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quinta-feira, novembro 01, 2018

Hoje é dia de todos os santos

«Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores (porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação»
Maria de Lourdes Belchior

quarta-feira, outubro 31, 2018

Caça às Bruxas

 "Caça às Bruxas" é o mais recente livro do escritor angolano Albino Carlos.
Jornalista há 34 anos, Albino Carlos recebeu em 2014 o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, com o livro de contos "Issunje". O escritor publicou o romance "Olhar de Lua Cheia", que recebeu o Prémio de Literatura António Jacinto em 2006.
O livro é considerado pela crítica como "um dos mais intrigantes romances da literatura angolana".

Sinopse.
Este é "seguramente um dos romances mais brutais e intrigantes da literatura angolana, baseado num caso real". O livro narra o fuzilamento sumário de sete feiticeiros no Cuito Cuanavale, no célebre caso "kamutukulenu".
Caça às Bruxas traça, umas vezes com olhar melancólico e conformado, outras vezes amargo e revoltado, uma fascinante e inquietante fabulação da natureza do sistema de crenças e costumes que ensombram o destino do angolano.
Revestido de humor, o livro é uma narrativa de intensidade incomum que faz, com realismo e magia, o cruzamento de elementos da mitologia tradicional com a própria história, numa insólita paródia das "makas" e das quezílias políticas.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Lisboa - O Que o Turista Deve Ver

Lisboa - O Que o Turista Deve Ver é um livro de Fernando Pessoa.
Sinopse:
Fernando Pessoa revela, neste livro de 1925, um texto que, ao contrário da maior parte dos seus inéditos, estava completo, dactilografado e pronto para ser publicado.Trata-se de um guia de Lisboa, o Universo fundamental de Pessoa a que chama o seu «lar», escrito em inglês, propositadamente turístico, despojado de retórica, onde se percorre todo o património importante da cidade, seja ele arquitectónico, intelectual ou de puro lazer.
Este guia de Lisboa que Fernando Pessoa nos deixou, é uma carta de amor à sua cidade.

quarta-feira, outubro 24, 2018

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis, é um livro do Prémio Nobel de Literatura de 1998, José Saramago, que é uma obra recomendada para o 12.º ano de escolaridade.
Sinopse:
Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de dezembro de 1935. Fica até setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E um movimento inverso, logo a começar: «Aqui onde o mar se acaba e a terra principia»; o virar ao contrário o verso de Camões: «Onde a terra acaba e o mar começa.» Em Camões, o movimento é da terra para o mar; no livro de Saramago temos Ricardo Reis a regressar a Portugal por mar. É substituído o movimento épico da partida. Mais uma vez, a história na escrita de Saramago. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.

terça-feira, outubro 23, 2018

O Cão Sem Plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
João Cabral de Melo Neto

domingo, outubro 14, 2018

Jura

Pelas rugas da fronte que medita...
Pelo olhar que interroga — e não vê nada...
Pela miséria e pela mão gelada
Que apaga a estrela que nossa alma fita...

Pelo estertor da chama que crepita
No último arranco duma luz minguada...
Pelo grito feroz da abandonada
Que um momento de amante fez maldita...

Por quanto há de fatal, por quanto há misto
De sombra e de pavor sob uma lousa...
Oh pomba meiga, pomba da esperança!

Eu te juro, menina, tenho visto
Coisas terríveis — mas jamais vi coisa
Mais feroz do que um riso de criança!
Antero de Quental

terça-feira, outubro 09, 2018

As Saloias na Poesia Popular


As saloias são cantadas na poesia popular. A quadra, abaixo,  recolhida na aldeia da Rapa (Celorico da Beira) desenha nitidamente dois perfis: o etnográfico, da saloia; o moral do poeta.

Quem me dera em Lisboa,
Á porta de uma taberna,
P’ra ver passar a saloia
Com a saia a meia perna.

A seguir, a referência ao traje da saloia (folclore lisbonense dos arredores, ou da região mais próxima de Lisboa).

Sou saloia, trago botas,
E também trago mantéu,
Também trago carapuça
Debaixo do meu chapéu.

Sou saloia, trago botas,
Também trago o meu manteu
Também tiro a carapuça
A quem me tira o chapeu.

Agora mais três quadras acerca das saloias.

Sou saloia, vendo queijos,
Também vendo requeijão,
Também falo ao meu amor,
Quando tenho ocasião. (!)

Lavadeira, que lava a roupa,
Ela lava a roupa boa;
Ela lava, lava a roupa,
O sabão vem de Lisboa.

Ó saloia, dá-me um beijo,
Que eu te darei um vintém,
Os beijos de uma saloia
São caros, mas sabem bem.

sexta-feira, outubro 05, 2018

De amor nada mais resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, em "Poesia completa - Natália Correia". 

quarta-feira, outubro 03, 2018

O Estranho Caso do Botão de Punho

O Estranho Caso do Botão de Punho é um livro de António Enes Marques
António Enes Marques (1955), é licenciado em Economia e já publicou três romances, A Vida em 3D (2010), O Monte da Lua (em 20139, e O Latido do Doutor Adam (2016).

Sinopse:
"O suor escorria-lhe em bica pela testa, pelo rosto, em grossas gotículas. A camisa molhada pegava-se-lhe ao corpo. As mãos trementes, húmidas, peganhentas, mal conseguiam segurar o volante. As pernas alquebradas tremiam como varas verdes como se fossem abanadas por forte ventania. Verificou num relance através do espelho retrovisor que o corpo do presumível e infando assassino se mantinha imóvel.
Em O Estranho Caso do Botão de Punho, revela-se a história de Pedro, lançado no desemprego em plena crise financeira, e que, por causa de Olga e do seu ex-marido, se vê envolvido nas teias de uma inaudita e melindrosa situação, que ensombra o seu devir.
Numa narrativa escorreita e empolgante, ao melhor estilo do romance policial, em que se conjugam e se sobrepõem o mistério com a realidade, o leitor é confrontado com a dúvida permanente sobre a autoria de um terrível crime, cujos indícios tanto podem incriminar como absolver, o ou os, potenciais suspeitos".

quinta-feira, setembro 27, 2018

Essa Dama Bate Bué!

Essa Dama Bate Bué! é um livro da escritora angolana Yara Monteiro (1979).
Yara Monteiro tem as suas raízes familiares no Planalto Central de Angola e no Norte de Portugal. Com dois anos de idade, vem com a mãe e a família materna para Portugal e cresce na Margem Sul. É na adolescência, que estimulada pela sua professora de Português, começa ativamente a escrever.
Em 2015, enquanto vive no Brasil inicia a sua busca de conexão interior e em 2016 embarca numa viagem xamânica pela Amazónia que modifica a sua vida.
Hoje está casada, vive no Alentejo, e dedica-se à escrita e às artes plásticas.
Sinopse:
Entre a sátira e a tragédia, o abandono e a ruptura, esta é uma história de autodescoberta. Um romance contemporâneo, urbano e feminino, passado numa Luanda do começo do século XXI, caótica, de flagrantes contrastes sociais, aguarela em que tragédia e comédia roçam ombros.

sábado, setembro 15, 2018

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes no volante,
Galga sob mim comigo, o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo
sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
Álvaro de Campos, em Poesia

sábado, setembro 08, 2018

8 de Setembro

Hoje, este dia foi uma taça cheia,
hoje, este dia foi a onda imensa,
hoje, foi a terra inteira.

Hoje, o mar tempestuoso
ergueu-nos num beijo
tão alto que estremecemos
ao clarão de um relâmpago
e, unidos, descemos
para mergulharmos enlaçados.

Hoje os nossos corpos dilataram-se,
cresceram até ao extremo do mundo
e rolaram fundidos
numa só gota
de cera ou meteoro.

Entre mim e ti abriu-se uma nova porta
e alguém, sem rosto ainda,
esperava-nos ali.
Pablo Neruda -  "Os Versos do Capitão"

sexta-feira, setembro 07, 2018

Os Provocadores de Naufrágios

Os Provocadores de Naufrágios é o segundo livro de João Nuno Azambuja (1974). João Azambuja é licenciado em História e Ciências Sociais. Participou, por sua iniciativa, em diversas explorações arqueológicas pelo país ao longo de vários anos. Militou, mais tarde, nas tropas paraquedistas como comandante de pelotão, após um breve período como professor de História. Regressado à vida civil, dedicou-se à escrita e fundou, em Braga, um bar de inspiração celta, onde se realizaram concertos memoráveis das melhores bandas ibéricas desse género musical. O seu primeiro romance, Era Uma Vez Um Homem, ganhou o Prémio Literário UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) em 2016.

Sinopse:
Baseada em factos reais, esta é a história de Klaus Kittel, um alemão portuense que combateu na Segunda Guerra Mundial. Um homem mergulhado numa época de pesadelo, de guerra, morte e ditaduras. Uma Europa destroçada, de onde surge uma história improvável, mas verdadeira, feita de viagens e fintas ao destino. Kittel foi sempre perseguido pela crueldade humana. Em criança, expulsaram-no de Portugal. Em adulto, viveu os bombardeamentos aliados e fugiu ao Exército Vermelho. Passou pela grande depressão, assistiu à ascensão de Hitler e discursou para a elite do Partido Nazi. Depois da guerra, é preso. Sobrevive aos campos de prisioneiros, onde milhares de homens encontraram a morte. Mas consegue fugir, com o que talvez seja uma misteriosa ajuda de Álvaro Cunhal. Foi escravo, soldado, marido. Um romance escrito pela pena de uma das mais promissoras vozes das Letras portuguesas, vencedora do Prémio Literário UCCLA, sobre a qual disse o poeta Fernando Pinto do Amaral ser «capaz de exprimir um intenso sentido de revolta em face do mundo contemporâneo» …

sexta-feira, julho 27, 2018

Poemas aos Homens do nosso tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

***********

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.
Hilda Hilst

sábado, julho 14, 2018

Dança do Vento

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
Afonso Lopes Vieira - Antologia Poética

terça-feira, julho 10, 2018

Nasceu julho

Nasceu julho
Esperanças
Águas de chuva
Lavando a alma
e trazendo bonança.

Dias de vitória
Dias de honra
Estação mudou
E a vida teima em girar.

Nasceu julho
Nasce aqui novo amar.
Renovam-se as promessas
Pelos sonhos que se sonhou

Há contentamento
Há realização
Doce é ver chegar o que se tanto esperou.

Nasce julho
E com ele bons tempos sobre nós virão
Renasce a esperança

Vivifica-se a cada manhã
Sonhos que sonhados sozinhos
No coração de Deus se formarão

Em breve a água lava
A chuva serôdia cai fazendo brotar a semente
Nasceu Julho
e os dias de sol brilharão novamente!
Paula Belmino

domingo, julho 01, 2018

Liberdade querida, e suspirada

Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Manuel Maria de Barbosa du Bocage

sexta-feira, junho 29, 2018

São Pedro

Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.

Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro —
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.

Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.  (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Na porta do céu

Bati. São Pedro zangado
Perguntou: Quem bate aí?
É a alma de um desgraçado,
São Pedro. lhe respondi.

Pensas então que esta casa
Seja da sogra, não é?
Mas São Pedro... E, ardendo em brasa,
Eu mal me sustinha em pé.

Não quero conversa. Todos
Que vem ao céu, são assim:
Prantos, lamúrias, engodos,
Mas não me enganam a mim.

Sempre a mesma cantilena:
Mas São Pedro...Vovô...
Minha culpa foi pequena...
Mas.. na onda eu cá não vou.

Aqui só faço justiça!
Mas, vamos ao que convém:
Quando em vida ias à missa?
Se fui, não lembro bem...

Imperdoável! Contudo,
Sem louvor aos modos teus,
Achando-se Deus em tudo,
Em tudo se adora a Deus.

E ao te deitares, a prece
Fazias com devoção?
É possível que o fizesse,
Mas, não me recordo, não.

Mau, e sobre a carne e o vinho,
Que me dizes, pecador?
" Dei à carne o meu carinho,
Dei ao vinho o meu amor!"

Que vida infame! E a virtude,
Jamais a viste sequer?
"Amei-a mais que pude
Porque a virtude é mulher!

Mulheres... Ó bem querido
S. Pedro - Júlia Ramalho
Que no céu ainda me faz
Ter pena de ter morrido...
Cala a boca, Satanás!

E tens tu o atrevimento
De vir assim me falar?
Ah. Já te espera o tormento
No inferno, que é teu lugar...

Afinal, alma indiscreta,
Sem temor, sem fé, sem lei
Que foste em vida?" Eu? Poeta...
Que lindas coisas cantei!

Que? Poeta? E a porta abrindo
Fez São Pedro um escarcéu:
Poeta?! Mas sê bem vindo!
Teu lugar é aqui no céu..."
Edmond Rostant - Trad. Belmiro Braga