terça-feira, fevereiro 09, 2016

Marafonas e Matrafonas


A palavra "marafona" (nom. fem.) é um regionalismo que significa "boneca de trapos" (sem olhos, ouvidos, boca e nariz, constituída por uma cruz de madeira revestida de tecido colorido que lhe serve de traje); ou "mona"; (fig.) "mulher ordinária"; (regionalismo pejorativo) mulher considerada desajeitada, mal vestida ou mal cuidada", "mulher mal arranjada"; (em calão, pejorativo) "prostituta"; (outro regionalismo) "figurante masculino vestido de mulher, no Carnaval de Torres Vedras".

Esta palavra tem a variante "matrafona", mais próxima da etimologia, que contém a ideia de "mãe" (matr...) e a aproxima da "matrioska" russa. O facto de ter uma raiz "matr..." indica que a palavra é de origem indoeuropeia, não necessariamente latina. O conteúdo semântico que, por desgaste, escorrega para o tom pejorativo, indica a antiguidade da palavra.

As marafonas estão associadas ao culto da fertilidade, ao Entrudo ou à religião, em algumas regiões do nosso país.
A marafona ou matrafona (Alentejo) é uma boneca de trapos, sem olhos, nem boca, nariz ou ouvidos, vestida com um colorido traje regional. A sua armação é uma cruz de madeira revestida a tecido.
A procissão das marafonas (que eram as moças que levavam os açafates), ou do pão bento, tinha lugar em Guimarães, na igreja de Sta Clara.

Marafona - Monsanto
Em Monsanto, segundo reza a lenda, quando a aldeia estava cercada pelos mouros alguns dos seus habitantes decidiram fazer umas bonecas e pô-las a dançar nas ameias do castelo, dando a ideia de que estavam bem e felizes. Os mouros, ao ver as bonecas, decidiram levantar o cerco.

As bonecas de Monsanto, são utilizadas para celebrar a fertilidade, e a felicidade conjugal. As marafonas fazem parte da tradição de Monsanto na Festa das Cruzes, celebrada no dia 3 de Maio se for domingo, caso contrário, no domingo seguinte.

Durante a festa, as raparigas casadoiras bailam com as marafonas. Depois da festa as bonecas são deixadas em cima da cama onde têm o poder de livrar a casa das tempestades de trovoada, e de maus olhados. No dia do casamento guardam-se debaixo da cama (como não têm olhos nem orelhas nem boca, nada vêem, nada ouvem nem nada podem contar) para trazer fertilidade e felicidade ao casal.

A marafona faz parte da tradição na localidade de Podence,, no concelho de Macedo de Cavaleiros, mais propriamente na festa dos Caretos de Podence, onde a marafona é, também, uma rapariga mascarada que anda com a cara escondida por baixo de uma renda e leva um lenço à cabeça. Estas marafonas são os únicos seres que os caretos respeitam nas suas brincadeiras.

O Carnaval de Torres Vedras é das poucas festividades de carnaval que se mantêm fiéis às tradições da comemoração do Entrudo em Portugal.
Um carnaval que conta, na celebração destes dias de festa, com a participação espontânea de milhares de cidadãos.
As matrafonas (homens vestidos de mulher) desfilam no Carnaval de Torres Vedras, participando no Desfile das Matrafonas ou passeando nos espaços livres entre os carros alegóricos. O seu aspeto caricato diverte o público que muitas vezes exclama: "aquele é mesmo uma grande matrafona"!

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

A Gastronomia e o Entrudo

O Entrudo ou Carnaval é festejado nos três dias que antecedem a Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas e se prolonga até à Páscoa.
A gastronomia portuguesa relacionada com o entrudo é rica e variada seguindo o velho ditado: "No Entrudo come-se de tudo". Mas, nesta época festiva o porco é que é o rei.

O que nos contam os textos históricos relativamente ao Entrudomostra que o que se encontra em lugar de destaque nas mesas portuguesas são duas iguarias, a carne de porco e as filhós.
Em tempos recuados a época do Entrudo começava no Dia de Reis, a 6 de Janeiro. A partir de então, os domingos eram assinalados por festas já carnavalescas e com grandes comezainas. Daí que fossem conhecidos por Domingos Gordos. E assim ssim nasceram as feijoadas de Carnaval.

As melhores são as do Norte de Portugal, com destaque para as transmontanas, enriquecidas com o fumeiro da região. Em algumas regiões de Trás-os-Montes fazem -se as Casulas com Butelo.
Na Beira Litoral, faz-se uma feijoada com orelheira, a que se juntam muitos nabos (4 para 1 orelha) e a respectiva rama, tenrinha.
Nas Minas da Panasqueira, há uma feijoada temperada com massa de pimentão, e na qual, do porco, só se usam os pezinhos.
No Porto, fazem-se grandes feijoadas e diga-se que as tripas não seriam o que são, se lhes faltasse a saborosa leguminosa. Falta acrescentar que os açorianos juntam à feijoada ramos de funcho. Na Madeira, entre outras iguarias,  muito procurados são o cuscuz de fabrico caseiro, a sopa de trigo, e a carne de vinha-d’alhos.

Manda a tradição que a feijoada seja sempre acompanhada por arroz, e há uma explicação para o facto: o cereal melhora a qualidade das respectivas proteínas. No Norte, em princípio, o arroz é de forno, devendo ser servido no recipiente em que foi cozinhado.
Carnaval Tradicional - S. Brás de Alportel (Algarve)

O feijão chegou à Europa Ocidental em 1528 e os historiadores atribuem o feito ao Papa Clemente VII que, tendo recebido das Índias Ocidentais umas estranhas sementes em forma de rim, ordenou a um frade, Piero Valeriano, que as semeasse.


Por agora deixo-lhe uma receita de Filhós Estendidas  à moda do Alentejo (Évora) retiradas do livro: "Festas e Comeres do Povo Português" (Editorial Verbo).

Ingredientes:
1,5 kg de farinha
1 dl de azeite
1 colher de chá (bem cheia) de sal
1/2 dl de aguardente branca
sumo de 3 laranjas grandes
7 a 8 ovos
100 grs de manteiga
azeite para fritar
açúcar e canela para polvilhar

Confecção:
Peneira-se a farinha para um alguidar e escalda-se com o azeite a ferver. Depois com as mãos misturam-se o melhor possível estes dois ingredientes desfazendo os caroços que se formaram. Faz-se uma cova no meio da farinha e deitam-se aí 1 dl de água tépida onde se desfez o sal, a aguardente, o sumo das laranjas e 3 ovos.
Começa então a amassar-se juntando os ovos à medida que a massa os vai obsorvendo. Quando se considerar que a massa está pronta, isto é, quando a massa estiver elástica e não se pegar ao alguidar, junta-se a manteiga e mistura-se bem. Tapa-se a massa com um pano e deixa-se repousar durante 2 horas, pelo o menos.
Depois, com o rolo e o mínimo de farinha estendem-se as filhós e cortam-se em rectângulos ou circunferências com a ajuda de uma carretilha. No centro de cada filhó dão-se 4 golpes que não deverão atingir os bordos da massa. À medida que se vão estendendo e cortando, colocam-se as filhós sobre um pano ligeiramente empoado de farinha, ou melhor, para evitar que as filhós sequem, devem, na medida do possível, ir-se fritando em azeite bem quente.
Há diversas maneiras de pegar nas filhós para as fritar no azeite. A mais corrente consiste em introduzir os dedos nas tiras formadas pelos golpes. Assim: passam-se os dedos da mão direita na 1.ª e 3.ª tiras deixando cair a 2.ª e a 4.ª que serão amparadas com a mão esquerda.
Depois de fritas e louras, escorrem-se as filhós sobre papel absorvente. Polvilham-se com o açúcar e canela ou passam-se por uma calda de mel como se faz no caso das filhós da Beira Baixa.

* No Alentejo, nomeadamente em Évora, é costume fazer estas filhós na Quinta-Feira das Comadres em quantidade suficiente para os três dias do Carnaval. Ainda não há muitos anos, os amigos e os vizinhos mascaravam-se e visitavam-se uns aos outros para comerem as Filhós e outros fritos, acompanhados de Licores caseiros ou de Vinho Fino (Vinho do Porto).

Sugiro-lhe que veja um vídeo (TV Barroso) que nos mostra um outro tipo de Filhós. São as Filhoses de Entrudo de Montalegre que continuam a ser tradição na Região d3 Barroso.

domingo, fevereiro 07, 2016

O Entrudo: Pitões das Júnias


Pitões das Júnias
é uma das mais tradicionais e pitorescas aldeias portuguesas.
Situa-se no Parque Nacional da Peneda-Gerês, no concelho de Montalegre.
A elevada altitude da sede de freguesia (1103 m) torna-a uma das mais altas aldeias de Portugal, a par de Gralheira na Serra de Montemuro.

A 1200 metros de altitude, com as fragas e picos do Gerês a poente e noroeste, e o planalto da Mourela a nascente e nordeste, Pitões das Júnias é uma das aldeias mais visitadas do concelho de Montalegre.
Além da fauna e da flora riquíssima, oferece outros pretextos para um passeio, concentrados no percurso pedestre de quatro quilómetros - percorridos em cerca de 1h30 - entre o cemitério e o centro da aldeia.
É uma aldeia interessantíssima e que vale a pena visitar porque, entre outras coisas, tem conseguido manter o aspecto medieval e as construções em pedra.

A sua origem confunde-se com a do Mosteiro de Santa Maria das Júnias, localizado num vale isolado, consagrado à Senhora das Unhas que acabou por se tornar Senhora das Júnias.
O ano de 1147 será a data provável da fundação do mosteiro das Júnias, como atesta a data gravada no muro da igreja. Sabe-se que a incorporação na importante Ordem de Cister ocorreu no séc. XIII, sendo este o estabelecimento cisterciense mais isolado que se tem conhecimento.
Pitões das Júnias perpetua tradições que não se encontram em mais nenhum local. Uma das tradições que mantém é a do Entrudo, com os seus Caretos e Farrapões.

No fim de semana e durante quatro dias, Pitões das Júnias promove, um Entrudo à moda antiga.
Uma aldeia tipicamente portuguesa que mantém preservado um legado etnográfico e gastronómico muito próprio.

Se puder vá até lá e participe no Entrudo, veja os seus Caretos e Farrapões e prove a Sopa d'Unto, os enchidos, o pão cozido a lenha e o Cozido Transmontano.

Não perca estas imagens da TV Barroso que contam o Entrudo de Pitões das Júnias. Com uma ressalva: Não são ainda as deste ano,  referem-se a um tempo em que a não existência de "tolerância de ponto" na 3º feira de de Carnaval roubou muita gente às festividades do país todo. Este ano não é assim.
Portanto... é só pensar em rumar a Pitões das Júnias!

sábado, fevereiro 06, 2016

Crazy

Oiça Diana Krall, Willie Nelson e Elvis Costello em "Crazy".
Diana  Krall (1964) é uma popular cantora e pianista de jazz de origem canadiana.
Willie Nelson (1933) é um cantor e compositor de música country, escritor, ator, poeta e ativista americano. Foi considerado o 77º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone.
Elvis Costello, nome artístico de Declan Patrick Aloysius MacManus (1954) é um cantor, compositor e músico britânico. Fez parte do cenário pub rock britânico de meados dos anos 70, e mais tarde esteve associado aos estilos de punk rock e new wave antes de se estabilizar como uma voz única e original nos anos 80. O seu alcance musical é impressionantemente amplo.
Oiça-os, então, no inesquecível tema de Patsie Cline "Crazy".

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Teatro da boneca

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.

Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas da todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda parte.
A boneca encha a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.

A boneca.
Carlos Queirós

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

A Lancheira

A "Lancheira" é um filme indiano que mistura drama e gastronomia de forma inusitada.
A primeira longa-metragem do indiano Ritesh Batra narra-nos uma história de amor a partir de um propósito algo documental – a observação do curioso trabalho dos "dabbawallahs".
Os "dabbawalas" da cidade de Bombaim, Índia, são uma comunidade de 5000 homens que diariamente transporta em bicicletas centenas de marmitas, das casas aos locais de trabalho, na labiríntica paisagem urbana Bombaim.
É uma profissão hereditária, com mais de um século de existência, transmitida de pais para filhos, que assegura diariamente aos maridos trabalhadores a degustação de refeições quentes e caseiras confeccionadas pelas esposas.  Os  "dabbawalas" regressam mais tarde com as lancheiras vazias para as devolver às respectivas casas.
A entrega das lancheiras ou marmitas é feita por analfabetos que usam um complexo sistema de código, com cores e símbolos, para as entregar aos seus devidos donos. Um estudo da Universidade de Harvard, nos EUA, demonstrou que apenas uma em cada quatro milhões de lancheiras é extraviada e entregue na morada errada.
Esta história alicerça-se, por isso, nesse engano improvável. Mas, o filme oferece, em primeiro lugar, um detalhado retrato de Bombaim e do seu estilo de vida, do papel subjugado da mulher naquela sociedade, da confusão dos transportes decrépitos e sobrelotados, da pobreza dos habitantes, das ruas caóticas e barulhentas por onde diariamente circulam os dabba no seu ofício.
Sinopse:
Saajan (Irrfan Khan) é um contabilista viúvo e muito solitário que todos os dias se esforça para iniciar os seus dias. Ila (Nimrat Kaur), por seu lado, é uma jovem mulher desprezada que deseja reconquistar o marido e que, com amor e dedicação, lhe cozinha os pratos mais saborosos, certa que ele a voltará a amar. Certo dia, devido a um fatídico erro de troca de lancheiras, Saajan recebe a refeição que Ila cuidadosamente preparou para o marido. Quando ela percebe o sucedido, escreve-lhe um bilhete a pedir desculpa. Ele responde, agradecido. Dá-se assim início a uma troca de bilhetes e confissões de parte a parte que se vai desenvolvendo em algo cada vez mais profundo.
Este filme (2013), sobre a mágoa e a esperança numa vida melhor, escrito e realizado pelo estreante Ritesh Batra, foi apresentado na Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes.
Se quiser ver o filme basta clicar aqui, entretanto veja o que a Euronews (a Euronews, a rede de notícias internacionais de maior audiência na Europa) tem a dizer sobre "A Lancheira"

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Ganchas de S. Brás

O dia 3 de fevereiro é dedicado a São Brás. Aqui lhe deixo mais uma receita da gastronomia tradicional portuguesa, associada a uma lenda religiosa.
Em Vila Real manda a tradição que os rapazes ofereçam, neste dia, a gancha às raparigas. Mas elas ficam em dívida. A 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, terão de dar-lhes o pito. Uma tradição que começou por ser religiosa e que com o tempo ganhou cariz popular.
Esta tradição repete-se ano após ano e não dispensa uma boa dose de brejeirice.
A gancha é um doce típico de Vila Real em forma de bengala, inspirado no báculo de São Brás, que foi bispo, e é feito com açúcar e água.
São Brás (264 - 316) foi um mártir, bispo e santo católico que viveu entre o séculos III e IV na Arménia. São Brás, é o padroeiro das doenças da garganta.
Reza a lenda que "Uma criança estava engasgada com uma espinha na garganta e não havia maneira de lha tirarem. Então, São Brás usou uma espécie de gancha feita de açúcar e meteu-lha na boca. A criança colaborou porque a gancha era doce e conseguiu tirar-lhe a espinha. A partir daí ficou a tradição da gancha".
Não se sabe quando começou a tradição das Ganchas de S. Brás em Vila Real, no entanto, se passar por lá hoje há-de verificar que esta tradição ainda se mantém. Agora aqui vai a receita.
Ingredientes:
Açúcar
Água
Limão q.b. (opcional)
Preparação:
Deitam-se todos os ingredientes num tacho que se leva ao lume para se obter o ponto de rebuçado.
Deita-se o preparado num tabuleiro untado com manteiga e deixa-se arrefecer um pouquinho.
Com as mãos forma-se então uma gancha. Depois decore-as com papéis coloridos.
Entretanto, confira no vídeo abaixo, como é que se fabricam, em Vila Real, as Ganchas de S. Brás.