sábado, dezembro 26, 2009

Poema de Natal

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio
nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos
por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,
e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.
Pedro Tamen

sexta-feira, dezembro 25, 2009

Natal Divino

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.
O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…
Miguel Torga

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Litania para este Natal

Vai nascer esta noite á meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão Ferreira - 1967

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Natal

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
Miguel Torga , Antologia Poética, Coimbra, Ed. do Autor, 1981

terça-feira, dezembro 22, 2009

Abstracção não precisa de mãe nem pai

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse
presépio de vaca burro banda de música

ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo tão real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta.

João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus
Lisboa, Editorial Presença, 1979

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Prelúdio de Natal

Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas
Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas
a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas
A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas

David Mourão-Ferreira

domingo, dezembro 20, 2009

Não Há Palavras...




Não há palavras para descrever o fracasso registado na Cimeira de Copenhaga, sobre as Alterações Climáticas.



















Pela actualidade e oportunidade escolhi, para hoje, uma apresentação com um conjunto de cartoons premiados, sobre Ambiente.








sábado, dezembro 19, 2009

Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Soidões lacustres...
– Lemos e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
– Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha - Clepsidra e Outros Poemas

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Time To Say Goodbye

Para desanuviar um bocadinho, proponho-lhe hoje que assista a um excelente momento musical. A interpretação é de Andrea Bocelli e de Sara Brightman em Time To Say Goodbye.

Andrea Bocelli (nasceu em Itália, a 22 de Setembro de 1958) é um tenor, compositor e produtor musical italiano. Bocelli é um clássico tenor de Ópera. Gravou quatro óperas completas (La Bohème, Il Trovatore, Werther e Tosca), além de vários álbuns com clássicos e músicas populares.
Sarah Brightman (nasceu em Inglaterra, a 14 de agosto de 1960) é uma cantora clássica soprano. Possui a habilidade de cantar em várias línguas incluindo Inglês, Espanhol, Francês, Latim, Alemão, Italiano, Russo, Hindi e Mandarin.
Sarah Brightman vendeu mais de 30 milhões de álbuns e mais de 3 milhões de DVDs, tendo conquistado 160 discos de Ouro e Platina em 34 países.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Évora de Antigamente

Évora é uma cidade portuguesa situada na região Alentejo. É a capital do Distrito de Évora e sede de um dos maiores municípios de Portugal. Tem uma área de 1307,04 km² e 54.780 habitantes. É conhecida como Capital do Alentejo ou Cidade-Museu e encontra-se a 130 km de Lisboa.
A parte da cidade de Évora que fica entre muralhas conserva bastantes traços dos seus tempos mais antigos, incluindo monumentos de várias épocas. O centro histórico de Évora faz parte da lista da UNESCO das cidades património mundial da humanidade.
Évora foi habitada no tempo dos romanos, tendo sido chamada Liberalitas Julia. Deste período restam inúmeros vestígios dos quais se destaca o templo romano conhecido por Templo de Diana. Durante as invasões bárbaras, Évora esteve sobre domínio visigodo. Em 715 d.C. a cidade foi conquistada pelos mouros.
Évora foi tomada aos mouros por Geraldo Sem pavor em 1166 e tornou-se durante a Idade Média uma das mais prósperas cidades do reino, principalmente durante a dinastia de Avis (1385-1580). A Universidade de Évora foi fundada, em 1551, pelos Jesuítas. Em 1759 foi encerrada por ordem do Marquês do Pombal, aquando da expulsão dos Jesuítas (só voltou a ser reaberta em 1973). O século XVIII marcou o início do declínio da cidade de Évora.
A testemunhar a dinâmica histórica e cultural das várias épocas, ficaram os muitos e belos monumentos realizados por diferentes artistas.
O vídeo que escolhi para hoje mostra a Évora do antigamente. Não o perca é um excelente testemunho de um passado não muito distante.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Hamelin

Hamelin é uma pequena cidade Alemã que ficará para sempre ligada aos irmãos Grimm e ao seu conto o Flautista de Hamelin.
Segundo este conto, um flautista livrou a cidade de uma praga de ratos, através do som mágico da flauta, ao qual os animais não resistiam, e levou os ratos até um rio onde depois se afogaram.
Agora veja esta cidade através da apresentação que escolhi para hoje. Também pode ver um desenho animado que conta esta história, clicando aqui.

terça-feira, dezembro 15, 2009

Rua dos Correeiros & Arqueologia

O conjunto urbano da Baixa Pombalina é uma das jóias arquitectónicas de Lisboa.
A revitalização da Baixa passa por intervenções de reabilitação muitas vezes promovidas por empresas privadas que se instalaram em velhos edifícios, nesta parte da cidade. Foi o que aconteceu na Rua dos Correeiros e a arqueologia desempenhou um papel importante neste projecto.
Vinte e cinco séculos de História estão por baixo dos nosso pés na Rua dos Correeiros. Há, ali, vestígios de cidades de diferentes épocas. Da Felicitas Iulia Olisipo, à Lisboa Árabe, à Lisboa Renascentista ou à Lisboa Pombalina e Pós-Pombalina.
Este vídeo da série Lisboa Debaixo de Terra mostra o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros. Ora veja!


segunda-feira, dezembro 14, 2009

A Incrível Índia

A Índia, é um país da Ásia Meridional. É o sétimo maior país em área geográfica, o segundo país em termos demográficos e a democracia mais populosa do mundo. Está delimitado a sul pelo Oceano Índico, pelo mar da Arábia a oeste e pela Baía de Bengala a leste. Faz fronteira com o Paquistão a oeste; a norte com a República Popular da China, o Nepal e o Butão; e a leste com Bangladesh e Mianmar. A Índia está nas proximidades do Sri Lanka, das Maldivas, da Indonésia e do Oceano Índico e tem uma costa de 7.517 km.
País de rotas comerciais históricas e de vastos impérios, é identificado também pela sua riqueza comercial e cultural e pela sua longa história. Foi o berço de quatro grandes religiões (Hinduísmo, Budismo, Jainismo e Sikhismo). No primeiro milénio d.C. chegaram à Índia o Zoroastrismo, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Estas religiões moldaram a diversidade cultural do subcontinente indiano.

Descoberta pelos portugueses, foi anexada, gradualmente, pela Companhia Britânica das Índias Orientais no início do século XVIII e colonizada pelo Reino Unido a partir de meados do século XIX. Tornou-se uma nação independente em 1947 após uma luta pela independência que foi marcada pela resistência não-violenta. O líder que marcou esta fase da história indiana foi Mahatma Gandhi.

Hoje é a décima segunda maior economia do mundo. As reformas económicas feitas desde 1991, transformaram a Índia numa das economias de mais rápido crescimento do mundo. No entanto, ainda sofre com altos níveis de pobreza, analfabetismo, doenças e desnutrição. É uma sociedade pluralista, multilingue e multi-étnica e também o lar de uma grande diversidade de animais selvagens e de habitats protegidos.
Veja agora a apresentação que se segue. Vale a pena!

domingo, dezembro 13, 2009

Bésame Mucho

Imagina os Beatles a cantar Bésame Mucho?
Veja o vídeo que lhe proponho hoje! É uma verdadeira raridade!!
Os Beatles gravaram esta canção no dia 1 de janeiro de 1962, durante a famosa audição fracassada nos estúdios Decca Records. Na época, o baterista dos Beatles era Pete Best. Em 6 de Junho do mesmo ano, tocaram-na outra vez na audição dos estúdios EMI (quando finalmente assinaram um contrato de gravação). Esta última gravação de Bésame Mucho foi incluída no álbum lançado em 1995, Anthology 1. Aquando das gravações do documentário Let It Be, os Beatles tocaram-na novamente. Bésame mucho é o título de uma canção escrita em 1940, pela mexicana Consuelo Velásquez (de 16 anos). Rapidamente a canção se converteu numa das mais populares do século XX. Em 1999, foi reconhecida como a mais cantada e gravada do idioma espanhol e talvez seja a mais traduzida entre as compostas nesta língua. Vários cantores de vários países do mundo interpretaram-na. Gostaria de salientar, aqui ,as versões de Nat King Cole, Louis Armstrong, Cesária Évora, Placido Domingo e Charles Aznavour. Veja agora, a interpretação dos Beatles em Besame Mucho.

sábado, dezembro 12, 2009

A Força dos Beatles

Uma empresa de comunicação móvel enviou um convite por telemóvel:
Esteja em Trafalgar Square, tal dia, a tal hora. Nada mais foi dito.
Muita gente respondeu à chamada. Alguns foram, pensando que iam dançar, como tem acontecido noutras mobilizações deste tipo.
Mas, quando chegou a hora marcada, foram distribuídos microfones, muitos, muitos mesmo.
Com esta atitude a empresa promoveu, em Maio deste ano, um karaoke gigante, de surpresa!!!
Aos que já estavam nesta praça londrina foram-se juntando os que passavam sem saber o que o que estava a acontecer. Juntaram-se,assim em Trafalgar Square, cerca de 13.500 pessoas.
Treze mil e tal vozes que cantaram em conjunto, o tema Hey Jude.
É de arrepiar. Se um dia gostou dos Beatles, vai adorar.
Aqui fica uma das boas músicas que se fizeram nos anos 60...
Vale a pena conhecer ou recordar...

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Se não formos nós, quem será?

Durante as próximas duas semanas, governantes de todo o mundo irão negociar, em Copenhaga, o acordo mais importante do nosso tempo. Este deverá impedir a continuação das alterações climáticas, pois trata-se da Cimeira do Clima.
Os governantes continuam, contudo, longe de um acordo sério. Para que eles façam alguma coisa, nós precismos agir, também, como cidadãos conscientes.
É por isso que sábado, dia 12 de Dezembro, será, o maior dia de acção global sobre mudanças climáticas da história. Milhares de cidades em todo o mundo irão iluminar-se com vigílias cujo objectivo é passar uma única mensagem: O Mundo Quer um Acordo para Valer!
Se quiser saber onde vão ocorrer estas vigílias, clique aqui ou se quiser ver o apelo, sobre o assunto, da Sílvia Alberto no Condomínio da Terra, clique aqui.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Direitos do Homem

O dia 10 de Dezembro foi proclamado, pela O.N.U., Dia Internacional dos Direitos Humanos, com o objectivo de alertar os governantes de todo o mundo para o cumprimento da Declaração Universal dos Direitos do Homem de modo a assegurarem a igualdade de todos os cidadãos, o direito a uma vida digna, o direito ao trabalho e à segurança, o direito à saúde e à educação, o respeito pela diversidade e pela dignidade de todas as pessoas.
Para assinalar esta efméride escolhi dois vídeos.
O 1º explica aos mais novos os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (aprovada em 1948). No 2º vídeo, a Amnistia Internacional mostra como, todos os dias, são violados os direitos do homem nalguns países. Apela também à participação de todos nas suas campanhas.
Ora veja!










quarta-feira, dezembro 09, 2009

Postal de Natal


Este foi um postal electrónico de Natal realizado no âmbito da cadeira de Projecto II, do curso Design da Universidade de Aveiro. O ponto de partida para esta actividade foi o conceito de prosumer. A elaboração do trabalho teve, também, como objectivo alertar para os problemas do excesso de consumo que se vão apoderando desenfreadamente da nossa sociedade. Vale a pena vê-lo e reflectir sobre a sua mensagem.
Pense! Seja um consumidor consciente!

terça-feira, dezembro 08, 2009

Epígrafe

De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
--- expressão da multidão que está comigo.
José Carlos Ary dos Santos