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quarta-feira, julho 01, 2026

Mais Um Dia de Vida

Mais um Dia de Vida (Another Day of Life) é a adaptação para cinema do livro homónimo de Ryszard Kapuscinski, um dos maiores repórteres de guerra do século XX. Este filme de animação (2018) dos géneros documentário, drama e guerra foi realizado por Raul de la Fuente e Damian Nenow.

Com uma técnica de animação extraordinária e um trabalho documental que vai ao encontro dos homens que com ele então se cruzaram, o filme (que pode ver na íntegra no 1º link) é uma belíssima homenagem a um grande repórter de guerra e contou no elenco com Miroslaw Haniszewski, Tomasz Ziętek e Olga Boladz.

 Sinopse:
No Verão de 1975, o grande repórter de guerra Ryszard Kapuscinski é enviado para Angola, numa altura em que os portugueses estão em debandada e os movimentos de libertação se envolvem numa guerra civil sem tréguas. Dois grupos que buscam a libertação do país têm ideais diferentes: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), apoiado pela União Soviética, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), apoiada pelos Estados Unidos. 
No meio de uma série de questões políticas sensíveis, o jornalista propõe-se chegar à linha de frente do conflito armado com o intuito de documentar os seus horrores para o resto do mundo. No entanto, as decisões que Kapuscinski terá que tomar durante o trabalho mostram-se mais complexas do que ele imaginava. De uma Luanda transformada em cidade fantasma sitiada, até à fronteira sul à beira da invasão sul-africana, Kapuscinski é uma testemunha ímpar do nascimento conturbado de um novo país. 

sexta-feira, junho 20, 2025

Noites de Luar no Morro da Maianga.

Noites de luar no Morro da Maianga.
Anda no ar uma canção de roda:
"Banana podre não tem fortuna
Fru-tá-tá, fru-tá-tá..
Fru-tá-tá, fru-tá-tá..
Fru-tá-tá, fru-tá-tá..."

Moças namorando nos quintais de madeira
Velhas falando conversas antigas
Sentadas na esteira
Homens embebedando-se nas tabernas
E os emigrados das ilhas...
— Os emigrados das ilhas

Com o sal do mar nos cabelos
Os emigrados das ilhas
Que falam de bruxedos e sereias
E tocam violão
E puxam faca nas brigas...

O ingenuidade das canções infantis
Ó namoros de moças sem cuidado

Ó histórias de velhas
Ó mistérios dos homens

—Vida!:

Proletários esquecendo-se nas tascas
Emigrantes que puxam faca nas brigas
E os sons do violão
E os cânticos da Missão

Os homens
Os homens
As tragédias dos homens! 
Mário António (1934 - 1989)

Nota: Maianga significa lagoa, charco. E é a origem do nome deste bairro de Luanda, lugar onde até ao século XIX iam elefantes, antílopes e leões beber água. O que está na foto é uma estrutura em forma de poço largo que mantinha a água mais limpa.

terça-feira, fevereiro 21, 2023

Outros tempos, outros Carnavais...

Outros tempos e outros carnavais, noutras geografias.

Proponho-lhe hoje que assista a alguns vídeos e filmes acerca do Carnaval nas cidades angolanas, do Lobito (sobretudo) e Luanda, nos anos 60 e 70 do século XX. Pode assistir aos corsos, à passagem dos carros alegóricos, aos bailes, ao desfile dos foliões, às batalhas com fuba (onde as pessoas ficavam totalmente enfarinhadas). Para ficar a conhecer ou recordar estes carnavais, aqui lhe deixo algumas destas memórias.

O Lobito é uma cidade (436 467 habitantes e área territorial de 3 648 km²) e um município da província de Benguela, em Angola, localizada na costa do oceano Atlântico.

Limita-se ao norte com o município do Sumbe, ao leste com o município do Bocoio, ao sul com o município de Catumbela e ao oeste com o oceano Atlântico.

O Lobito é um dos centros logísticos de Angola: tem as suas ligações no importante porto e nos terminais ferroviários, bem como na rede rodoviária continental, que a conectam ao restante do país, levando-a até costa oriental da África.


O  LOBITO - Carnaval 1973 é um excerto do documentário "PANORAMA" de Angola, realizado pelo cineasta ANTÓNIO de SOUSA. Infelizmente a qualidade fotográfica do filme não é a mais desejável.

Outras imagens do Carnaval do Lobito. Era irresistível participar na guerra com fuba!

Nos anos 70 o Carnaval do Lobito era já um dos mais conhecidos. No vídeo que se segue pode ver imagens do Carnaval de 72,73 e 74.

Ainda o Lobito (Angola) de outros tempos.

Agora assista ao vídeo Carnaval em Angola, Luanda e Lobito, filmes de Angola da década de 70` - Memórias da África, onde pode ver a loucura do carnaval em Luanda e no Lobito. 

O Carnaval do Lobito era o expoente máximo da alegria dos angolanos no geral e dos lobitangas em particular. A alegria e a loucura do carnaval vivido no Lobito terminava sempre com grandes bombardeamentos de farinha (fuba) e água, entre os vários carros concorrentes no corso e a população que assistia. Os cortejos eram pensados e construídos pelos seus criadores. Os carros alegóricos e o cortejo dos mascarados que desfilavam na avenida mostravam grandiosidade e beleza.

quarta-feira, maio 08, 2019

Bilhete De Identidade

Nasci branco de segunda
Calcinhas ou kaluanda
Nasci com os pés no mar
Em São Paulo de Loanda

Brinquei de pé descalço
Em poças de águas castanhas
Tive lagartas da caça
Não escapei às matacanhas

Comi manga sape-sape
Fruta-pinha tamarindo
Mamão a gente roubava
No quintal do velho Zindo

Pirolito que pega nos dentes
Baleizão, paracuca
E carrinhos de rolamentos
Numa corrida maluca

Tinha o Gelo, tinha a Biker
Miramar e Colonial
O Ferrovia, o Marítimo
Chás dançantes no Tropical

O N'Gola era só ritmo
O Liceu uma lenda
Kimuezo e Teta Lando
E os Ases do Prenda

Havia velhas que fumavam
E velhos com ar de sábio
Enquanto novas músicas
Se insinuavam na rádio

«E a cidade é linda
É de bem querer
A minha cidade é linda
Hei-de amá-la até morrer»



Quem não estudou no Salvador?
Quem não se lembra do Videira?
E das garinas de bata branca
Nossas colegas de carteira?

Depois havia o Kinaxixe
Futebol era nos Coqueiros
Havia praias, um mar quente
Savanas imensas, imbondeiros

E havia o som do vento
O cheiro da terra molhada
As chuvas arrasadoras
O fogo das queimadas

E havia todos os loucos
Do progresso e da guerra
A Joana Maluca, o Gasparito
A desgraça daquela terra

Nasci branco de segunda
Calcinhas ou kaluanda
Nasci com os pés no mar
Em São Paulo de Loanda
Nicolau Santos

quinta-feira, novembro 09, 2017

O Palácio de Ferro

O Palácio de Ferro é um edifício histórico de Luanda, em Angola, que se crê ser da autoria de Gustave Eiffel ou de um seu discípulo .

O edifício possuiu uma decoração original em filigrana metálica e tem um soberbo avarandado envolvente, sendo sem sombra de dúvida, o melhor exemplar da arquitectura do ferro em Angola.


Pensa-se que a sua estrutura em ferro forjado tenha sido construída na década de 1880 ou 90 em França, como pavilhão para uma exposição, e posteriormente desmontado e transportado de barco com destino provável a Madagáscar.
Contudo, a história do edifício está envolta em mistério, já que não existem registos da sua origem.




Durante o período colonial o edifício gozava de grande prestígio e foi usado como centro de arte.






Após a independência de Angola e a subsequente Guerra Civil Angolana, o palácio entrou em ruína e o espaço envolvente foi transformado num parque de estacionamento.

Contudo, em 2009, o edifício foi inteiramente restaurado, tendo reaadquirido a sua beleza original
Recentemente, no seu interior está patente uma exposição com máscaras muito antigas originárias das Lundas, que foram resgatadas no estrangeiro e foram recuperadas para serem expostas e apreciadas.
Aprecie as fotos que acompanham este post onde sobressaem a geometria do pavimento e do edifício e o rendilhado do ferro.

segunda-feira, outubro 17, 2016

Maputo tem Sul

"Maputo tem Sul", é uma crónica da angolana Aline Frazão, que não deve deixar de ler.
Aqui fica ela para a devida reflexão!

"Viajar dentro do continente é, provavelmente, o que me ensina mais sobre nós hoje em dia. Maputo é, em muitos sentidos, a antítese de Luanda. Não sei se é o Índico, a poesia rasgada de Eduardo White, o som hipnótico das timbilas ou a música por trás dos neologismos de Mia Couto. O céu é o mesmo mas o tempo aqui é outro. Não sei se é a proximidade com o pólo sul que cria um campo magnético capaz de fazer girar mais devagar os ponteiros deste relógio, ou se é mesmo um talento especial para o sossego. Sei que para uma luandense, chegar aqui pela primeira vez é encontrar o delicioso sabor da diferença.

Luanda - Av. dos Combatentes
Maputo tem luz, Luanda tem gerador. Maputo tem água nas torneiras, Luanda tem tanque e electrobomba. Maputo é uma cidade limpa, Luanda não se pode gabar disso. À hora de ponta, o trânsito daqui é o “até está a andar bem” para nós. Maputo é horizontal, Luanda é vertical. Maputo respira, Luanda transpira.

Hoje, terça-feira, é feriado em Moçambique. Celebra-se uma paz que, contraditoriamente, ainda não chegou. Apesar de falarem baixo, apesar da serenidade nos rostos e da amabilidade no trato, não se trata de um povo passivo ou resignado. Ainda ontem houve uma greve dos chapas, os candongueiros daqui, para exigir um ajuste do preço do transporte de acordo com a subida dos combustíveis. Moçambicano não se deixa. Quando me disseram que há mais de uma década que Moçambique tem eleições autárquicas levei as mãos à cabeça em sinal de vergonha. “Como é que nós, em Angola não temos? Será assim tão difícil? Não podemos aprender com os exemplos aqui ao lado?”

Falando em proximidade, no restaurante onde jantei ontem ouvi tocar pelo menos duas vezes o Carlos Burity. Angola, aqui, passa na rádio. Lamentei, em silêncio, que não aconteça o inverso. A música de Moçambique é uma grande desconhecida para nós. E não é falta de talento. De Sukuma a Azagaia, passando por Isabel Novela e Moreira Xonguiça, há para todos os gostos.
Maputo

Precisamos construir nossas pontes. Visitar-nos mais.

Maputo é um daqueles lugares do bom silêncio. Traço fino que vi no rosto de cidades como o Lubango. A precisão, o verde escuro, a temperatura. Até o vento da frente fria, que alonga a linha do “inverno” (nós diríamos cacimbo), nos arrefece com imprevisível doçura. Acho que é coisa de sul mesmo. Ou coisa de alguém com os sentidos tão viciados pelo caos da cidade, que tem o Sul como metáfora de Sossego. O Índico como um apontamento para a Lembrança.

No outro dia ouvi alguém dizer que “cada um tem a cidade que merece” mas não sei se estou de acordo. Se cada um estiver na cidade a que pertence… Como diria o extraordinário poeta Eduardo White, “não é justo um pássaro onde ele não pode voar.”

Luanda - Arredores
Luanda da tensão e dos problemas, dos lamentos e da extensão do riso, Luanda do martelo e dos motores, das sirenes e do “agarra gatuno”, Luanda da poeira, das bichas e das mil besteiras, Luanda da ostentação e do desejo, do ar-condicionado e das sofisticadas fechaduras, da poesia urbana e do gelado de múcua, capital mundial do contorcionismo burocrático, cidade da minha vida, diz-me, quando foi que começamos a ser assim?"
Aline Frazão

terça-feira, outubro 16, 2012

O Bidôn Hidrográfico




Um excelente "cartoon" que remete para o problema da água na cidade de Luanda, ou melhor da falta dela! O humor ao serviço da cidadania, da geografia e do apelo ao desenvolvimento!

segunda-feira, dezembro 20, 2010

S. Paulo da Assunção de Luanda

Luanda é a maior cidade e a capital da República Popular de Angola, sendo também a capital da província homónima.
Está localizada na costa do Oceano Atlântico e é o principal porto e centro administrativo de Angola. Tem uma população de aproximadamente 4,5 milhões de habitantes (Fonte: ONU - 2004), o que a torna na terceira maior cidade lusófona do mundo, atrás de São Paulo e do Rio de Janeiro.
A cidade está dividida em duas partes: a "baixa" (parte antiga) e a "cidade alta"(parte nova). A "baixa" fica perto do porto, tendo ruas estreitas e edifícios da época colonial.
As indústrias presentes na cidade incluem a transformação de produtos agrícolas, a produção de bebidas, os têxteis, o cimento e outros materiais de construção, os plásticos, a metalurgia, etc.
O petróleo, extraído nas imediações, é refinado na cidade, embora esta refinaria tenha sido várias vezes danificada durante a guerra civil que assolou o país entre 1975 e 2002. Luanda possui um excelente porto natural, sendo as principais exportações do país, o café, o algodão, o açúcar, os diamantes, o ferro e o sal.
Os habitantes de Luanda são na sua grande maioria provenientes de vários grupos étnicos africanos, incluindo mbundos, ovimbundos e bacongos. Existe uma pequena minoria de origem europeia, constituída principalmente por portugueses. A língua oficial e mais falada é o português, sendo também faladas várias línguas do grupo bantu, principalmente o kimbundo.
O topónimo Luanda provém do étimo lu-ndandu que evoluiu para Luanda. O prefixo lu, é comum nos nomes de zonas do litoral, de bacias de rios ou de regiões alagadas (exemplos: Luena, Lucala, Lobito) e, neste caso, refere-se à existência de uma restinga rodeada pelo mar. Ndandu significa valor ou objecto de comércio e alude à exploração dos pequenos búzios colhidos na ilha de Luanda e que constituíam a moeda corrente no antigo Reino do Kongo e em grande parte da costa ocidental africana.
A primitiva povoação foi fundada a 25 de Janeiro de 1575 pelo capitão Paulo Dias de Novais que, ao desembarcar na Ilha do Cabo, encontrou uma população nativa bastante numerosa, tendo aí estabelecido o primeiro núcleo de colonos portugueses: cerca de 700 pessoas, onde se encontravam, religiosos, mercadores e funcionários, bem como 350homens de armas.
Um ano depois, reconhecendo não ser aquele lugar adequado, avançou para terra firme e fundou a vila de São Paulo da Assunção de Loanda, tendo lançado a primeira pedra para a edificação da igreja dedicada a São Sebastião, no lugar onde é hoje o Museu das Forças Armadas. Trinta anos mais tarde com o aumento da população europeia e do número de edificações, a vila de São Paulo da Assunção de Luanda tomou foros de cidade, estendendo-se de São Miguel ao largo fronteiro ao antigo Hospital Maria Pia (actual Josina Machel).
Em 1618, no período da União Ibérica, foi construída a Fortaleza de São Pedro da Barra. A cidade tornou-se no centro administrativo de Angola a partir de 1627. Em 1634 foi construída a Fortaleza de São Miguel de Luanda. A cidade foi conquistada e esteve sob o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais de 1641 a 1648 quando foi recuperada para a Coroa Portuguesa por uma expedição proveniente da Capitania do Rio de Janeiro, no Brasil, por Salvador Correia de Sá e Benevides.
É ainda de referir que de 1550 a 1850, Luanda foi um importante centro do tráfego de escravos para o Brasil.
Em 1889, o governador Brito Capelo inaugurou um aqueduto que forneceu a cidade de água potável, anteriormente escassa, abrindo caminho para o grande crescimento de Luanda. Em 1872 Luanda recebeu a designação de "Paris da África".
A partir de 1928, Luanda passa a ser mais utilizada como colónia penal. Nos primeiros anos do salazarismo, a população europeia da cidade era composta por condenados de delito comum e outros, utilizando uniformes de sarja azul escura com a inscrição D.D.A. em branco no peito e nas costas (Depósitos de Degredados de Angola era como se chamava às prisões e fortalezas de São Miguel e da Barra, onde permaneciam depositados os deportados e presos políticos, em Luanda).
Actualmente, Luanda é a maior e a mais densamente povoada cidade de Angola. Inicialmente projectada para uma população a rondar os 500 mil habitantes, é hoje uma cidade sobre-habitada. Aproveite e conheça Luanda através da apresentação que hoje lhe proponho.