segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Foz do Tejo, um país





O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.



É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.


Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.


É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

sábado, fevereiro 07, 2009

+ Lisboa é...












...uma cidade que tem várias oportunidades de emprego e de educação...Uma cidade com várias redes de transporte como o metro, o autocarro, o eléctrico e o comboio, sendo acessível para todas as pessoas…
Ana M. - 11º B
...uma cidade turística em certos sítios como a baixa lisboeta...O sítio onde todos os anos são feitas as marchas (desde a Avenida aos Restauradores) o que atrai muita gente…Uma cidade muito antiga e que se situa no estuário do Tejo.
Ana Isabel M. - 11º C

...Multicultural devido ao número de culturas aqui existente…Uma cidade muita bonita e com grande impacto no turismo...
Liliana - 11º C

...Uma cidade muito acolhedora porque abre as portas a imigrantes de todo o mundo...Uma cidade com corrupção porque existem roubos e tráfico de várias coisas como por exemplo, droga e armas.
Mikael P. - 11º C

...uma capital que tem muito para dar...A cidade onde aprendi várias coisas…uma cidade para onde vêem a maior parte dos imigrantes refazer a sua vida e em busca de melhores condições…A cidade onde o fado lhe dá importância.
Adelma R. - 11º C


...O centro de Portugal...Um pequeno mundo cheio de vida…Um lugar onde muitos navegadores se apaixonaram e foram à descoberta do mundo, à descoberta de novos horizontes…A minha cidade, o meu mundo, o sítio em que quero sonhar acordada.
Ana Rita F. - 11º C


Uma das grandes atracções urbanas de Portugal…Onde do Bairro Alto se pode ver toda a baixa pombalina lisboeta…Uma cidade em que ao longo da margem do Tejo temos vários sítios: Algés, Belém e outros até ao concelho de Oeiras.
Ariana B. - 11º B


...Uma cidade histórica e a mais importante do nosso país...Uma cidade que já se recompôs de um terrível terramoto que a arrasou quase por completo.
Ricardo S. - 11º C



...uma cidade cheia de história e com muitas antiguidades...uma cidade que tem muitas zonas muito degradadas com uma alta taxa de criminalidade e tráfico de várias coisas e, onde também há muita poluição.
André G. - 11º C


...uma cidade linda com lugares maravilhosos e antigos e com muitos pontos turísticos...
Jessica Desirêe P.- 11º C

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Maria Lisboa






É varina, usa chinela,
Tem movimentos de gata;
Na canastra, a caravela,
No coração, a fragata.




Em vez de corvos no chaile,
Gaivotas vem pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
Baila no baile com o mar.


É de conchas o vestido,
Tem algas na cabeleira,
E nas veias o latido
Do motor duma traineira.





Vende sonho e maresia,
Tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria,
Seu apelido: Lisboa.

David Mourão-Ferreira/ Alain Oulman

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Lisboa é...

A capital de Portugal conhecida no mundo inteiro, também pelos seus monumentos (Castelo de S. Jorge, Jerónimos, Torre de Belém, Padrão dos Descobrimentos) e museus... O foco das atenções...uma cidade portuguesa… …uma cidade perigosa…uma cidade bonita, fresca e harmoniosa…Das mais conhecidas e habitadas do nosso país. Mariza C. - 11º B


...uma das grandes cidades de Portugal…uma das cidades que recebe mais turistas...uma cidade com muitas festividades, acontecimentos e arraiais (principalmente no feriado de Santo António).
Sara P. 11º - C


...uma cidade que tem bairros, uns melhores do que outros...uma cidade que tem poucos espaços verdes e onde há sempre algum sítio que está em obras…uma cidade onde há sempre barulho de carros e de trânsito o que provoca stress nas pessoas…Uma cidade com sítios bonitos que podemos visitar e com muitos sítios de diversão de dia e de noite.
Susana C. 11º - B

...Um grande centro urbano que acolhe muitas pessoas...onde se localiza a Assembleia da República e o Palácio de Belém...uma cidade que tem muita história e isso pode-se comprovar pelos monumentos...Uma cidade que também tem uma parte muito moderna, cheia de centros comerciais e imensas lojas.
Ana Rita M. - 11º C
...uma cidade fascinante com muita coisa para descobrir…Uma cidade cheia de história, cheia de tradições…uma cidade onde cabe a parte histórica (com monumentos e ruas centenárias) e onde cabe a parte mais moderna (com prédios modernos, centros comerciais e lojas). Uma cidade onde se constrói mais e mais e…de uma forma desordenada estragando zonas lindíssimas…
Uma cidade cheia de contrastes: históricos, sociais, culturais, étnicos e religiosos…Lisboa é o espelho do mundo.
João P. - 11º B
...uma cidade encantadora e fascinante cheia de monumentos e paisagens...Uma cidade onde se encontra de tudo um pouco e onde há espaço para todos os gostos e culturas…Uma cidade com muitos bairros problemáticos mas, onde se encontram pessoas brilhantes e com muito carácter…
Ana Sofia R. - 11º C


Como um arco – íris, tem as cores mais alegres e também as escuras…...uma cidade onde existem pessoas de todo o tipo de cor e género...Uma cidade que muitos imigrantes escolhem como uma boa cidade para viver… Uma cidade onde as pessoas de origem africana são discriminadas…Uma cidade com muitas “tribos” juntas no mesmo território o que é bom para a convivência…Maytiga - 11º C

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Lisboa











Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde comeca a luz de Lisboa,
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,
nada mais quero de degrau em degrau.
Eugénio de Andrade

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Aqui viveram...


Júlio Castilho e Cesário Verde habitaram e faleceram no Lumiar.

Júlio Castilho filho de António Feliciano de Castilho, repartiu –se pelos campos do jornalismo, da poesia, da escrita em prosa literária, da política e da olisipografia. Neste campo deixou bastantes obras referentes ao Lumiar, algumas delas existem na biblioteca da nossa escola.


De poesia delicada, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a Cidade e o Campo, seus cenários predilectos.
É a partir de 1875 que produz alguns dos seus melhores poemas: Num Bairro Moderno (1877), Em Petiz (1878) e O Sentimento dum Ocidental (1880). Este último foi escrito por ocasião do terceiro centenário da morte de Camões e é, ainda hoje, um dos textos mais conhecidos do poeta, embora mal recebido pela crítica de então, numa incompreensão geral mesmo por parte de escritores da Geração de 70, de quem Cesário Verde esperaria aceitação para a sua poesia.
O Sentimento dum Ocidental, é um poema de Cesário em quatro momentos, em que ele deambula pela noite da cidade de Lisboa: I – Ave - Marias, II - Noite fechada, III - Ao gás, IV - Horas mortas.
A falta de estímulo da crítica e um certo mal-estar relativamente ao meio literário, fazem com que Cesário Verde deixe de publicar nos jornais mais conhecidos, surgindo apenas, em 1884, o poema Nós. O binómio cidade - campo surge como tema principal neste longo poema narrativo autobiográfico, onde o poeta evoca a morte de uma irmã (1872) e de um irmão (1882), ambos de tuberculose, doença que viria a vitimar igualmente o poeta, apesar das várias tentativas de convalescença numa quinta no Lumiar.
Andam todos distraídos, ninguém repara no caudal de poesia que produz. Só decénios depois, muitos, Fernando Pessoa (um simples empregado de escritório, um bêbedo, um doido que julga ser poeta) é que irá induzir o seu heterónimo Álvaro de Campos a bradar:
- Ó Cesário Verde, ó Mestre!

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Mais ...Lumiar é...



Uma freguesia onde só existem “peixeiros”, pessoas sem cultura, sem maneiras de conviver com outras.
Maytiga Semedo - 11º C

Um local de grandes acessos a nível turístico e do quotidiano…O local onde podemos encontrar o Museu do Traje e do Teatro… Um local engraçado.
Liliana Neto - 11º C

Uma freguesia pequena com espaços verdes, locais de estudo e fáceis acessos. Onde se tem tudo o que se deseja mas, com uma criminalidade excessivamente elevada.
Rui Furtado - 11º B



Uma freguesia com passado histórico e com muitos significados para mim: aos onze anos entrei para a Escola do Lumiar e conheci as melhores amigas e os melhores amigos de sempre, também foi aqui que tive professores fantásticos.
Uma freguesia onde me divirto imenso e que tem sítios lindos para vermos e conhecermos.
Muito significativo para mim.
Susana Henriques - 11º C

Uma pequena mas amigável freguesia com boas e más pessoas.
Mais conhecido pelo seu famoso jardim “Quinta das Conchas e Lilases” onde se pode passar um bom bocado em família ou até sozinho a praticar desporto.
Um local que se situa junto de Alvalade que é o local do estádio do Sporting.
É um local que na altura dos Santos Populares se pode ver nas marchas. Local com certas ruas antigas e com história.
Joana Mendes - 11º C

Uma freguesia da cidade de Lisboa, com várias classes sociais como na Quinta do Lambert ou na Alta de Lisboa (antiga Musgueira). Dois locais com distintas maneiras de viver…
Uma freguesia pacata onde se pode viver sem grandes problemas e onde se encontra um pouco de tudo (escolas, cafés, posto médico e centros comerciais).
Marta Melo - 11º C

Uma freguesia onde há recordações antigas, onde circulam muitos transportes por exemplo: Carris, Rodoviária e Metro. Um local onde há muito movimento, pois, há pontos muito importantes como por exemplo as diferentes escolas e trabalhos.
Alina Fortes - 11º C

quinta-feira, janeiro 22, 2009

O Meu Lumiar

Aqui vos deixo alguns mapas mentais do Lumiar elaborados pelos alunos das turmas B e C do 11º ano da ESL.

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terça-feira, janeiro 20, 2009

Lumiar é...


Onde está a nossa escola
…uma freguesia que tem um centro comercial, dois super mercados, dois mini mercados, três creches, algumas escolas primárias e secundárias.
Ana Rita M. - 11º C


Uma freguesia com bastante população…Habitado por população da classe alta.
Marisa C. - 11º B
Uma freguesia de Lisboa pouco populosa … Tem o Museu do Traje e o do Teatro.
Sara P. - 11º C
Uma zona muito fria e secante…Lá encontram-se muitos musgueirenses…
Onde se encontra a Escola Secundária do Lumiar que foi onde conheci muita gente que ao longo do tempo se tornaram amigos de grande importância…Uma freguesia antiga e importante… (é um lugar onde no seu) centro se encontra a Quinta das Conchas que é um parque que é um belo sítio onde muita coisa acontece.
Ana Sofia R. - 11º C
Uma freguesia com os seus problemas e algumas pessoas com mau carácter…Para mim é um ponto de encontro com os amigos…Um lugar de saber…Um bom sítio para tirar fotos.
Ana Rita F.- 11º C

A pior freguesia de Lisboa, pois, tem muitos musgueirenses sem classe e que adoram comprar roupa na FIG (Feira Internacional das Galinheiras)…
Uma freguesia que tem partes bonitas como a mata do Lumiar e o Centro Comercial do Lumiar.
Paula Cassola - 11º C
Uma freguesia do concelho de Lisboa onde recentemente chegou o metro…Uma freguesia com uma rua antiga e uma zona histórica constituída pela Igreja do Lumiar, cemitério e Museu do Trajo.
Ariana B. - 11º B

A freguesia do Lumiar, no Concelho de Lisboa e Distrito de Lisboa. O sítio onde se situa a minha Escola Secundária. Um local que tem também o Museu do Traje e o do Teatro. Um ponto de passagem de muitos autocarros.
Ana Isabel Martins - 11º C

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Lisboa sob névoa

Outra grande figura da cultura portuguesa cujo destino se cruzou com o Lumiar foi Fiama Hasse Pais Brandão. Polígrafa da cultura portuguesa dedicou-se à poesia, à ficção, ao teatro e à tradução.


Na névoa, a cidade, ébria
oscila, tomba.
Informes, as casas
perdem o lugar e o dia.
Cravadas no nada,
as paredes são menires,
pedras antigas vagas
sem princípio, sem fim.

Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas

segunda-feira, janeiro 12, 2009

No Lumiar

Ilustres personalidades viveram ou tiveram a sua vida de certo modo ligada ao Lumiar.
Almeida Garrett exímio escritor, jornalista, orador e dramaturgo, foi um deles. Amigo íntimo do Duque de Palmela, frequentou os jardins (Parque do Monteiro Mor) do actual Museu do Traje (Quinta Angeja/Palmela) e deles deixou uma bela descrição no poema No Lumiar, das Folhas Caídas.

No Lumiar
(...) Era um dia de Abril.
E nós íamos lentos passeando
De vergel em vergel, no descuidado
Sossego d’alma que se está lembrando
Das lutas do passado,
Das vagas incertezas do porvir.
E eu não cansava de admirar, de ouvir,
Porque era grande, um grande homem deveras
Aquele Duque – ali maior ainda,
Ali no seu Lumiar, entre as sinceras
Belezas desse parque, entre essas flores,
A qual mais bela e de mais longe vinda
Esmaltar de mil cores
Bosque, jardim, e as relvas tão mimosas,
Tão suaves ao pé – muito há cansado
De pisar alcatifas ambiciosas,
De tropeçar no perigoso estrado
Das vaidades da terra.(...)
Almeida Garrett, Folhas Caídas

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, dezembro 30, 2008

Virar de Página

A passos apressados,
Ou languidamente
Devagar…
Aproxima-se…

Não sei se será,
O final,
Ou o principio,
De tudo.

Mas a passos apressados,
Caminho para o final.

Ele aproxima-se,
Silenciosamente,
Mas faz-se anunciar.

E eu,
Todos nós,
O abraçamos,
Como amantes
Em actos de ternura.

Nada se sabe
Dele, se melhor
Ou pior…
Mas tenho esperança
Que dele venha
Algo de mudança.


Porque de tristeza,
Ele nos brindou
Porque sorrisos,
Ele nos deu
e nos roubou.

Que venha!

Traga alegria,
E risos, rasgados
De melhores dias.

Porque este ano, moribundo,
Que se fina,
Eu tenho recordação
De muitas tristezas
E de poucas alegrias.

Dez 2007
Augusto P. Gil

segunda-feira, dezembro 29, 2008

IRREDENTA ESPERANÇA

escondo-me no saco dos brinquedos:
ainda aí guardo esperanças e segredos
fechados a sete chaves.
deles por enquanto nada direi
- quero-os irredentos
puros (sagrados)
como serão os corpos nos noivados
e são as mulheres que eu amei.
escondo-me mas não deserto. Fico
à espreita na tocaia a que me dedico
sempre à espera de novidades.
sei que virá o tempo
de abrir o saco
e sacar lá de dentro outro pacto
com a chuva com o sol e com o vento.

eu sei: virá o tempo. e então direi
quanto esteve sufocado e conservei
com força de medrar e viço
e alma. direi o chão
da aventura
regada pela viva água da ternura
onde por nossas mãos brotará o pão.

eu sei: virá o tempo

Nuno Rebocho
15 Dezembro 2008

domingo, dezembro 28, 2008

No novo ano que aí vem

Recomeça…

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga

sábado, dezembro 27, 2008

Poemas de Dezembro

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano –
é vôo de um pássaro
é uma canção.
(Dezembro de 1968)

Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.
(Dezembro de 1973)

Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo
(Dezembro de 1981)


Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.
(Dezembro de 1985)
Carlos Drummond de Andrade

sábado, dezembro 20, 2008

Falavam-me de Amor

Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas

solstício de mel pelas escadas

de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas

e em sua etern
idade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.


Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias

e eras um sol na sombra flagelado.


O fel que por nós bebes te liberta

e no manso natal que te conserta

só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia O Dilúvio e a Pomba Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979