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quinta-feira, novembro 01, 2018

Hoje é dia de todos os santos

«Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores (porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação»
Maria de Lourdes Belchior

terça-feira, outubro 23, 2018

O Cão Sem Plumas

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
João Cabral de Melo Neto

domingo, outubro 14, 2018

Jura

Pelas rugas da fronte que medita...
Pelo olhar que interroga — e não vê nada...
Pela miséria e pela mão gelada
Que apaga a estrela que nossa alma fita...

Pelo estertor da chama que crepita
No último arranco duma luz minguada...
Pelo grito feroz da abandonada
Que um momento de amante fez maldita...

Por quanto há de fatal, por quanto há misto
De sombra e de pavor sob uma lousa...
Oh pomba meiga, pomba da esperança!

Eu te juro, menina, tenho visto
Coisas terríveis — mas jamais vi coisa
Mais feroz do que um riso de criança!
Antero de Quental

terça-feira, outubro 09, 2018

As Saloias na Poesia Popular


As saloias são cantadas na poesia popular. A quadra, abaixo,  recolhida na aldeia da Rapa (Celorico da Beira) desenha nitidamente dois perfis: o etnográfico, da saloia; o moral do poeta.

Quem me dera em Lisboa,
Á porta de uma taberna,
P’ra ver passar a saloia
Com a saia a meia perna.

A seguir, a referência ao traje da saloia (folclore lisbonense dos arredores, ou da região mais próxima de Lisboa).

Sou saloia, trago botas,
E também trago mantéu,
Também trago carapuça
Debaixo do meu chapéu.

Sou saloia, trago botas,
Também trago o meu manteu
Também tiro a carapuça
A quem me tira o chapeu.

Agora mais três quadras acerca das saloias.

Sou saloia, vendo queijos,
Também vendo requeijão,
Também falo ao meu amor,
Quando tenho ocasião. (!)

Lavadeira, que lava a roupa,
Ela lava a roupa boa;
Ela lava, lava a roupa,
O sabão vem de Lisboa.

Ó saloia, dá-me um beijo,
Que eu te darei um vintém,
Os beijos de uma saloia
São caros, mas sabem bem.

sexta-feira, outubro 05, 2018

De amor nada mais resta que um Outubro

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, em "Poesia completa - Natália Correia". 

sábado, setembro 15, 2018

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes no volante,
Galga sob mim comigo, o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero…
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo
sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
Álvaro de Campos, em Poesia

sábado, setembro 08, 2018

8 de Setembro

Hoje, este dia foi uma taça cheia,
hoje, este dia foi a onda imensa,
hoje, foi a terra inteira.

Hoje, o mar tempestuoso
ergueu-nos num beijo
tão alto que estremecemos
ao clarão de um relâmpago
e, unidos, descemos
para mergulharmos enlaçados.

Hoje os nossos corpos dilataram-se,
cresceram até ao extremo do mundo
e rolaram fundidos
numa só gota
de cera ou meteoro.

Entre mim e ti abriu-se uma nova porta
e alguém, sem rosto ainda,
esperava-nos ali.
Pablo Neruda -  "Os Versos do Capitão"

sexta-feira, julho 27, 2018

Poemas aos Homens do nosso tempo

Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.

***********

Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.
Hilda Hilst

sábado, julho 14, 2018

Dança do Vento

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
Afonso Lopes Vieira - Antologia Poética

terça-feira, julho 10, 2018

Nasceu julho

Nasceu julho
Esperanças
Águas de chuva
Lavando a alma
e trazendo bonança.

Dias de vitória
Dias de honra
Estação mudou
E a vida teima em girar.

Nasceu julho
Nasce aqui novo amar.
Renovam-se as promessas
Pelos sonhos que se sonhou

Há contentamento
Há realização
Doce é ver chegar o que se tanto esperou.

Nasce julho
E com ele bons tempos sobre nós virão
Renasce a esperança

Vivifica-se a cada manhã
Sonhos que sonhados sozinhos
No coração de Deus se formarão

Em breve a água lava
A chuva serôdia cai fazendo brotar a semente
Nasceu Julho
e os dias de sol brilharão novamente!
Paula Belmino

segunda-feira, julho 02, 2018

Aos Portugais

Proponho-lhe que oiça Mariene de Castro (contralto) em " Aos Portugais".
Mariene de Castro (1978 - também conhecida como a Princesinha do Samba de Roda) é uma atriz, modelo, instrumentista, bailarina, cantora e compositora brasileira.
Tem-se feito notar (desde 1997) por destacar o maracatu e o samba de roda na sua sua obra.
Cantou na festa de encerramento das Olimpíadas do RIO 2016, enquanto era apagada a chama da pira olímpica.
Mariene de Castro tem como influências: Edil Pacheco, Zeca Pagodinho, Clara Nunes, Roque Ferreira, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Roberto Ribeiro e Dona Ivone Lara.
Fique também com a poética letra da música Aos Portugais de Roberto Mendes.

Menina onde andas
Menina onde vais
Eu ando em Luanda
Eu vou aos Portugais
Saveiro não me leva
Trem que nunca chega
Avião que vira nuvem
Nuvem que vira chuva
Chuva que molha a terra
Terra que vira uva
Uva vai virar bom vinho
Não quero beber sozinho
Menina onde andas
Menina onde vais
Eu ando em Luanda
Eu vou aos Portugais
Vê você, olha pra mim
No espelho da distância
A saudade não te alcança
Por isso penso sozinho
Ai o vinho cor de Rubi
É de uva machucada
Espremida dentro de mim
Como é louca a madrugada
Menina onde andas
Menina onde vai
Eu ando em Luanda
Eu vou aos Portugais
O destino fez a taça
Derramou dentro da alma
Desejei, comprei passagem
Viajei outra viagem
De um destino que não fiz
Aonde vou ninguém me diz
Sobrevoando a paisagem
Vi o fogo na floresta
E não sei nem o que resta
Que queima dentro de mim
Pra cantar caninha verde
Primeiro canta violeiro
Depois que violeiro canta
Cantam os outros companheiros
Ai ai morena primeiro canta violeiro
Depois que violeiro canta
Cantam os outros companheiros

domingo, julho 01, 2018

Liberdade querida, e suspirada

Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Manuel Maria de Barbosa du Bocage

sexta-feira, junho 29, 2018

São Pedro

Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.

Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro —
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.

Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.  (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Na porta do céu

Bati. São Pedro zangado
Perguntou: Quem bate aí?
É a alma de um desgraçado,
São Pedro. lhe respondi.

Pensas então que esta casa
Seja da sogra, não é?
Mas São Pedro... E, ardendo em brasa,
Eu mal me sustinha em pé.

Não quero conversa. Todos
Que vem ao céu, são assim:
Prantos, lamúrias, engodos,
Mas não me enganam a mim.

Sempre a mesma cantilena:
Mas São Pedro...Vovô...
Minha culpa foi pequena...
Mas.. na onda eu cá não vou.

Aqui só faço justiça!
Mas, vamos ao que convém:
Quando em vida ias à missa?
Se fui, não lembro bem...

Imperdoável! Contudo,
Sem louvor aos modos teus,
Achando-se Deus em tudo,
Em tudo se adora a Deus.

E ao te deitares, a prece
Fazias com devoção?
É possível que o fizesse,
Mas, não me recordo, não.

Mau, e sobre a carne e o vinho,
Que me dizes, pecador?
" Dei à carne o meu carinho,
Dei ao vinho o meu amor!"

Que vida infame! E a virtude,
Jamais a viste sequer?
"Amei-a mais que pude
Porque a virtude é mulher!

Mulheres... Ó bem querido
S. Pedro - Júlia Ramalho
Que no céu ainda me faz
Ter pena de ter morrido...
Cala a boca, Satanás!

E tens tu o atrevimento
De vir assim me falar?
Ah. Já te espera o tormento
No inferno, que é teu lugar...

Afinal, alma indiscreta,
Sem temor, sem fé, sem lei
Que foste em vida?" Eu? Poeta...
Que lindas coisas cantei!

Que? Poeta? E a porta abrindo
Fez São Pedro um escarcéu:
Poeta?! Mas sê bem vindo!
Teu lugar é aqui no céu..."
Edmond Rostant - Trad. Belmiro Braga

domingo, junho 24, 2018

E Viva São joão

O São João do meu nordeste
melhor São João do Brasil
em trajes de cores mil
o nosso povo se veste
sob o belo azul celeste
é junho, mês de alegria
fogueiras, fogos, folia
Antônio, João, Pedro santos
juninos, festas, encantos
herança da liturgia
Sempre o melhor do Brasil
também o melhor do mundo
fiz um estudo fecundo
vi nosso povo gentil
brincar. Adulto, infantil:
em festa. Então comparei
e vi. O nordeste é o rei
do São João. É sem igual
da Rússia até Portugal
e Américas. Confirmei.
É Santo Antônio o primeiro
é treze, lembre, o seu dia!
Solteira faz simpatia
pro santo casamenteiro
se quer arranjar parceiro!
Em vinte e quatro, o São João
- eis a maior atração! -
O São Pedro é vinte e nove
se nunca viu, venha e prove
e se vem… dance o baião!
Com os seus chapéus de palha
camisas quadriculadas
com as calças remendadas
quem pode já se agasalha
pois bom namoro não falha!
Vestidas de chita, vêm
chapéus de palha também
se enfeitam bem as mulheres
o charme excede de ampères
não fica triste ninguém!

Viva o São João, viva a festa
com toda nossa alegria
forró que amanhece o dia
o coco se manifesta
baião que o recinto infesta
tem o samba de latada
xaxado, festa animada
é para ouvir ou dançar
melhor à luz do luar
o amado com a sua amada!
Eu vou dançar a “Quadrilha”
que é o melhor do São João
ao som de um acordeão
vem “Olha a cobra”, “olha a trilha”
eu olho um olho que brilha
“troca a dama”, “anarriê”
tem “tur” e tem “returnê”
tem o casório matuto
com seu ritual poluto
agora é só “balançê”
Esse é o tempo da colheita
de milho verde há fartura
que é a essência da feitura
para um manjar que deleita
canjica sempre bem feita
pamonha da boa tem
pé de moleque, xerém
o bolo Souza Leão
tem “Pê-É” na certidão!
Dá pra listar mais de cem!
Tem a broa de fubá
o bolo de amendoim
batata doce, quindim
arroz doce, mungunzá
cuscuz, coco, vatapá
cocada e tem bom-bocado
tapioca, queijo assado
pipoca e bolo de milho
paçoca, doces, sequilho
coalhada, mel, bem-casado
Mais de dois mil anos faz
em vinte e quatro de junho
escritos são testemunho
as duas primas carnais
a que deu a luz em paz
a João Batista: Isabel
manda a notícia à fiel
amiga. Pela fogueira
acesa. Foi a maneira:
o fogo brilhou no céu!
A mãe – Maria – de Cristo
e a mãe de João, Isabel
assim inspiram novel
costume alegre e benquisto
agora (e sempre) por isto
fogueira expõe tradição
nas festas de um bom São João
em todo o nosso nordeste
pra que o povo manifeste
seu júbilo e animação
Bahia e Maranhão
cercando o nordeste em peso
com seu alto astral aceso
para as festas do São João
cantores da região
e bandas no Centro Histórico
alegre de Salvador
que faz seu show alegórico
quadrilhas, tudo em primor
feliz nosso mês folclórico!
O bumba-meu-boi, zebu
em São Luiz, popular
folguedo, povo a brincar!
Sergipe, Forró-Caju
é festa em Aracaju
tem busca-pé em Estância.
No São João em abundância
do Vale do Jaguaribe
quando o Ceará exibe
quadrilhas com elegância!
Ao ar livre em Mossoró
no São João se comemora
a pisa – à bala – sonora
dada em Lampião sem dó
e por isso haja forró!
As festas em Alagoas
são calmas, com belas loas!
E no Piauí, São João
com fé para a oração
felizes vão as pessoas!
Campina Grande junina
maior São João deste Mundo
primeiro é – ou segundo
com vinte metros acima
a enorme fogueira anima!
Trem do Forró tem também
de pífanos, bandas tem
balões, fogos, maravilhas
mais de trezentas quadrilhas
Campina, São João, amém!
Caruaru, tradição
maior do planeta Terra
diz-se o primeiro, não erra
vá lá dançar o baião
Caruaru no São João
eis a pátria do forró
Caruaru, tem xodó
mais de mil bacamarteiros
e trios de forrozeiros.
Monarca, Rei, Faraó!
Cardápio à base de milho
música boa, forró
o turismo à pão-de-ló
o nosso São João é brilho
com “Trem do Forró” no trilho
não há festa sem você!
Paixão: – quem ouve, quem lê -
Cordel, a literatura!
São João é beleza pura!
“Olha o túnel”! “balancê”!!!
João Alderney

sexta-feira, junho 22, 2018

Junho: Mês de São João

Mês de junho é só de festa
De forró, xote e xaxado
De pamonha e milho assado
De culinária que presta
Porém a gente detesta
Quando ouve pancadão
Arrocha, axé, pagodão
Trio elétrico e carnaval
Nesse mês especial
Deixe junho pro São João.

Festa junina arretada
Tem que ter bom sanfoneiro
Trianguista e zabumbeiro
Num palco ou numa latada
Só não pode ter zoada
De cantor de palavrão
Letras de baixo calão
Gritaria e berra- berra
Nesse mês só pé-de- serra
Deixe junho pro São João.


Se eu pudesse não tocava
A música de Tiaguinho
Também Zeca Pagodinho
Psirico não cantava
O som que a gente escutava
Era só xote e baião
Tocado por Gonzagão
Zé Calixto e Abdias
E durante os trinta dias
Junho era pro São João

Se eu pudesse decretava
O mês inteiro junino
Só o forró genuíno
Em toda rádio tocava
O “Safadão” não cantava
A “Novinha vai no Chão”
Nem eu via a multidão
Entoando a “Muriçoca”
“Pica ,pica, soca, soca”
Não tocava no São João

Ninguem ouviria Ivete
Nem banda de fuleragem
Não havia tietagem
Pra Bel Marques ou Chiclete
Teria muita tiete
Entoando uma canção
Que falasse de Sertão
De seca, chuva e neblina
E aqui em Petrolina
Junho era só São João.
Paulo Robério

quinta-feira, junho 21, 2018

No Entardecer dos Dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original, E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...
Alberto Caeiro (Heterónimo de Fernando Pessoa) - O Guardador de Rebanhos - Poema XLI 

quarta-feira, junho 13, 2018

Santo António

 Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.
Tens uma aureola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e anciosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?
Que de hoje em deante quem o diz se digne
Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.


Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instincto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro titulo de gloria,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido taes quando aqui andámos,
Bons, justos, naturaes em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que ha na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm belleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retraio, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vae alta a lua
Num plácido e legitimo recorte,
Atira risos naturaes à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António—
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
Fernando Pessoa - Os Santos Populares

terça-feira, junho 12, 2018

Este Junho...

Este Junho, mês tão quente
é sinónimo de folia,
é do povo, é da gente,
trinta dias de alegria.

Dias treze, vinte e quatro
e, por fim, a vinte e nove,
três noitadas de aparato,
três dias de corre-corre.

Santo António é o primeiro
a trazer a gente à rua,
santinho casamenteiro,
juntou o Sol e a Lua.
Quadras Populares (Lusofonia)


domingo, junho 10, 2018

Portugal


Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o
Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver
se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os
pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder
espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
estava no poder nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
emigraram nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os
Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente
nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.