quarta-feira, Abril 23, 2014

A Morte Saiu à Rua

José Dias Coelho (1923 — 1961) foi um artista plástico, militante político anti-fascista e dirigente do PCP.
Em 1955, José Dias Coelho, entra para a clandestinidade, ao mesmo tempo que exercia funções no PCP. Foi assassinado pela PIDE  em 1961, na rua que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa.
O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música "A Morte Saiu à Rua". O mesmo fez o grupo Trovante com a música " À Flor da Vida".
Com uma intensa actividade social e intelectual a par da política, travou e manteve amizade com várias figuras destacadas da sociedade portuguesa de então, tais como os arquitectos Keil do Amaral e João Abel Manta, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Abel Manta, Rogério Ribeiro, João Hogan, bem como aqueles que viriam dentro em breve a liderar os movimentos de independência na África, na altura estudantes em Lisboa: Agostinho Neto, Vasco Cabral, Marcelino dos Santos, Amílcar Cabral e Orlando Costa.

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

terça-feira, Abril 22, 2014

Visado Pela Censura

Hoje proponho-lhe que veja dois documentos que fazem parte da história da censura no nosso país, durante a ditadura salazarista.
No passado dia 29 de Março, fez 40 anos que se realizou um encontro de música portuguesa no Coliseu dos Recreios onde - ao que consta pela primeira vez - a canção "Grândola Vila Morena" foi cantada em público.
No primeiro documento o Presidente da Casa da Imprensa, solicita ao Secretário de Estado da Informação, o levantamento do embargo relativamente à participação dos artistas José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, no referido espectáculo.
O segundo documento diz respeito ao decorrer do Encontro de Música Portuguesa. O regime vigente fez deslocar para o local, fiscais da Direcção Geral dos Espectáculos (DGE), que elaboraram um relatório circunstanciado.  É um documento notável que merece ser lido, porque caracteriza bem o ambiente da sala e a época que se vivia em Portugal, tanto mais que se estava a poucos dias do 25 de Abril, data da Revolução dos Cravos. Acresce que este documento é preciso, conciso, revelando profissionalismo perspicaz, competente e um evidente bom senso e humor.
Foi há 40 anos. Vale a pena ler estes documentos até ao fim, para isso basta clicar aqui e  aqui
São autênticas preciosidades que interessam, não só aos portugueses, mas também aos Angolanos, porque um dos artistas que deveria participar no referido encontro de música, era o Rui Mingas!

segunda-feira, Abril 21, 2014

A Trova do Vento Que Passa

A "Trova do Vento Que Passa ", é uma balada (de 1963) de António Portugal e Manuel Alegre, do disco "Fados de Coimbra", cantada por Adriano Correia de Oliveira.
Adriano Correia de Oliveira (1942 — 1982) foi um músico português, um intérprete do fado de Coimbra e um cantor de intervenção. Data de 1963 o seu primeiro EP, "Fados de Coimbra", no qual foi acompanhado por António Portugal e Rui Pato. Este álbum continha a interpretação de "Trova do Vento Que Passa", poema de Manuel Alegre, que se transformou numa espécie de hino da resistência dos estudantes à ditatura.
Em 1967 gravou o álbum "Adriano Correia de Oliveira", que, entre outras canções, tinha "Canção Com Lágrimas". Em 1970 troca Coimbra por Lisboa, exercendo funções no Gabinete de Imprensa da Feira Industrial de Lisboa, até 1974. Ainda em 1969 vê editado o álbum "O Canto e as Armas", revelando, de novo, vários poemas de Manuel Alegre.
Lança "Cantaremos", em 1970, e "Gente d' aqui e de agora", em 1971, este último com o arranjo de José Calvário e a composição de José Niza. Em 1973 lança o disco "Fados de Coimbra".
Participa na fundação da Cooperativa Cantabril, logo após a Revolução dos Cravos e edita, em 1975, "Que Nunca Mais", onde se inclui o tema "Tejo Que Levas as Águas". A revista inglesa Music Week elege-o Artista do Ano. Em 1980 lança o seu último álbum, "Cantigas Portuguesas".
Em 1982, vítima de uma hemorragia esofágica, morreu nos braços da sua mãe.
Em 1983 foi feito comendador da Ordem da Liberdade e em Abril de 1994 foi feito Grab«nde -Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em ambos os casos a título póstumo.
Fique em então com a "Trova do Vento que Passa" na voz de Adriano Correia de Oliveira.

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
Música: António Portugal  

domingo, Abril 20, 2014

O Mistério dos Ovos de Páscoa & O Coelhinho da Páscoa

Para celebrar o Domingo de Páscoa o post de hoje é dedicado às crianças. Daí que tenha escolhido três pequenos filmes de animação alusivos a esta data. O primeiro chama-se o Mistério dos Ovos de Páscoa. Nele, Maria e Miguel entram no mundo mágico da StoryBox para conhecer o verdadeiro Coelho da Páscoa. Contudo, quando chegam à floresta encantada apercebem-se que a fábrica dos ovos de chocolate está fechada porque alguém a assaltou.
Veja esta história fantástica e descubra se nesta Páscoa vão existir ou não, ovos de chocolate.
 
E agora, o segundo filme sobre o Coelhinho da Páscoa.
E ainda o último filme alusivo a esta quadra.

sábado, Abril 19, 2014

As Queimas de Judas

Num grande número de localidades do nosso país (sobretudo no norte e centro), no sábado de Aleluia (o dia anterior à Páscoa), realiza-se a Queima (ou Malhação) de Judas.
Um boneco de tamanho humano, feito de palha, jornais, etc... é passeado pelas ruas, enforcado, e finalmente queimado.
Oficialmente, a "Queima de Judas" simbolisa a morte de Judas Iscariote. Mas, alguns factos (o verdadeiro Judas não foi queimado por exemplo) mostram que não é esse o seu primeiro significado. Em toda a Europa existem festas idênticas, no mesmo período (que coincide mais ou menos com o princípio da Primavera), mas com figuras simbólicas diferentes:  o Inverno, o Velho, o Lutero, a Bruxa, etc...
A passagem do Inverno para a Primavera, da noite para o dia, era celebrada pelos povos primitivos com sacrificios diversos. Estas cerimónias antigas foram absorvidas e depuradas pelo cristianismo.
A actual Queima do Judas é o que resta, provavelmente, destas antigas cerimónias.
Meses antes do sábado de aleluia era escolhida a vítima que deveria ser queimada como Judas. Mas, antes da sua queima, fazia-se a leitura de um testamento, a encenação da sua condenação e por fim terminava-se, então, a cerimónia desta espécie de julgamento, com o estouro do Judas
Estes rituais não pretendiam amesquinhar quem quer que fosse, serviam antes de mais, numa certa atitude pedagógica, refrear comportamentos demasiado exigentes, sobretudo, no exercicio de funções de interesse publico.
A Malhação de Judas ou Queima de Judas é ainda uma tradição vigente em diversas comunidades católicas na América Latina, tradição que aí foi introduzida pelos espanhóis e pelos portugueses.
Cada país realiza estes rituais de maneira diferente, alguns queimam os bonecos em frente a cemitérios ou perto de igrejas. No Brasil é comum enfeitar o boneco com máscaras ou placas com o nome de políticos, técnicos de futebol ou mesmo personalidades que não são bem aceitas pelo povo.
Em Constatim (Vila Real) todos os anos na Páscoa se realiza a "Queima do Judas". Veja, agora, o que foi esta festa popular em 2011, através do vídeo que se segue.

sexta-feira, Abril 18, 2014

A Passagem do Nordeste & David Melgueiro

Jornal Público-Árctico: as Passagens do Nordeste e do Noroeste
A Passagem do Nordeste é uma rota marítima ao longo da costa norte da Europa e Ásia , sobretudo da costa árctica da Rússia, entre o Oceano Atlântico e o oceano Pacífico. A distância de São Petersburgo até Vladivostok pelo Mar do Norte é 14280 km, enquanto pelo Canal de Suez é de 23200 km e pelo cabo da Boa Esperança é de 29400 km.
Ainda no séc XV, começaram e ser feitos estudos para encontrar um novo caminho marítimo para a Índia e a China. Muitos dos estudos procuravam uma Passagem do Noroeste (pelo Norte do Canadá). Contudo, navegadores Ingleses, Holandeses e Russos procuravam uma Passagem do Nordeste navegando ao longo da costa ártica da Rússia.
Há quem defenda que foi David Melgueiro (falecido no Porto em 1673 ),  um navegador e explorador português, que, ao serviço da marinha holandesa, terá sido o responsável pela primeira travessia da Passagem do Nordeste (levada a cabo entre 1660 e 1662), no sentido Oriente-Ocidente, ligando o Japão a Portugal.
Mais de 350 anos depois, um projecto ambicioso pretende seguir o rasto, entre 2016 e 2017, dessa viagem lendária, que inclui a construção de um veleiro de raiz destinado ao serviço da comunidade científica.
A ideia é de José Mesquita, antigo comandante da marinha mercante e de pesca, que para tal acaba de criar a Associação David Melgueiro, em Peniche.
Se quiser ficar a conhecer melhor este lendário navegador português e este arrojado projecto basta clicar aqui, para aceder a uma notícia do jornal Público: "David Melgueiro: Na rota da lendária viagem do navegador português pelo Árctico".



quinta-feira, Abril 17, 2014

Tourada

Veja Fernando Tordo repetindo a canção "Tourada" no final do Festival RTP 1973, com a qual se classificou em 1º lugar com 115 pontos.
A canção tem uma letra que foi claramente entendida em Portugal como uma metáfora em que se comparava a tourada ao decrépito regime ditatorial do Estado Novo. A canção é uma crítica à sociedade portuguesa daquele tempo.
A música e a interprtação é de Fernando Tordo e a letra é de José Carlos Ary dos Santos.

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.
José Carlos ARY dos SANTOS.