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quinta-feira, novembro 01, 2018

Hoje é dia de todos os santos

«Hoje é dia de todos os santos: dos que têm auréola
e dos que não foram canonizados.
Dia de todos os santos: daqueles que viveram, serenos
e brandos, sem darem nas vistas e que no fim
dos tempos hão de seguir o Cordeiro.
Hoje é dia de todos os Santos: santos barbeiros e
santos cozinheiros, jogadores de football e porque
não? comerciantes, mercadores, caldeireiros e arrumadores (porque não arrumadoras? se até
é mais frequente que sejam elas a encaminhar o espectador?)
Ao longo dos séculos, no silêncio da noite e à
claridade do dia foram tuas testemunhas; disseram sim/sim e não/não; gastaram palavras,
poucas, em rodeios, divagações. Foram teus
imitadores e na transparência dos seus gestos a
Tua imagem se divisava. Empreendedores e bravos
ou tímidos e mansos, traziam-te no coração,
Olharam o mundo com amor e os
homens como irmãos.
Do chão que pisavam
rebentava a esperança de um futuro de justiça e de salvação
e o seu presente era já quase só amor.
Cortejo inumerável de homens e mulheres que Te
seguiram e contigo conviveram, de modo admirável:
com os que tinham fome partilharam o seu pão
olharam compadecidos as dores do
mundo e sofreram perseguição por causa da Justiça
Foram limpos de coração e por isso
dos seus olhos jorrou pureza e dos seus lábios
brotaram palavras de consolação.
Amaram-Te e amaram o mundo.
Cantaram os teus louvores e a beleza da Criação.
E choraram as dores dos que desesperam.
Tiveram gestos de indignação e palavras proféticas
que rasgavam horizontes límpidos.
Estes são os que seguem o Cordeiro
porque te conheceram e reconheceram e de ti receberam
o dom de anunciar ao mundo a justiça e a salvação»
Maria de Lourdes Belchior

sexta-feira, junho 29, 2018

São Pedro

Tu, que Diabo?, és velho.
És o único dos três que traz velhice
Às festas. Tuas barbas brancas
Têm contudo um ar terno
A que o teu duro olhar não dá razão.
Parece que com essas barbas brancas
Por um fenómeno de imitação
Pretendes ter um ar de Padre Eterno.

Carcereiro do céu, isso é o que és.
Basta ver o tamanho dessas chaves —
As que Roma cruzou no seu brasão.
Segundo aquele passo do Evangelho
Do «Tu és Pedro» etcetera (tu sabes),
Que é, afinal uma fraude
Meu velho, uma interpolação.

Carcereiro do céu, que chaves essas!
Nem dão vontade de ser bom na terra,
Se, segundo evangélicas promessas
Vamos parar, ao fim, a um céu claustral.
Isso — fecharem-me — não quero eu,
Nem com Deus e o que é seu
Que o estar fechado faz-me mal
Até na beatitude do teu céu,
Entre os santos do paraíso,
(A liberdade — Deus dá a Deus —
Um Deus que não sei se é o teu),
O estar fechado, aqui ou ali, dizia eu
Faz-me terríveis cócegas no juízo.

Enfim, que direi eu de ti, amigo,
Que não seja uma coisa morta,
Anti-popular, gongórica,
Por fruste deselegante,
Como de quem, sem saber nada, exausto,
Começo por duvidar bastante,
Desculpa-me chaveiro antigo,
De que tivesses existência histórica.

Mas isso, é claro, não importa
Se nos trazes
A alegria da singeleza
Ou a bondade que não sabe ter tristeza.
O pior é que nada disso fazes.
O teu semblante é duro e cru
E as barbas que roubaste ao Deus que tens
Só arrancam aos dandies teus loquazes
Ditos de dandies cínicos desdéns.
Que diabo, és uma série de ninguéns.
O Santo são as chaves, e não tu.

Para uns és S. Pedro, o grão porteiro,
Para outros as barbas já citadas,
Para uns o tal fatídico chaveiro
Que fecha à chave as almas sublimadas.
Para uns tu fundaste a Roma do Papado
(Andavas bêbado ou enganado
Ou esqueceste
O teu posto quando o fizeste)
E para outros enfim, como é o povo
E segundo as ideias que ele faz,
És quem lhe não vem dar nada de novo —
Umas barbas com S. Pedro lá por traz.

É difícil tratar-te em verso ou prosa,
Tudo em ti, salvo as barbas, é incerto,
Tudo teu, salvo as chaves, não tem ser
E a alma mais humilde é clamorosa
De qualquer coisa que se possa ver,
Em sonho até, qual se estivesse perto.

Olha, eu confesso
Que nunca escreveria
Este vago poema, em que me apresso
Só para me ver livre do teu nada,
Se não fosse para dar um cunho
A este livro da trilogia
(Santo António, S. João, S. Pedro —
De popular, que bem que soa!)

Mas porque diabo de intuição errada
É que vieste parar a Junho
E a Lisboa?

Isto aqui ainda tem
Um sorriso que lhe fica bem,
Que até, até
No teu dia,
(Ó estupor velho
Como um chavelho,)

Nas ruas
O povo anda com alegria,
É fé,
Não em ti nem nas barbas tuas
Mas no que a alegria é.

Olha, acabei.
Que mais dizer-te, não sei.
Espera lá, olha
Roma, fingindo que viceja,
Lentamente se desfolha.
Teu último gesto seja
Um gesto volvente e mudo.
Se tens poder milagroso,
Se essas chaves abrem tudo,
Deixa esse céu lastimoso.
Deixa de vez esse céu,
Desce até à humanidade
E abre-lhe, enfim no mudo gesto teu,
As portas do Inferno, e da Verdade.
Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro.  (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. 

quinta-feira, junho 28, 2018

Na porta do céu

Bati. São Pedro zangado
Perguntou: Quem bate aí?
É a alma de um desgraçado,
São Pedro. lhe respondi.

Pensas então que esta casa
Seja da sogra, não é?
Mas São Pedro... E, ardendo em brasa,
Eu mal me sustinha em pé.

Não quero conversa. Todos
Que vem ao céu, são assim:
Prantos, lamúrias, engodos,
Mas não me enganam a mim.

Sempre a mesma cantilena:
Mas São Pedro...Vovô...
Minha culpa foi pequena...
Mas.. na onda eu cá não vou.

Aqui só faço justiça!
Mas, vamos ao que convém:
Quando em vida ias à missa?
Se fui, não lembro bem...

Imperdoável! Contudo,
Sem louvor aos modos teus,
Achando-se Deus em tudo,
Em tudo se adora a Deus.

E ao te deitares, a prece
Fazias com devoção?
É possível que o fizesse,
Mas, não me recordo, não.

Mau, e sobre a carne e o vinho,
Que me dizes, pecador?
" Dei à carne o meu carinho,
Dei ao vinho o meu amor!"

Que vida infame! E a virtude,
Jamais a viste sequer?
"Amei-a mais que pude
Porque a virtude é mulher!

Mulheres... Ó bem querido
S. Pedro - Júlia Ramalho
Que no céu ainda me faz
Ter pena de ter morrido...
Cala a boca, Satanás!

E tens tu o atrevimento
De vir assim me falar?
Ah. Já te espera o tormento
No inferno, que é teu lugar...

Afinal, alma indiscreta,
Sem temor, sem fé, sem lei
Que foste em vida?" Eu? Poeta...
Que lindas coisas cantei!

Que? Poeta? E a porta abrindo
Fez São Pedro um escarcéu:
Poeta?! Mas sê bem vindo!
Teu lugar é aqui no céu..."
Edmond Rostant - Trad. Belmiro Braga

domingo, junho 24, 2018

E Viva São joão

O São João do meu nordeste
melhor São João do Brasil
em trajes de cores mil
o nosso povo se veste
sob o belo azul celeste
é junho, mês de alegria
fogueiras, fogos, folia
Antônio, João, Pedro santos
juninos, festas, encantos
herança da liturgia
Sempre o melhor do Brasil
também o melhor do mundo
fiz um estudo fecundo
vi nosso povo gentil
brincar. Adulto, infantil:
em festa. Então comparei
e vi. O nordeste é o rei
do São João. É sem igual
da Rússia até Portugal
e Américas. Confirmei.
É Santo Antônio o primeiro
é treze, lembre, o seu dia!
Solteira faz simpatia
pro santo casamenteiro
se quer arranjar parceiro!
Em vinte e quatro, o São João
- eis a maior atração! -
O São Pedro é vinte e nove
se nunca viu, venha e prove
e se vem… dance o baião!
Com os seus chapéus de palha
camisas quadriculadas
com as calças remendadas
quem pode já se agasalha
pois bom namoro não falha!
Vestidas de chita, vêm
chapéus de palha também
se enfeitam bem as mulheres
o charme excede de ampères
não fica triste ninguém!

Viva o São João, viva a festa
com toda nossa alegria
forró que amanhece o dia
o coco se manifesta
baião que o recinto infesta
tem o samba de latada
xaxado, festa animada
é para ouvir ou dançar
melhor à luz do luar
o amado com a sua amada!
Eu vou dançar a “Quadrilha”
que é o melhor do São João
ao som de um acordeão
vem “Olha a cobra”, “olha a trilha”
eu olho um olho que brilha
“troca a dama”, “anarriê”
tem “tur” e tem “returnê”
tem o casório matuto
com seu ritual poluto
agora é só “balançê”
Esse é o tempo da colheita
de milho verde há fartura
que é a essência da feitura
para um manjar que deleita
canjica sempre bem feita
pamonha da boa tem
pé de moleque, xerém
o bolo Souza Leão
tem “Pê-É” na certidão!
Dá pra listar mais de cem!
Tem a broa de fubá
o bolo de amendoim
batata doce, quindim
arroz doce, mungunzá
cuscuz, coco, vatapá
cocada e tem bom-bocado
tapioca, queijo assado
pipoca e bolo de milho
paçoca, doces, sequilho
coalhada, mel, bem-casado
Mais de dois mil anos faz
em vinte e quatro de junho
escritos são testemunho
as duas primas carnais
a que deu a luz em paz
a João Batista: Isabel
manda a notícia à fiel
amiga. Pela fogueira
acesa. Foi a maneira:
o fogo brilhou no céu!
A mãe – Maria – de Cristo
e a mãe de João, Isabel
assim inspiram novel
costume alegre e benquisto
agora (e sempre) por isto
fogueira expõe tradição
nas festas de um bom São João
em todo o nosso nordeste
pra que o povo manifeste
seu júbilo e animação
Bahia e Maranhão
cercando o nordeste em peso
com seu alto astral aceso
para as festas do São João
cantores da região
e bandas no Centro Histórico
alegre de Salvador
que faz seu show alegórico
quadrilhas, tudo em primor
feliz nosso mês folclórico!
O bumba-meu-boi, zebu
em São Luiz, popular
folguedo, povo a brincar!
Sergipe, Forró-Caju
é festa em Aracaju
tem busca-pé em Estância.
No São João em abundância
do Vale do Jaguaribe
quando o Ceará exibe
quadrilhas com elegância!
Ao ar livre em Mossoró
no São João se comemora
a pisa – à bala – sonora
dada em Lampião sem dó
e por isso haja forró!
As festas em Alagoas
são calmas, com belas loas!
E no Piauí, São João
com fé para a oração
felizes vão as pessoas!
Campina Grande junina
maior São João deste Mundo
primeiro é – ou segundo
com vinte metros acima
a enorme fogueira anima!
Trem do Forró tem também
de pífanos, bandas tem
balões, fogos, maravilhas
mais de trezentas quadrilhas
Campina, São João, amém!
Caruaru, tradição
maior do planeta Terra
diz-se o primeiro, não erra
vá lá dançar o baião
Caruaru no São João
eis a pátria do forró
Caruaru, tem xodó
mais de mil bacamarteiros
e trios de forrozeiros.
Monarca, Rei, Faraó!
Cardápio à base de milho
música boa, forró
o turismo à pão-de-ló
o nosso São João é brilho
com “Trem do Forró” no trilho
não há festa sem você!
Paixão: – quem ouve, quem lê -
Cordel, a literatura!
São João é beleza pura!
“Olha o túnel”! “balancê”!!!
João Alderney

sábado, junho 23, 2018

sexta-feira, junho 22, 2018

Junho: Mês de São João

Mês de junho é só de festa
De forró, xote e xaxado
De pamonha e milho assado
De culinária que presta
Porém a gente detesta
Quando ouve pancadão
Arrocha, axé, pagodão
Trio elétrico e carnaval
Nesse mês especial
Deixe junho pro São João.

Festa junina arretada
Tem que ter bom sanfoneiro
Trianguista e zabumbeiro
Num palco ou numa latada
Só não pode ter zoada
De cantor de palavrão
Letras de baixo calão
Gritaria e berra- berra
Nesse mês só pé-de- serra
Deixe junho pro São João.


Se eu pudesse não tocava
A música de Tiaguinho
Também Zeca Pagodinho
Psirico não cantava
O som que a gente escutava
Era só xote e baião
Tocado por Gonzagão
Zé Calixto e Abdias
E durante os trinta dias
Junho era pro São João

Se eu pudesse decretava
O mês inteiro junino
Só o forró genuíno
Em toda rádio tocava
O “Safadão” não cantava
A “Novinha vai no Chão”
Nem eu via a multidão
Entoando a “Muriçoca”
“Pica ,pica, soca, soca”
Não tocava no São João

Ninguem ouviria Ivete
Nem banda de fuleragem
Não havia tietagem
Pra Bel Marques ou Chiclete
Teria muita tiete
Entoando uma canção
Que falasse de Sertão
De seca, chuva e neblina
E aqui em Petrolina
Junho era só São João.
Paulo Robério

quarta-feira, junho 13, 2018

Santo António

 Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Catholico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.
Tens uma aureola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e anciosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?
Que de hoje em deante quem o diz se digne
Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.


Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instincto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro titulo de gloria,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido taes quando aqui andámos,
Bons, justos, naturaes em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que ha na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm belleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retraio, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vae alta a lua
Num plácido e legitimo recorte,
Atira risos naturaes à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António—
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
Fernando Pessoa - Os Santos Populares

domingo, junho 10, 2018

Portugal


Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o
Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino
nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver
se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar
uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os
pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder
espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
estava no poder nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
emigraram nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os
Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente
nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca.

sábado, junho 09, 2018

Portugal, Tão Diferente de seu Ser Primeiro

 Os reinos e os impérios poderosos,
Que em grandeza no mundo mais cresceram,
Ou por valor de esforço floresceram,
Ou por varões nas letras espantosos.

Teve Grécia Temístocles; famosos,
Os Cipiões a Roma engrandeceram;
Doze Pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosos.

Ao nosso Portugal, que agora vemos
Tão diferente de seu ser primeiro,
Os vossos deram honra e liberdade.

E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
Do Braganção estado, há mil extremos
Iguais ao sangue e mores que a idade.
Luís Vaz de Camões - "Sonetos"

terça-feira, junho 05, 2018

O Dia da Sobrecarga da Terra

O que é o Dia da Sobrecarga da Terra?
Imagine que já tinha feito, para o ano inteiro, todas as suas compras de supermercado e hoje, 5 de junho, tudo já tivesse acabado.
Esta analogia serve para explicar o que está a acontecer com os recursos naturais da Terra. Já usámos nestes últimos meses, toda a água, a energia, os minerais e vegetais que o planeta tem capacidade para produzir e utilizar num período de 365 dias. Ou seja, neste período de tempo, já ultrapassámos o nosso orçamento de recursos naturais disponível e agora estamos no vermelho!

Assim, com o nosso ritmo atual de consumo e estilo de vida, precisaríamos ter 1,7 planetas para atender às nossas necessidades.
Analisando, também, as pegadas de carbono dos países separadamente, verificamos que a Austrália é o país que aparece em pior lugar no ranking, necessitando de 5,2 planetas por ano. Logo em seguida, estão os Estados Unidos, com 5 e o Brasil na 13ª posição, precisando de 1,8 planetas.

domingo, maio 06, 2018

Mãe

A Noite dos Pobres - Diego Rivera
Mãe ‑ que adormente este viver dorido.
E me vele esta noite de tal frio,
E com as mãos piedosas até o fio
Do meu pobre existir, meio partido...

Que me leve consigo, adormecido,
Ao passar pelo sítio mais sombrio...
Me banhe e lave a alma lá no rio
Da clara luz do seu olhar querido...

Eu dava o meu orgulho de homem – dava
Minha estéril ciência, sem receio,
E em débil criancinha me tornava,

Descuidada, feliz, dócil também,
Se eu pudesse dormir sobre o teu seio,
Se tu fosses, querida, a minha mãe!
Antero de Quental

segunda-feira, abril 23, 2018

Bichinho-de-conta

Bichinho-de-conta
conta…
E o bichinho-de-conta
contou
que um dia
se enrolou
e parecia
um berlinde pequenino
de tal maneira
que um menino
de brincadeira
com ele jogou…
Bichinho-de-conta
conta…
E o bichinho-de-conta
contou.
Sidónio Muralha


quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Poema de Amor

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes a velha fábula
do lobo que matou o cordeiro
e lhe roeu as entranhas,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou — mal ou bem.

Depois, sabes, estou enjoado
desta farsa.
Histórias, fábulas, amores
tudo me corre os ouvidos
a fugir.

Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada,
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou.

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz.

...Quero-me só, a sofrer e arrastar
a minha cruz.
Fernando Namora"Relevos"

Amor de Carnaval (Decisão)


Oiça a música Amor de Carnaval (Decisão) do brasileiro Gilberto Gil.

Eu não quero mais chorar
Por causa de um amor qualquer
Minha dor tem que acabar
No carnaval, se deus quiser

Faz um ano deste amor
Esperei até cansar
Carnaval me trouxe a dor
Carnaval tem que levar


sábado, janeiro 06, 2018

Poetas




Hoje Dia de Reis assista ao video clip do cantautor espanhol Raúl Alcover, Poetas.
Raúl Alcover é um músico, cantor e compositor espanhol nascido em Granada (Espanha).
O seu primeiro disco "En esta tierra" valeu-lhe ser destacado pelos críticos e profissionais da música como um dos mais importantes autores andaluzes.
Aqui fica um presente de Dia da Reis para todos os que amam a poesia.

domingo, dezembro 10, 2017

Nostalgia da Luz

Hoje, Dia Internacional dos Direitos Humanos, proponho-lhe que veja o filme, Nostalgia da Luz  (2010), do género documentário, do realizador chileno, Patricio Guzmán.

Sinopse:
No Chile, a três mil metros de altitude, astrónomos do mundo inteiro encontram-se no deserto para observar as estrelas. Neste lugar, a transparência do céu permite ver os confins do Universo.
Este documentário descreve mediante imagens e entrevistas o trabalho dos astrónomos no deserto de Atacama. O céu privilegiado desta região tornou-se o local ideal para a localização dos melhores observatórios astronómicos do mundo.
Em contraposição, a secura e a salinidade do solo nesta região, preserva os restos humanos quase intactos, mumificando os cadáveres de exploradores, mineiros, índios e prisioneiros políticos da ditadura.
Assim, enquanto os astrónomos buscam a vida extraterrestre, um grupo de mulheres, familiares dos detidos desaparecidos no Chile, durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, continuam a procurar os restos mortais dos seus entes queridos, removendo pedras no meio do deserto de Atacama.
Um filme (que pode ver aqui) sobre a distância entre o céu e a terra, entre a luz do cosmos e os seres humanos e as idas e voltas que se criam entre eles
   
NOSTALGIA DA LUZ, de Patricio Guzmán - trailer from Midas Filmes on Vimeo.

sábado, novembro 11, 2017

A Verdadeira História do Verão de São Martinho




Assista à recriação da história de São Martinho, em formato de Radionovela!
Atenção, pois esta é a verdadeira história! Não é de certeza aquela que provavelmente conhece.
A equipa da Super dá voz às mais caricatas personagens e garante que esta radionovela é de rir até não poder mais!
Não perca agora "A Verdadeira História do Verão de São Martinho".

quinta-feira, outubro 05, 2017

Ninguém Esquece Um Bom Professor

Celebra-se hoje O Dia Mundial do Professor. A data foi criada pela UNESCO em 1994 com o objetivo de chamar atenção para o papel fundamental que os professores têm na sociedade e na instrução da população.
O Dia Mundial do Professor homenageia todos os que contribuem para o ensino e para a educação da sociedade. Este dia promove todos aqueles que escolheram o ensino como forma de vida e que dedicam o seu dia-a-dia a ensinar, crianças, jovens e adultos.
O que se pretende com esta celebração é mostrar a dignidade e a importância do professor na sociedade, como construtor de pessoas.
Aprecie agora os vídeos abaixo cuja mensagem central é: "Ninguém Esquece Um Bom Professor"
TTA 'No one forgets a good teacher' from The VFXCo - Motion Control on Vimeo.
Veja agora um vídeo onde John Cleese, Bob Hoskins, Joanna Lumley, Stephen Hawking e Tony Blair entre outras celebridades dizem o nome de professores que lhes marcaram a vida e sem os quais dificilmente teriam sucesso nas suas profissões (Filme realizado por Mike Stephenson e Paul Weiland para a Film Company).

sábado, junho 10, 2017

Portugal by Miguel Esteves Cardoso


Hoje é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.
Para assinalar este dia especial, proponho-lhe que assista a um entrevista (de 2006) de Miguel Esteves Cardoso, ao historiador Rui Ramos (RTP).
O jornalista Miguel Esteves Cardoso, com ironia e olhar distanciado lista e caracteriza os "padrões de cultura" da actual sociedade portuguesa. A conversa corre como se MEC procurasse traçar o perfil de uma sociedade ideal (mas portuguesa).
Não perca, porque vale bem a pena.