy New Year.
No more champagne
And the fireworks are through
Here we are, me and you
Feeling lost and feeling blue
It's the end of the party
And the morning seems so grey
So unlike yesterday
Now's the time for us to say
Happy New Year
Happy New Year
May we all have a vision now and then
Of a world where every neighbor is a friend
Happy New Year
Happy New Year
May we all have our hopes, our will to try
If we don't we might as well lay down and die
You and I
Sometimes I see
How the brave new world arrives
And I see how it thrives
In the ashes of our lives
Oh yes, man is a fool
And he thinks he'll be okay
Dragging on, feet of clay
Never knowing he's astray
Keeps on going anyway
Happy New Year
Happy New Year
May we all have a vision now and then

Of a world where every neighbor is a…

segunda-feira, dezembro 30, 2019

Dezembro

Quem me acode
à cabeça e ao coração
neste fim de ano,
entre alegria e dor?

Que sonho,
que mistério,
que oração?

Amor.
Carlos Drummond de Andrade - Dezembro, 1985

domingo, dezembro 29, 2019

Vamos começar a treinar alguns passinhos….



Vamos começar a treinar alguns passinhos?
Vamos dançar pelo fim do ano velho?
"Atão bora lá!" Com inspiração e treino, chega lá.
Ora veja!

sábado, dezembro 28, 2019

Doña Anita

Oiça Patxi Andión, recentemente desaparecido em Doña Anita (1970).
Patxi Andión era um cantor, compositor, actor, professor e escritor, de origem basca, nascido em Madrid, que tinha uma estreita relação de amizade com Portugal.

Setenta y tres años y un vestido añil,
un hermano cura y un primo en París.
Desborda sus labios con fuerte carmín
Anita, el rosario... un poco de anís?

Bajo el colorete
oculta el tiempo ya perdido
y se prepara a dar carrete
a algún enfermo afligido.

Y baja la escalera
moviendo el sombrero florido
que junto con ella espera
hasta que caiga el telón.

Saluda a Don Julio, que es muy parlanchin,
setenta y dos años,
Letra: Patxi Andion
Compositor: Rafael Ferrero

sexta-feira, dezembro 27, 2019

A Sericaia ou Sericá

A Sericaia é um doce que, ultimamente, se serve com as Ameixas d’Elvas (em compota).
A Sericaia é um doce da região portuguesa do Alentejo, provavelmente de origem indiana, também conhecido por Sericá ou Cericá. Tem marcas da doçaria conventual, porque há a utilização abundante de ovos, açúcar e canela.
A sericaia terá tido origem no Convento das Chagas de Vila Viçosa. Contudo, este doce terá passado a confecionar‑se de outra forma, em Elvas, no convento de Nossa Senhora da Conceição ou no de Santa Clara, tendo‑se-lhe então adicionado a canela. Mas há quem afirme que a receita terá sido trazida das Índias por D. Constantino de Bragança, após a conquista de Malaca em 1510. Desde há algum tempo, é comum acompanhá-la com Ameixas d’Elvas, facto frequentemente contestado pelos gastrónomos puristas, que defendem a sua apresentação original.
De acordo com Câmara Cascudo este doce foi levado para o Brasil pelos portugueses, na época da colonização. Segundo um texto escrito por este antropólogo, na década de 1960, a sericaia era popular no Brasil, no entanto, diversas versões alteraram a receita original. Cascudo descreve ainda no seu texto três versões do doce no Brasil: uma em Pelotas (RS), baseada no livro Doces de Pelotas (Porto Alegre, 1959), de Arminda Mendonça Detroyat; outra, na Bahia e outra em São Paulo. Para Cascudo, a receita de Pelotas era a que mais se aproximava da original que foi perdida.
Se quiser experimentar este doce no Ano Novo ou recuperar a receita, aqui vai ela:
Ingrediente:
1 l de leite
12 ovos
125 g de farinha (sem fermento)
500 g de açúcar
1 casca de limão
1 pau de canela
canela em pó (cerca de 2 colheres de sopa)
Sal (qb)

Preparação:
Batem‑se as gemas com o açúcar até se obter um creme fofo. À parte dissolve‑se a farinha com o leite, que foi previamente fervido com o pau de canela, a casca de limão e o sal.
Adiciona‑se o creme de gemas e açúcar e mexe‑se. Leva‑se a engrossar sobre lume brando até se ver o fundo do tacho.
Retira‑se do calor e deixa‑se arrefecer. Batem‑se as claras em castelo e juntam‑se cuidadosamente ao preparado anterior. Nessa altura, o creme deverá estar frio ou ligeiramente morno.
Num prato de estanho ou barro (que possa ir ao forno, previamente aquecido), deita‑se o doce às colheradas desencontradas, isto é, uma ao alto e outra ao atravessado. Este aspeto é muito importante.
Polvilha‑se abundantemente com canela (deve ficar bem castanho) e leva‑se a cozer em forno muito quente (mais ou menos 40 minutos). O doce deverá abrir fendas ao cozer, e abaterá ao arrefecer (como pode ver nas imagem acima).

quinta-feira, dezembro 26, 2019

O Magusto da Velha em Aldeia Viçosa

O Magusto da Velha ocorre  a 26 de dezembro, em Aldeia Viçosa (Guarda).
Esta celebração, com 320 anos, acontece em memória de uma idosa abastada (Velha), cujo nome se desconhece, que decidiu doar castanhas e vinho aos habitantes da aldeia em troca de uma oração em seu nome, durante o Natal.
Agora, todos os anos, no dia a seguir ao Natal, as pessoas da Aldeia Viçosa vão à praça da igreja e sobem à torre da mesma.
Uma vez lá em cima, devem atirar castanhas (cerca de 150 kg) aos restos da fogueira do Madeiro que ardia na praça no dia anterior.
A Câmara Municipal oferece o vinho e todos comem castanhas assadas e passam a tarde, contando histórias de natais passados.

quarta-feira, dezembro 25, 2019

O Menino Jesus da Cartolinha

O Menino vestido com a capa de honras
tradicional de Miranda do Douro 
Menino Jesus da Cartolinha ou Nino Jasus de la Cartolica, assim é chamada, respetivamente em português e em mirandês (as duas línguas oficiais de Portugal), uma imagem do Menino Jesus que está na Sé Catedral de Miranda do Douro.
A imagem não é muito antiga. Deve datar dos finais do séc. XVII ou já do séc. XVIII. A cartola, que ela habitualmente ostenta e que lhe dá um aspeto ingénuo, é ainda mais recente, pois, no tempo em que a imagem foi feita ainda não se usavam cartolas. A cartola, portanto, é dos finais do séc. XIX ou mesmo do séc. XX.
Outro aspeto que caracteriza esta imagem é o seu enxoval, constituído por peças de roupa miniaturais que as gentes de Miranda têm oferecido ao Menino ao longo dos tempos.
Ao Menino Jesus da Cartolinha está associada uma lenda que não é muito mais antiga do que a imagem.
"A lenda vem do período de 1706 a 1713. Foi neste tempo, mais concretamente, em 1711 que o exército castelhano invadiu Miranda e a assolou durante vários meses.
Quando a cidade se encontrava invadida, saqueada e vexada pelos castelhanos e sem esperança de remissão, esperando o reforço das nossas tropas que nunca mais chegava, aparece nas muralhas um menino vestido de fidalgo cavaleiro chamando os mirandeses e gritando às armas contra os invasores. De todas as casas sai gente armada de foices, gadanhas, espingardas e varapaus para escorraçar os espanhóis.
À frente dos mirandeses o menino ora aparecia ora desaparecia, até que no fim da luta e depois da cidade libertada o menino não mais se viu. Procuraram-no por toda a parte, mas em vão. O pequeno "General" tinha desaparecido. Os mirandeses consideraram que se tratava de um autêntico milagre esta vitória contra os espanhóis e que foi sem dúvida um favor muito grande do Menino Jesus.
Mandaram então esculpir uma imagem do Menino Jesus vestido de fidalgo cavaleiro, à maneira do tempo e colocaram-no num altar da catedral."

terça-feira, dezembro 24, 2019

Loa Alentejana

Menino Jesus (Convento de Sta Cruz do Buçaco)
"Loa Alentejana" é o nome dado por Jorge Croner de Vasconcelos a uma canção de Natal tradicional portuguesa originária de Évora: "Eu hei de dar ao Menino".
O texto desta cantiga eborense, comum a outras cantigas de Natal alentejanas, é datado do século XVIII.

Em 1974, a "Loa alentejana" foi harmonizada pelo compositor português Jorge Croner de Vasconcelos que a incluiu como um dos seus Oito Cantos do Natal, dando-lhe a designação por que é conhecida.
A cantiga não apresenta um tema definido, embora todas as coplas girem em torno do conceito de presentear o Menino Jesus (com "uma cadeirinha de oiro", "uma fita pró chapéu", "uns sapatinhos" e um "laço verde") em troca de um "lugarzinho no Céu" ou a cura "duma doença".



Eu hei de dar ao Menino;
Ao Menino eu hei de dar:
Uma cadeirinha de oiro
Para no Céu se sentar.

Eu hei de dar ao Menino
Uma fita prò chapéu,
Também Ele me há de dar
Um lugarzinho no Céu.

O Menino da Senhora
Chama pai a São José,
Que lhe trouxe uns sapatinhos
Da feira de Santo André.

— Ó meu Menino Jesus,
Quem te deu o laço verde?
— Foi uma moça donzela
Duma doença que teve.

segunda-feira, dezembro 23, 2019

Os Caretos de Varge

Os Caretos de Varge fazem parte da Festa dos Rapazes de Varge.
Esta é uma das principais expressões das tradições transmontanas do Solstício de Inverno que envolvem os Caretos, e realiza-se na icónica aldeia de Varge, localizada no Parque de Montesinho, no nordeste transmontano.
Seguindo a tradição, os rapazes solteiros da aldeia reúnem-se no dia 24 de Dezembro para preparar tudo para o dia de Natal. No dia 25 de dezembro, correm pela aldeia vestidos de Caretos, com máscaras pagãs, dando saltos, gritando e provocando os habitantes para criar o caos e espalhar a boa nova de que o frio está a desaparecer e que todos podem sair e divertir-se novamente.
No meio de tudo isto, cantam "loas", canções que ridicularizam e criticam os aldeões e os seus costumes, e vão de casa em casa, comendo as oferendas dos habitantes que abrem as suas portas. No final do dia acontece uma corrida que termina com um jantar e um baile, onde os rapazes e as raparigas de Varge se reúnem numa união simbólica.

domingo, dezembro 22, 2019

Loas Cantadas No Natal

 As Loas que se seguem inserem-se na longa tradição das representações que tinham lugar por alturas do Natal, no nosso país.

Senhores deste santuário
Aqui na vossa presença,
Agora que estou cá dentro
Quero-vos pedir licença.

O Senhor reverendo abade
Está na sua cadeira
Quero-lhe pedir licença
Para seguir minha carreira.

Minha carreira é pequena
Eu tenho fraca memória
Todo o meu desejo é ver
O divino rei da glória.

Deus lhe dê alegres noites
Senhores que estão cá dentro
E segui-me se sabeis
Que razão mudou o tempo.

Pois de certo vos já digo
Que temos o tempo mudado
Em que já vi sinais
De o mundo ser acabado.

Acabará um só dia
Porque assim está prometido
Ele já foi sentenciado
Pelo dia de juízo.

O mesmo nosso pai Adão
Porque o mundo foi girado 1
Pois ele é do mesmo número
A juízo será chamado.

Não vos lembreis mulheres
Por eu de vós não ser lembrado
Saístes do lado do homem
Estais sugeitas ao pecado.

Então vereis cair los outeiros
Quebrar suas espinhas duras
Resumindo-se os rochedos
Abrirão-se as sepulturas.

Vereis abrir o céu
E o estandarte real
Baixando o sol e a terra
O Messias devinal.

Todo o mar há-de dar fundo
Sem água há-de ficar
Para formar novo corpo
Que nele forem sepultar.

Se me concedem licença
Descansarei nesta jornada
Para tomar algum alívio
Tomarei uma pitada.

Torno a continuar
Por esta estrada dura
Vou dizendo palavras
Da sagrada escritura.

Os rústicos não me entendem
O meu modo de falar
Entenderam-me os eclesiásticos
Que o sabem pronunciar.

EMBAIXADOR
Entrai donzelas, entrai
Por essas portas a dentro
Ide cantando louvores
Ao sagrado nascimento.

O sagrado nascimento
Que desculpa lhe darei
Deitei-me e adormeci-me
Ainda agora acordei.

Donzelas
Já chegámos à igreja
Já nos mandaram entrar
Já daqui se deixa ver
Aquele rei celestial.

Já se as portas à igreja
Já se as portas vão abrindo
Para falar à senhora
Licença vamos pedindo.

A estrela mais brilhante
Vede-la aí está entre velas
É a flor da castidade
Que vem chamar-las donzelas.

PRIMEIRO EMBAIXADOR
Se o eco me não responde
Certamente estou perdido
Não acho meu companheiro
Que responda o que eu digo.

SEGUNDO EMBAIXADOR
Anda cá ó companheiro
Anda cá para diante
Que eu também vou para Belém
Desejo ser viajante.

Responde o primeiro:
Eu também da mesma sorte
Desejo levar companha
Por temer as bravas feras
Que existem nesta montanha.

O segundo:
Também nas eu temerei
Que a noite está muito escura
Não esperemos pelo dia
Teremos melhor fortuna.

PRIMEIRO
A noite está muito escura
Meu inocente Jesus
Eu daqui não mudo os pés
Sem me mandar uma luz.

SEGUNDO
Mandai-nos um anjo do céu
Que nos venha alumiar
Que eu não vejo a estrada
Por onde caminhar.

O anjo com a luz:

Aqui tendes esta luz
Eu serei o vosso guia
Vamos ver a Jesus Cristo
Filho da virgem Maria.

Andai comigo meninos
A dar lo vosso recado
Vamos ver o deus menino
Numas palhinhas deitado
Jesus Cristo feito homem
E destruidor do pecado.
Fonte: Loas cantadas no Natal - Centro de Estudos António Maria Mourinho e António Bárbolo Alves, 2007