sexta-feira, outubro 04, 2019

Lisboa

Carlos Botelho
De certo, capital alguma do Ocidente
Tem mais afável sol, ou um céu mais clemente,
Mais colinas azuis, rio d’águas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pálidas crianças,
Mais igrejas e cães — e vargens, onde a esteira
Seja em tardes d’estio a flor da laranjeira!


A cidade é garrida e esbelta de manhã! —
É mais alegre então, mais límpida, mais sã.
Com certo ar virginal ostenta suas graças…
Há vida, confusão, murmúrios pelas praças.
— E, às vezes, em roupão, uma violeta bela
Vem regar o craveiro e assoma na janela.

A cidade é beata — e, às lúcidas estrelas,
O vicio, à noite, sai aos becos e às ruelas
Sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros…
E à triste e dubia luz dos baços candeeiros,
— Em bairos imorais, onde se dão facadas —
Corre às vezes o sangue e o vinho nas calçadas.

Pintura Naïf
As mulheres são gentis. — Umas altas, morenas,
Graves, sentimentais, amigas de novenas,
Ébrias de devoções, relêem as suas Horas.
— Outras fortes, viris, os olhos cor d’amoras,
Os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,
— Às vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burgueses banais são gordos, chãos, contentes,
Amantes de cupido, egoistas, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas, e nos lutos.
Bastante sensuais, bastante dissolutos,
Mas humildes cristãos!.. e, em místicos momentos,
— Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

Viciosa ela se apraz num sono vegetal,
Adversa ao Pensamento e contrária ao Ideal.
David Levy
— Mas, mau grado assim ser viciosa, egoista, à lua,
Como Nero também dá concertos na rua,
E, em noites de verão quando o luar consola,
— Põe ao peito a guitarra e a lírica viola.

No entanto a sua vida é quase intermitente,
Chafurda na inação, feliz, gorda, contente.
E, eclipsando as acções dos seus navegadores,
Abrilhanta a batota e as casas de penhores.
Faz guerra à Vida, à Acção, ao Ideal!.. e ao cabo
— É talvez a melhor amiga do Diabo!
Gomes Leal (1848-1921)Claridades do Sul, Lisboa, 1901.

quinta-feira, outubro 03, 2019

O Vira do Minho



O Vira do Minho é uma dança típica do folclore do Alto Minho.
O Vira embora mais conhecido como característico do Minho, é também dançado noutras regiões de Portugal, entre as quais a Estremadura. São vários os tipos de viras conhecidos: O Vira Antigo (Reguengo Grande, Lourinhã e Casais Gaiola, Cadaval), o Vira das Sortes (Olho Marinho, Óbidos), o Vira Valseado (Outeiro da Pedra, Leiria), o Vira de Costas (Colaria, Torres Vedras), o Vira das Desgarradas (Reguengo Grande, Lourinhã), o Vira Batido (Casais Gaiola, Caldas da Rainha), o Vira de Três Pulos (Assafora, Sintra), o Vira de Dois Pulos (Lagoa, Mafra) e o Vira de Seis, em terras de pescadores.
Imagine, dispostos em roda os pares de braços erguidos, que vão girando vagarosamente no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Os homens vão avançando e as mulheres recuando. A situação arrasta-se até que a voz de um dançador se impõe, gritando "fora" ou "virou". Dão meia-volta pelo lado de dentro e colocam-se frente-a-frente com a moça que os precedia. Este movimento vai-se sucedendo até todos trocarem de par, ao mesmo tempo que a roda vai girando, no mesmo sentido. Para ajudar a completar o cenário imagine os dançarinos (as) com os fatos minhotos e as mulheres com as arrecadas.
Mas este Vira do Minho é apenas o mais simples dos viras de roda, pois outros há com marcações mais complexas. E são muitos os nomes em que se desdobram: vira, fandango de roda, fandango de pares, ileio, tirana, velho, serrinha, estricaina, salto, entre outros.
Viana do Castelo é famosa quando se trata de encenar o vira. Mas não é a única. Chegamos à região de Braga e logo nos surge o "vira galego", “despido da opulência primitiva”, como o definiu, Pedro Homem de Mello.
As origens do Vira, de acordo com alguns estudiosos situam-se no século XVIII enquanto outros referem a sua origem antes do séc. XVI.
Tomaz Ribas considera o Vira uma das mais antigas danças populares portuguesas, salientando que já Gil Vicente a ele fazia referência na peça Nau d’Amores, onde o dava como uma dança do Minho. Note-se, a respeito de filiações e semelhanças, a proximidade do Vira de Dois Pulos de Lagoa e Mafra com o Fandango.
E agora assista ao Grupo Folclórico Das Lavradeiras Da Meadela,Viana do Castelo.

quarta-feira, outubro 02, 2019

Os Furoshiki

Os Furoshiki são um tipo de panos de embalagem japoneses, tradicionalmente usados para transportar roupas, presentes ou outros bens.
Este nome, que possivelmente remonta ao período Nara, significa "espalhamento de banho", que deriva da prática do período Edo de usá-los para empacotar roupas enquanto as pessoas estavam no sentō (banhos públicos) para evitar a mistura das roupas dos banhistas.
Antes de se associarem a banhos públicos, os furoshiki eram conhecidos como hirazutsumi, ou agasalho dobrado. Eventualmente, os furoshiki serviam como um meio para os comerciantes transportarem as suas mercadorias ou para proteger e decorar um presente.
Há um exemplo histórico da utilização de um Furoshiki, por um soldado japonês, durante a Segunda Guerra Mundial. Este soldado foi capturado e o seu Furoshiki tem um mapa impresso num destes panos.
O mapa foi obtido por um soldado australiano, EJ Knight, do soldado japonês capturado em South Bougainville, em 1945. É um furoshiki de tecido sintético. O tecido tem impresso em azul, cinza, castanho, malva e laranja, um mapa do Sudeste Asiático, um avião, um navio e uma música que é uma marcha patriótica. Tem também um poema escrito, indicando que Tsuchiya é o terceiro filho de um escritor que se alistou: "Eu vi meus filhos partir para os campos de batalha três vezes num bom dia de jogo". Também no tecido está escrito "Para Tsuchiya Akira de toda a equipe do escritório de Minenobu ".

Os furoshiki modernos podem ser feitos de uma grande variedade de panos, seda, algodão, rayon e nylon, etc,.
Os Furoshiki são muitas vezes decorados com desenhos tradicionais e não têm um tamanho definido. Podem variar dos tamanhos mais comuns, com 45 cm, 68 ou 72 cm, até ao tamanho de lençóis.
A utilização dos furoshiki no Japão, diminuiu no período do pós-guerra, devido à proliferação dos sacos de plástico .
Nos últimos anos, contudo, devido às preocupações ambientais, o interesse pela utilização deste tipo de panos de embalagem tem vindo a aumentar.
Em 2006, o ministro japonês do Meio Ambiente, Yuriko Koike , criou um pano furoshiki para promover o seu uso no mundo moderno.
Se quiser aderir a esta arte milenar de embrulho japonês usada para transportar objetos e embalar presentes, numa lógica sustentável de reaproveitar tecidos, não deixe de ver o vídeo abaixo que nos ensina como fazer uma bolsa com esta técnica.

terça-feira, outubro 01, 2019

Velha Infância

Oiça o grupo brasileiro Tribalistascomposto pelos cantores Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte em Velha Infância.
Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
é o meu amor

E a gente canta
E a gente dança
E a gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância

Seus olhos, meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim
Um sonho pra mim
Quero te encher de beijos
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito

Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor

E a gente canta
A gente dança
A gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância

Seus olhos, meu clarão
Me guiam dentro da escuridão
Seus pés me abrem o caminho
Eu sigo e nunca me sinto só

Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim
Você é assim
Um sonho pra mim
Você é assim

(Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito)

(Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor)

segunda-feira, setembro 30, 2019

A Poesia Não se Inventou para Cantar o Amor

Leia e medite sobre o excerto que se segue, da obra do escritor português, Eça de Queirós - "A Correspondência de Fradique Mendes"

"A poesia não se inventou para cantar o amor — que de resto não existia ainda quando os primeiros homens cantaram. Ela nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na memória, pela sedução do ritmo, as leis da tribo. A adoração ou captação da divindade e a estabilidade social, eram então os dois altos e únicos cuidados humanos: — e a poesia tendeu sempre, e tenderá constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que estão interessando e conduzindo os homens. Se a grande preocupação do nosso tempo fosse o amor — ainda admitiríamos que se arquivasse, por meio das artes da imprensa, cada suspiro de cada Francesca. Mas o amor é um sentimento extremamente raro entre as raças velhas e enfraquecidas. Os Romeus, as Julietas (para citar só este casal clássico) já não se repetem nem são quase possíveis nas nossas democracias, saturadas de cultura, torturadas pela ânsia do bem-estar, cépticas, portanto egoístas, e movidas pelo vapor e pela electricidade. Mesmo nos crimes de amor, em que parece reviver, com a sua força primitiva e dominante, a paixão das raças novas, se descobrem logo factores lamentavelmente alheios ao amor, sendo os dois principais aqueles que mais caracterizam o nosso tempo: o interesse e a vaidade. Nestas condições, o amor que voltou a ser, como na Grécia, um Cupido pequenino e brincalhão, que esvoaça, surripiando aqui e além um prazer fugitivo — é removido para entre os cuidados subalternos do homem, muito para baixo do dinheiro, muito para baixo da política... É uma ocupação, sem malícia o digo, que se deixa para quando acabar o dia verdadeiro e útil, e com ele os negócios, as ideias, os interesses que prendem. «Já não há hoje nada de produtivo a fazer? Já não há nada de sério em que pensar?... Bem! Então, um pouco de perfume nas mãos, e abra-se a porta ao amor que espera!» A isto está reduzida a Vénus fatal e vencedora!
Ora quando uma arte teima em exprimir unicamente um sentimento que se tornou secundário nas preocupações do homem — ela própria se torna secundária, pouco atendida e perde a pouco e pouco a simpatia das inteligências. Por isso hoje, tão tenazmente, os editores se recusam a editar, e os leitores se recusam a ler, versos em que só se cante de amor e de rosas. E o artista que não quer ser uma voz clamando no deserto e um papel apodrecendo no armazém, começa a evitar o amor como tema essencial da sua obra".
Eça de Queirós - A Correspondência de Fradique Mendes

domingo, setembro 29, 2019

A Faiança Miragaia

A Faiança Miragaia refere-se a louças identificadas nos mercados das velharias por "Miragaia" que são um caso bem curioso da faiança portuguesa.
A origem do motivo que as identifica é a célebre loiça inglesa do Willow pattern (o padrão do Salgueiro, desenhado por Thomas Minton em 1790) e que no nosso país se designa como Cantão Popular ou o Cantão de Miragaia.
Basicamente, o motivo inglês, é a narração da história de um amor contrariado passado na China, que tal como Romeu e Julieta, termina mal. Se quiser ficar a saber mais sobre este padrão basta clicar aqui.  Este padrão inglês ter-se-á  inspirado nos motivos chineses de Cantão.
Contudo, os fabricantes portugueses dos "miragaias", libertaram-se das amarras do padrão original do salgueiro e interpretaram-no livremente, com pinceladas rápidas, num resultado cheio de energia e com um gosto muito popular.
Na loiça de Miragaia, as motivos que constituem o padrão do salgueiro são simplificados e esvaziados do seu significado original. No fundo há um processo de abstracção muito grande, só que em vez de ser levado a cabo por pintores modernistas em Paris, é feito por artesãos populares.
Há pouca coisa escrita sobre esta faiança. Sabe-se que houve vários fabricantes ao longo de um período de tempo muito grande (inícios do século XIX até à segunda metade do século XX), que produziram este motivo com muitas variantes entre si. Contudo, as peças nunca têm marcas. De acordo com alguns estudiosos chama-se Cantão Popular ou Cantão de Miragaia, por esta fábrica se ter destacado na sua produção. Mais tarde seriam as oficinas de Coimbra a darem-lhe continuidade pelo que chegou até nós popularizado como Cantão de Coimbra. 

Contudo, numa exposição que se fez em 2008, no Porto, no Museu Soares dos Reis, intitulada Fábrica de Louça de Miragaia, refere-se que nunca se encontrou nenhuma loiça com o motivo do salgueiro, com as marcas características da Fábrica Miragaia. No catálogo da exposição adianta-se que essa fábrica se tornou famosa por fazer um tipo de motivo com uma paisagem em azul, conhecida por "País"  e que daí em diante toda a louça em azul com paisagens passou a ser conhecida por Miragaia.

sábado, setembro 28, 2019

Tá Escrito

Oiça o cantor brasileiro Xande de Pilares em Tá Escrito.

Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta e não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer
É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar
Erga essa cabeça
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora (manda essa tristeza embora)
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta e não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer
É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar, vai
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar
Erga essa cabeça
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Manda essa tristeza embora, por favor
Basta acreditar que um novo dia vai raiar (um novo dia vai raiar)
Sua hora vai chegar
Erga essa cabeça
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar
Fonte: LyricFind
Compositores: Alexandre Assis / Carlos Rodrigues / Gilson Bernini

https://www.youtube.com/watch?v=bqMMDty5KNY

sexta-feira, setembro 27, 2019

Há um novo Deus e uma nova verdade...



Há um novo Deus e uma nova verdade, que é compartilhada na Internet e imposta pela tecnologia, realidade que tem transformado as nossas vidas.
Esta nova realidade alternativa acaba por suplantar as relações no mundo real, servindo de alimento, muitas vezes de pouco valor, para satisfazer a nossa fome de conhecimento e de intimidade.

quinta-feira, setembro 26, 2019

A Lista

Oiça A Lista na voz do cantor brasileiro Oswaldo Montenegro.
Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você

quarta-feira, setembro 25, 2019

A Selvagem

Às vezes, como os grandes fantasistas,
Sinto o desejo intenso das viagens…
E ir sozinho habitar entre os selvagens,
Como num ermo os ásperos trapistas.

As grandes, vastas, límpidas paisagens,
Que sabem ver os imortais artistas…
Teriam novos tons, novas imagens,
Longe do mundo avaro e as suas vistas!

Com uma virgem — flor dessas montanhas —
Entre os mil sons das árvores estranhas,
Dos coqueiros, bambús … fôra feliz!…

Dormiria em seus braços nus, lustrosos,
E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,
— Tilintar-lhe as argolas do nariz.
Gomes Leal

terça-feira, setembro 24, 2019

Sobre Rodas




Sobre Rodas é um filme infanto-juvenil e o primeiro longa metragem do realizador e roteirista brasileiro Mauro D'Addio.
Sobre Rodas foi eleito o Melhor Filme pelo público no TIFF Kids do Canadá, no Chicago International Children's Film Festival e na Mostra Geração do Festival do Rio 2018.
No elenco o filme conta com os desempenhos de Lara Boldorini, Cauã Martins, Georgina Castro, entre outros.



Sinopse:

Lucas (Cauã Martins) é um menino que chega a uma nova escola depois de sofrer um acidente que o colocou numa cadeira de rodas. Lá, ele se torna amigo de Laís (Lara Boldorini), uma colega de classe que sonha em conhecer o pai que a abandonou.
Juntos, os dois iniciam uma jornada inesperada e decidem fugir de casa atrás do pai da menina que ela não chegou a conhecer.
A partir daí, são abordados temas como inclusão, primeiro amor e despertar da adolescência.
Veja agora o Trailer do Vimeo.
SOBRE RODAS trailer from Klaxon Cultura Audiovisual on Vimeo.

segunda-feira, setembro 23, 2019

Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.
Miguel Torga - Do livro: Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

domingo, setembro 22, 2019

O Menino Selvagem

O Menino Selvagem é um filme francês de 1970, do género drama, realizado por François Truffaut e baseado em livro de Jean Itard (1774-1838), um médico psiquiatra francês que se torna responsável pela educação de uma criança selvagem.
O filme foi produzido por Marcel Berbert e a banda sonora é de Antoine Duhamel, o desenho de produção de Jean Mandaroux, os figurinos de Gitt Magrini e a edição de Agnès Guillemot.

Sinopse:
Um dos mais belos filmes de Truffaut, baseado num caso real: a tentativa de reeducação de uma criança selvagem capturada na floresta de Aveyron. O próprio Truffaut interpreta o papel do professor Itard que toma nas mãos o paciente trabalho, feito de esperanças e desilusões. Belíssima fotografia, a preto e branco, de Nestor Almendros.
É um ótimo filme, essencialmente dirigido às pessoas ligadas à Psicologia, à Educação e às Ciências Sociais.
O garoto selvagem - legendado pt br from Silvana on Vimeo.

sábado, setembro 21, 2019

A Antiga Colónia Agrícola de Pegões

Santo Isidro de Pegões é uma aldeia rural portuguesa localizada no concelho de Montijo que tem a particularidade de ser uma obra do modernismo português.
Foi planeada e construída de raiz há 65 anos pela Junta de Colonização Interna, uma estrutura que tinha como objetivo a colonização de terrenos e o desenvolvimento agrícola.
A Antiga Colónia Agrícola de Pegões fica situada a cerca de 20 de Km do Montijo e inclui os lugares das Faias e de Pegões Velhos, na freguesia de Pegões, concelho de Montijo. É um espaço agrícola de grande qualidade, com um património edificado com grande valor (as casas dos colonos, as igrejas, as escolas do ensino básico, a casa do padre, a casa do professor, etc.) e com uma cooperativa agrícola que produz dos melhores vinhos do mundo.
O principal arquiteto deste projeto, único a sul do Tejo, foi Eugénio Correia e tudo isto pode ter um grande valor turístico.
Se quiser ficar a saber mais sobre este assunto assista ao vídeo abaixo, ou ao programa da RTP, Visita Guiada,  clicando aquidedicado à Colónia Agrícola de Pegões.


sexta-feira, setembro 20, 2019

22 Segredos de Beleza





Fique a conhecer através do vídeo abaixo 22 segredos de beleza para poder ter uma imagem perfeita.
Não perca esta oportunidade
Ora veja!

quinta-feira, setembro 19, 2019

A sensação de falsa segurança



A sensação de falsa segurança alimentada pela sociedade de que Bauman já nos tinha alertado quando disse:
"A incerteza, a principal causa da insegurança, é o instrumento mais decisivo de poder".  Vendem-nos segurança como um remédio, enquanto nos roubam o nosso verdadeiro valor, deixando-nos a enfrentar riscos sem estarmos preparados.

quarta-feira, setembro 18, 2019

As Palavras

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.

Com a lepra na boca,
com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta,
este mineral transpira, a primavera precipita-se.

Com a lepra no coração.
Mais de repente,
só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo
de medo.

E uma vida mais lenta
só com uma estrela às costas,
uma tonelada de luz inquieta,
uma estrela respirando como um carneiro
vivo.

Igual a esta espécie de festa dolorosa,
apenas um ramo de cabelos violentos
e o seu odor a pimenta,
no lado escuro
como se canta que as salas vão levantar
o seu voo.

Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas
em dez dedos com sono,
como uma rosa acima do pénis.

Ao cimo do caule de sangue,
essa flor confusa.
Um equilíbrio igual,
só a estrela ao cimo do êxtase.

Só alguma coisa parada no cimo de uma visão
tremente.
A primavera, que eu saiba,
tem o sal como cor imóvel,

Por um lado entra a noite,
assim de súbito negra.

De uma ponta à outra enche-se o espaço
aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias
a arder.

Abertas para sempre as negras partes
de mais uma estação.

Semelhante a isto
as mulheres andam pelas galerias transparentes,
e o palácio queima a noite onde estou
cantando.

É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver —
e num lado há espelhos bêbedos,
no outro um cardume ilegível de sons
obscuros.

Sabe-se então pelo silêncio em volta,
sabe-se em volta que são lírios
sonoros.

Passando
as mulheres colhem estes sons irrompentes,
e as mãos ficam negras junto à beleza
insensata.

Elas sorriem depois com um talento
terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.

Pesa tanto uma estrela
quando se acorda nas salas negras abertas de par em par,
e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos,
e sobre a boca um lírio em brasa,
branco, branco,

que não nos deixa respirar.
A lepra na boca,
que não nos deixa respirar.

Um ramo de lepra contra o corpo,
como isto então só o movimento de águas obscuras
pelos canais de um canto,
como um palácio de salas negras abertas
para sempre.

Este animal respira como um espelho de pé,
no ar,
no ar.
Herberto Helder

terça-feira, setembro 17, 2019

O Nosso Cônsul em Havana

O Nosso Cônsul em Havana é uma série ficcional televisão portuguesa inspirada livremente no período em que Eça de Queiroz foi Cônsul de Portugal em Cuba, à época colónia espanhola. Realizada por Francisco Manso (Assalto ao Santa Maria, A Ilha dos Escravos, O Testamento do senhor Napomuceno) e escrita por António Torrado com colaboração de José Fanha, a série é uma ficção histórica com base em factos reais contada em 13 episódios de 45 minutos.
Em 1871 caiu o Governo que proibira as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, lideradas por Antero de Quental, onde Eça de Queiroz interviera.
No ano seguinte Eça é nomeado Cônsul, em Havana, por Andrade Corvo, Ministro dos Negócios Estrangeiros do novo Governo de carácter mais liberal.
Em Cuba, colónia espanhola, continua a escravatura.
Existem cerca de cem mil contratados chineses que saem da China através de Macau com documentos portugueses.
Eça segue para Havana com o encargo de tentar resolver o problema dos chineses, tratados como escravos nas plantações de cana-de-açúcar. Durante o tempo em que lá permanece, Eça não deixa por mãos alheias os seus méritos de sedutor e vive um amor escaldante com Mollie, filha do General americano Bidwell, uma jovem moderna e apaixonada que se sente tão à vontade à mesa de póquer como no jogo da sedução. Seguiremos também a história de Lô, uma menina chinesa que embarca clandestinamente para Cuba e que é ajudada por um marinheiro de bom coração, que a entrega às freiras do Convento de Santa Clara.
Para ajudarem Lô a escapar das garras do grande traficante de escravos da Ilha, Don Zulueta, vão convergir pessoas de bem e defensoras da liberdade: o jornalista e livre-pensador Vicente Torradellas, D. Antónia Morales, proprietária de terras, a Madre Filomena, o próprio Eça de Queiroz e o seu amigo Juan, um rapazito engraxador cheio de manhas e artimanhas necessárias à sobrevivência numa cidade como Havana. Se ainda não viu nenhum episódio não deixe de o fazer clicando aqui.  Entretanto para lhe abrir o apetite não deixe de ver, clicando aqui, o Makinf Off desta série. 

segunda-feira, setembro 16, 2019

As Viúvas

As Viúvas são um doce tradicional de Braga, com origem no antigo Convento dos Remédios, com uma apresentação idêntica aos pastéis de nata (segundo algumas receitas) ou de trouxas (segundo outras).
Como um bom doce conventual estão carregadinhos de gemas de ovo e açúcar e têm um leve sabor a noz. Inicialmente, eram simplesmente conhecidas como os pastéis dos Remédios. Certo é que desde o século XVIII já ninguém conhece estes doces senão como Viúvas de Braga.
Até à sua definitiva extinção em 1908, este convento era responsável pela produção de doçaria tradicional bracarense, que era depois comercializada em vários locais da cidade. De todos os doces produzidos pelas freiras franciscanas do Convento dos Remédios, eram as viúvas que tinham maior destaque, sendo muito apreciadas pelos bracarenses.
A tradição bracarense de consumir este doce manteve-se até meados do séc. XX. Depois as viúvas caíram no esquecimento, tendo sido a investigação histórica que contribuiu para que a receita fosse recuperada. A mesma permanecera intocada em apontamentos de cozinha das famílias mais antigas da cidade e nos livros onde as freiras registavam diariamente os gastos da cozinha, guardados no Arquivo Distrital de Braga.
Foi então uma investigação que as trouxe de volta à doçaria, graças à preservação de livros e dos registos das freiras franciscanas.
De um modo geral, as viúvas são feitas com uma massa de manteiga, farinha, ovos e leite e com um recheio de açúcar, gemas de ovo e noz. Depois, o doce é, normalmente, embrulhado em papéis recortados e fechados com fitas azuis e amarelas.
Para que não caiam de novo no esquecimento aqui fica uma receita deste doce bracarense.

Ingredientes:
½ colher (café) de canela
125 g de miolo de noz partida em pedaços muito miúdos
15 gemas
3 claras
500 g de açúcar
raspas de 1 laranja

Confeção:
Leve o açúcar ao lume a fazer ponto de espadana (aos 117º C – ao retirar a colher depois de a mergulhar na calda, esta escorre em fitas largas, com o aspeto de lâmina).
Junte as nozes à calda e deixe ferver cerca de 2 minutos.
Retire o preparado do lume e deixe arrefecer.
Bata, juntamente, as gemas com as claras.
Acrescente os ovos batidos à calda, já morna, assim como a canela e raspa da laranja. Envolva bem.Deite o preparado em formas de queques bem untadas com manteiga  e disponha-as num tabuleiro.
Leve a cozer cerca de 25 minutos (convém verificar a cozedura). 
Noutra receita depois de feito o recheio, corte a massa em quadrados, recheie e modele trouxas. Disponha-as num tabuleiro e leve ao forno por cerca de 25 minutos.
E agora bom apetite.

domingo, setembro 15, 2019

João e Maria

Veja o vídeo oficial da faixa "João e Maria" (Ao Vivo), do DVD "Carioca ao Vivo", gravado no Canecão por Chico Buarque.
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três

Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz

E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido

Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem era nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim.